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"Tem que mostrar mesmo", diz Marta sobre sensualidade no esporte

23 jul 2012 - 11h44
(atualizado às 12h04)
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Leandro Miranda
Direto de Londres

Aos 26 anos, ela já é uma lenda. Eleita cinco vezes seguidas a melhor jogadora do mundo pela Fifa - um recorde da história do futebol - e primeira mulher a por os pés na calçada da fama do Maracanã, Marta Vieira da Silva se tornou não apenas o símbolo de uma Seleção que, por mais talentosa que seja sua atual geração, ainda carece de um título de primeira grandeza. Ela é também uma porta-voz do futebol feminino como um todo, falando não só de experiências de dentro do campo, mas também do sonho de popularizar a modalidade e de ter uma estrutura forte e profissional no Brasil.

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No Hotel Marriott, em Cardiff, País de Gales, onde a Seleção se prepara para a disputa da Olimpíada de Londres, a atacante abordou todos esses assuntos em conversa exclusiva com o Terra. Para Marta, na busca por visibilidade e interesse do público, o esporte feminino deve, sim, usar a seu favor a sensualidade e a beleza das atletas.

"Sou a favor, tem que mostrar mesmo, mostrar sua beleza, tem que se cuidar", opinou. "O futebol feminino há uns anos tinha uma imagem bem negativa, hoje não é tanto assim. Existe um pouco de preconceito, mas não igual era antes. As meninas hoje se vestem muito bem, têm sua vaidade, gostam de estar sempre bonitas. (O preconceito) é mais por aquele lado de que o futebol é um esporte masculino, então os homens olhavam de uma forma diferente".

Natural de Dois Riachos, cidade no interior de Alagoas com cerca de 12 mil habitantes, Marta foi eleita a melhor do mundo pela primeira vez em 2006, com 20 anos. Depois, foram mais quatro troféus individuais consecutivos (2007, 2008, 2009 e 2010), mas o desempenho coletivo com a Seleção não teve as mesmas glórias. Os dois maiores títulos foram os Jogos Pan-Americanos de 2003 e 2007; já nas competições mais importantes - Mundiais de 2007 e 2011, e Olimpíadas de 2004 e 2008 - o Brasil nunca foi campeão. Em três finais com Marta, perdeu todas.

A camisa 10 crê que uma conquista de primeiro nível possa ser um passo decisivo para aproximar o apelo do futebol feminino ao nível do esporte masculino - apesar de considerar "impossível" que as modalidades se igualem no gosto do brasileiro, Marta admitiu que tem como sonho, quando se aposentar, assistir a um campeonato nacional organizado e transmitido em TV aberta no País.

"O pensamento é que, quando eu parar mesmo de jogar, eu possa sentar no sofá da minha casa, ligar a TV e ver um jogo de futebol feminino em um campeonato nacional, com estrutura para as meninas. Lógico que é um sonho muito grande chegar a comparar o futebol feminino ao patamar do masculino, acho que isso é impossível. Mas que pode melhorar muito, pode", afirmou.

Defendendo desde fevereiro o Tyresö, da Suécia, o principal ícone da modalidade também falou ao Terra sobre as diferenças na organização do esporte em relação ao Brasil, o polêmico fechamento do time feminino do Santos no início do ano, além de seus passatempos pessoais e planos para o futuro. E confessou que, às vezes, ainda se impressiona com a velocidade com que tudo aconteceu em sua carreira.

"Espero poder no final de tudo contar as histórias para os meus familiares, quem sabe meus filhos, meus amigos, e incluir uma medalha de ouro nessas histórias", disse ela. E se depender da confiança da craque do time na capacidade desta Seleção de superar os tropeços do passado, a Olimpíada de 2012 pode ser a consagração definitiva de Marta.

Confira a entrevista exclusiva com Marta, atacante da Seleção Brasileira:

Terra - Como é ser considerada a melhor jogadora de todos os tempos aos 26 anos?

Marta -

É um privilégio muito grande, sempre sonhei em chegar a um patamar destes, mas chegou a ser uma coisa um pouco extrema na minha vida. Às vezes eu paro para pensar, e muitas coisas que aconteceram ainda não 'caiu a ficha'. Então é sem dúvida uma honra muito grande poder ter conquistado tudo isso. Espero poder no final de tudo contar as histórias para os meus familiares, quem sabe meus filhos, meus amigos, e incluir uma medalha de ouro nessas histórias.

