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Jogos Inverno 2010

Aos 19, patinadora carrega pressão do "tamanho" da Coreia

23 fev 2010 - 11h23
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Jere Longman

Oficialmente, a patinadora Kim Yu-na, da Coreia do Sul, será julgada apenas pelas suas piruetas e saltos, quando for iniciada a competição na patinação artística solo feminina, terça-feira, nos Jogos de Inverno de Vancouver. Mas as suas apresentações durante a prova também mostrarão importantes elementos políticos e culturais.

Nenhum patinador artístico da Coreia do Sul conquistou uma medalha olímpica até hoje, quanto mais uma medalha de ouro, e é essa a expectativa do país com relação à esguia Kim, 19 anos. Ela não só precisa carregar nos ombros uma imensa expectativa atlética, mas também deve encarar como principais rivais duas patinadoras, Mao Asada e Miki Ando, que vêm do Japão, um país que ocupou e colonizou a península coreana por 35 anos, até o final da Segunda Guerra Mundial.

Passado mais de meio século do final dessa ocupação, o fervor nacionalista da Coreia do Sul e a indignação do país com relação ao sofrimento que lhe foi imposto pelo Japão, continua a alimentar a rivalidade esportiva entre os dois países. O período de preparação para os Jogos de Inverno foi caracterizado por forte antecipação quanto ao estilo bonito, desenvolto e veloz de Kim no rinque, mas também por vitriólicos ataques ao seu desempenho, na Internet, e pelo medo de que ela venha a perder pontos devido a problemas de qualidade em seus saltos triplos combinados.

"O sangue dos sul-coreanos ferve quando o seu país compete contra o Japão, nos esportes ou em qualquer outra coisa", disse Song Doo-heon, professor de ciência da computação na Universidade de Yong-in Songdam, na Coreia do Sul. Ele mantém um blog sobre patinação artística e é um dos comentaristas mais populares do país com relação ao desempenho de Kim.

A patinação artística tem tanto de arte quanto de esporte. Kim, muito mais que uma atleta, funciona como um ícone cultural para seu país. Por isso, diz Song, a disputa entre Kim e suas rivais japonesas será vista como "um referendo sobre a posição relativa das culturas dos dois países na estima do restante do mundo".

Já que Kim é considerada como heroína nacional na Coreia do Sul, "sua derrota ou sua vitória será percebida como derrota para o país ou vitória para o país", disse Kyung-ae Park, cientista político que é professor da cátedra de estudos coreanos na Universidade da Colúmbia Britânica, em Vancouver.

"Caso ela conquiste a medalha de ouro", disse Park, "creio que isso representará um grande estímulo para o orgulho nacional da Coreia do Sul. De certa maneira, servirá para compensar as humilhações que sofremos no passado".

O primeiro coreano a conquistar uma medalha olímpica de ouro, Sohn Kee-chung, venceu a maratona na Olimpíada de Berlim, em 1936, mas competiu defendendo o Japão, que colonizava seu país, e adotou um nome japonês para a disputa. No entanto, sempre foi um feroz defensor do nacionalismo coreano e sua história continua a ser ensinada às crianças nas escolas da Coreia do Sul.

"Eu conheço a história dele", declarou Kim durante o torneio de patinação Skate America, realizado em novembro nos Estados Unidos. "E tentarei ser como ele".

Alguns especialistas sul-coreanos sugerem que os sentimentos de hostilidade ao Japão no país se reduziram depois que Kim conquistou o mundial de patinação artística de 2009, derrotando Asada e Ando, campeãs das duas edições anteriores do torneio. Além disso, quando os dois países serviram juntos como anfitriões da Copa do Mundo de futebol, em, 2002, a seleção sul-coreana foi mais longe que a do Japão na competição e chegou às semifinais.

"O sentimento de hostilidade aos japoneses nos esportes se reduziu bastante", disse Chung He-joon, professor de ciência do esporte na Universidade Dong-A, Coreia do Sul. "Já não é mais tão intenso quanto no passado, em parte porque a Coreia do Sul costuma derrotar o Japão com frequência em disputas esportivas, especialmente no futebol. O fervor nacionalista também encontrou outras válvulas de escape - por exemplo, na forma de sentimentos de hostilidade contra os Estados Unidos. Hoje em dia, temos até muitos fãs sul-coreanos de Mao Asada, porque ela é bonita".