Terra - Ser eleita a melhor do mundo ainda é uma prioridade ou você coloca como mais importante na sua carreira as conquistas coletivas? Falta ainda um grande título pela Seleção?

Marta -

Sem dúvida é muito bom ganhar prêmios individuais, especialmente como melhor jogadora. Mas minha prioridade é um prêmio coletivo, uma Olimpíada, um Mundial com a Seleção. É algo que a gente ainda não conquistou, e que com certeza irá coroar o trabalho de uma equipe toda, não só de uma jogadora. É algo coletivo, e isso falta ainda para a gente. É a maior prioridade no momento.

Terra - Qual das derrotas em torneios importantes pela Seleção (Olimpíada 2004, Mundial 2007, Olimpíada 2008, Mundial 2011) você mais sentiu?

Marta -

Tem várias situações em que a gente ficou chateada, por termos chegado a finais e não ter conquistado, em alguns momentos estar melhor no jogo e no final de tudo as coisas não terem dado certo. Mas o mais recente é o jogo contra os Estados Unidos na Copa do Mundo de 2011, onde estávamos ganhando o jogo, já na prorrogação, e faltando muito pouco pra acabar a gente deixou escapar uma jogada, Acabou em empate e fomos para os pênaltis, em que é aquela coisa, muito psicológico, muito de cada jogadora, a gente nunca sabe o que vai acontecer. É o mais recente, e a gente tem algumas coisas dessa partida que trazemos conosco, para que não aconteça novamente.

Terra - qual a sua maior alegria e a sua maior decepção no esporte?

Marta -

Não classifico como pior momento, mas um momento muito difícil para mim foi em 2007, quando a gente perdeu a final para a Alemanha no Mundial (2 a 0), e eu perdi um pênalti. Tínhamos tudo para vencer aquele Mundial, estávamos muito fortes, com a equipe muito preparada, era um momento bem bacana no futebol feminino, e acabou que a gente falhou novamente na final. Já momentos positivos e alegres são vários, desde o primeiro momento em que a gente disputou uma final na Olimpíada em 2004 e ficamos com a prata. Foi um momento especial, e a partir daí passou a dar um passo a mais a cada ano para a modalidade. Também o Pan do Rio (2007), onde a gente jogou a final com 70 mil no Maracanã. São várias emoções positivas que eu vivenciei.

Terra - A Seleção Brasileira, que nos últimos 10 anos foi vice em duas Olimpíadas, um Mundial e um Pan, tem alguma barreira psicológica na hora de decidir?

Marta -

Psicologicamente, a gente está bem melhor hoje. A gente está se preparando a cada dia, temos profissionais para isso, e é mais aquele momento em que tem que ser fria, ter a calma para decidir. Isso a gente só aprende no dia a dia e participando de competições desse nível. Não foi tanto psicológico, mas tem um pouco disso também. De uma forma geral alguma coisa faltou, então é isso que a gente está procurando descobrir nos nossos trabalhos, para que não falte agora desta vez, e a gente possa fazer o trabalho completo.

Terra - O que seria da visibilidade do futebol feminino no Brasil se você não existisse?

Marta -

Não sei, a culpa não é minha (risos). É complicado falar sobre isso. Acho que não é só a Marta mas uma geração de jogadoras de alto nível que temos hoje, como Formiga, Maurine, Fabiana... o grupo todo está muito bem desenvolvido. E pelos últimos resultados que a gente vem apresentado, os últimos jogos em competições de alto nível, em que nunca tínhamos chegado em finais... essas coisas mudaram também um pouco o modo de as pessoas verem o futebol feminino. Isso não foi só a Marta, foram minhas companheiras também, o trabalho que a gente tenta desenvolver a cada competição.

Terra - Você acha válido os esportes femininos ganharem destaque muitas vezes pelas mulheres bonitas, por ensaios sensuais? É uma forma boa de chamar atenção para o esporte?

Marta -

Eu não sou contra a mulher mostrar sua beleza. Não sei se em excesso, porque seria engraçado se alguém posasse aqui sensualmente, mostrando tudo. Lá no jogo o pessoal na arquibancada sem dúvida ia soltar muita piadinha. A gente até comentou que a Maurine fez fotos sensuais, então quem sabe ela não é uma das candidatas (risos). Então sou a favor, tem que mostrar mesmo, mostrar sua beleza, tem que se cuidar. O futebol feminino há uns anos tinha uma imagem bem negativa, hoje não é tanto assim. Existe um pouco de preconceito, mas não igual era antes. As meninas hoje se vestem muito bem, têm sua vaidade, gostam de estar sempre bonitas. (O preconceito) é mais por aquele lado de que o futebol é um esporte masculino, então os homens olhavam de uma forma diferente. Mas hoje as coisas estão mudando.

Terra - Que modelo deveria existir para o futebol feminino no Brasil? Como a organização é feita na Europa?

Marta -

Por jogar bastante tempo fora do Brasil, a gente acaba se baseando no que vê fora. Na Suécia, a liga existe há bastante tempo, vai até a quarta divisão. Nem em todas as divisões as atletas são profissionais e ganham bem financeiramente, mas a primeira é bastante forte, bem competitiva, bem organizada, tem uma comissão em todos os jogos, é uma coisa bem projetada mesmo. Acho que as pessoas que têm realmente como fazer algo para a modalidade crescer no Brasil deveriam se espelhar nesses países que têm liga, procurar saber como é feito, qual a forma que eles usam, o tipo de organização. Através disso, iam aparecer patrocinadores, empresas interessadas. A coisa tem que ser mostrada para que os patrocinadores tenham interesse. Não adianta patrocinar uma equipe em que os jogos não passam na televisão, não são transmitidos, não tem competição duradoura de pelo menos seis, sete meses. Então tem que ser uma coisa em conjunto.

Terra - O que achou do fim do futebol feminino no Santos? Hoje você entende o lado do clube ou acha que o presidente Luis Alvaro poderia ter feito mais?

Marta -

Sem dúvida, foi uma coisa bem negativa para o futebol feminino no Brasil, porque já não havia tantos clubes de nome com a modalidade. E com o término, parecia que tudo iria por água abaixo. As meninas não tinham onde jogar, os clubes que apareciam a maioria das pessoas não tinha ouvido falar. Foi uma coisa bem triste mesmo. Não acho que seria difícil manter uma equipe feminina no Santos, porque o custo era muito baixo, e para uma equipe como o Santos, que tem vários patrocinadores, uma estrutura toda daquelas, teria condições, sim, de manter a equipe. Até porque não tinham meninas que ganhavam milhões. Era só para ter mais uma opção de trabalho, quem sabe inspirar outros clubes de nome, e futuramente a gente ver um campeonato no Brasil com possibilidade de disputa acirrada, com nível bem alto.

Terra - Você vê o futuro do futebol feminino brasileiro com bons olhos? Quando se aposentar, a tendência é haver uma situação pior ou melhor que a atual?

Marta -

Pior não, tem que ser melhor. O pensamento é que, quando eu parar mesmo de jogar, eu possa sentar no sofá da minha casa, ligar a TV e ver um jogo de futebol feminino em um campeonato nacional, com estrutura para as meninas. Lógico que é um sonho muito grande chegar a comparar o futebol feminino ao patamar do masculino, acho que isso é impossível. Mas que pode melhorar muito, pode.

Terra - O que você traz na mala para uma viagem longa como a Olimpíada? O que faz na concentração, no hotel?

Marta -

A gente procura fazer sempre alguma coisa. Gosto de me aventurar tocando violão, algumas meninas às vezes trazem vídeo game para a gente jogar futebol. Gosto de ouvir muita música, especialmente forró lá de Alagoas, que dá para matar a saudade, voltar o tempo um pouco. E assim vão passando as nossas horas vagas.

Terra - Já pensou o que vai fazer da vida quando a carreira acabar? Tem algum plano de carreira?

Marta -

Às vezes eu penso umas coisas, às vezes penso outras (risos). Mas nada concreto. Eu penso talvez, futuramente, em montar uma escolinha, um projeto meu, uma coisa com que eu possa dar continuidade ao que eu sempre fiz em toda a minha vida. Mas isso é mais específico para Alagoas, para a minha cidade, estar sempre envolvida em alguma coisa direcionada ao esporte.

Olimpíada ao vivo no Terra

O Terra, maior empresa de internet da América Latina, transmitirá ao vivo e em alta definição (HD) todas as modalidades dos Jogos Olímpicos de Londres, de 25 de julho e 12 de agosto de 2012. Com reportagens especiais e acompanhamento do dia a dia dos atletas, a cobertura conta com textos, vídeos, fotos, debates, participação do internauta e repercussão nas redes sociais.Confira os grupos do torneio feminino abaixo:

Fonte: Terra
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