Kim também é popular no Japão, disse Lee Yun-hyang, uma intérprete olímpica que nasceu em Seul, Coreia do Sul, e hoje trabalha para o Departamento de Estado dos Estados Unidos. A inimizade dos sul-coreanos com relação a Asada e Ando nem se compara ao antagonismo que sentem com relação ao patinador Apolo Anton Ohno, dos Estados Unidos, que só conseguiu a vitória e medalha de ouro em uma prova curta nos jogos de inverno de 2002 devido à desclassificação de um rival da Coreia do Sul.

"Queremos que Kim se saia bem, mas não queremos que Mao Asada caia", disse Lee. Mas, ela reconheceu, "sempre que jogamos contra o Japão, em qualquer esporte, temos de ganhar".

Chung, o professor de ciência do esporte, diz que a Coreia do Sul parece única no sentido de que "o país inteiro sorri ou chora a depender do sucesso ou do fracasso de um atleta", uma perspectiva que ele considera "um tanto absurda", se considerado que "esses atletas fazem o que fazem em busca do sucesso e da fortuna pessoais".

Michelle Kwan, americana que conquistou duas medalhas olímpicas na patinação artística, viu de perto a paixão da Coreia do Sul por Kim ao visitar Seul, no mês passado, como enviada do Departamento de Estado americano, em uma missão de boa vontade. Ela viu a imagem de Kim em numerosos outdoors e em constantes replays televisivos de seus melhores momentos em passadas competições.

"Ela é a irmãzinha de todos, no país", disse Kwan. "E isso significa que vive sob intensa pressão".

Essa pressão, é claro, poderia significar uma generosa recompensa financeira caso Kim - que já fatura US$ 5 milhões ano com seus contratos de patrocínio, de acordo com o agente que a representa - transforme as expectativas em uma medalha de ouro.

"Caso ela saia vencedora, se transformará em uma godzilionária", disse Frank Carroll, americano que treina Mirai Nagasu, sua compatriota de ascendência japonesa, misturando um pouco a nacionalidade de sua metáfora.

Mas a pressão também pode pesar. Kim vem treinando em Toronto, a milhares de quilômetros dos fãs que tanto a adoram. No Skate America, realizado em novembro em Lake Placid, Nova York, ela venceu na categoria geral mas parecia nervosa durante um programa longo repleto de erros, e isso diante dos olhos de uma caravana de torcedores sul-coreanos que vieram especialmente da cidade de Nova York em ônibus fretados.

Aqui em Vancouver, Kim vem parecendo tensa e enfrentou dificuldades para realizar o flip triplo nas sessões de treinamento, enquanto Asada domina o axel triplo, uma manobra mais complicada. No entanto, durante a sessão de treinamento da segunda-feira, Kim estava sorrindo e parecia confiante. Depois que ela deixou o rinque, seu técnico, Brian Orser, disse que "creio que o dia de hoje tenha sido o momento da virada".

As quatro medalhas de ouro vencidas pela equipe de patinação de velocidade da Coreia do Sul ajudaram a aliviar ao menos em parte a pressão sobre Kim. Mas apenas em parte. Caso ela saia derrotada, "haverá uma espécie de pânico" na Coreia do Sul, lamentou Chung, o professor de ciência esportiva.

"A sociedade e a mídia deram destaque demasiado a ela", ele avaliou. "Termos um país inteiro dependendo de apenas uma atleta - como se uma crise pudesse abalar a nação caso ela não consiga a medalha de ouro - não representa uma boa demonstração de espírito esportivo".

Entenda a prova individual de patinação artística

No evento individual, os patinadores têm que cumprir um curto programa de no máximo 2min50 de passos, saltos, giros e combinações e outro mais longo e livre (de 4min no feminino e 4min30 no masculino).

O vencedor é eleito por juízes baseando-se em um painel técnico, que demonstra o nível de dificuldade dos movimentos e sua sintonia com a música.

Jogos Olímpicos de Inverno no Terra

O Terra transmite ao vivo a competição em 15 canais simultâneos de vídeo. Além disso, os usuários têm a possibilidade de assistir novamente a todo o conteúdo a qualquer momento. Todo o acesso é gratuito.

Uma equipe de 60 profissionais está encarregada de fazer a cobertura direto de Vancouver e dos estúdios do Terra, em São Paulo, no Brasil, com as últimas notícias, fotos, curiosidades, resultados e bastidores da competição.

A equipe conta com a participação do repórter especialista em esportes radicais Formiga - com 20 anos de experiência em modalidades de neve -, e o pentacampeão mundial de skate Sandro Dias, que comenta a competição em seu blog no Terra.

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Tradução: Paulo Migliacci

Dupla inova e patina ao som de Metallica:
The New York Times
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