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"Paulo Julio Clement, obrigado por me estender a mão"

Comentarista do canal Fox Sports foi uma das vítimas do acidente aéreo na Colômbia com a delegação da Chapecoense e grupo de jornalistas

29 nov 2016
11h56
atualizado às 16h34
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"Voltemos no tempo. Estamos em 1989 e várias seleções de futebol estão no Brasil para a disputa da Copa América. Estou no Jornal dos Sports, recém-contratado, e credenciado para a cobertura do evento. Minha primeira viagem de avião está em curso. Viajo do Rio para Goiânia a fim de acompanhar um dos grupos da Copa.

Meu medo de viagens de avião é crônico. Medo, aliás, é pouco. O que tenho é pavor mesmo. Levo o terço que recebi de minha mãe. Rezo e não consigo disfarçar a tensão. Nada me distrai no voo. Nem jornais e livros ao meu alcance, tampouco a conversa animada de colegas jornalistas que dividem comigo a viagem.

Paulo Julio Clement, comentarista do canal Fox Sports, foi uma das vítimas do acidente aéreo na Colômbia com a delegação da Chapecoense e grupo de jornalistas
Paulo Julio Clement, comentarista do canal Fox Sports, foi uma das vítimas do acidente aéreo na Colômbia com a delegação da Chapecoense e grupo de jornalistas
Foto: Reprodução/Fox Sports Brasil

Noto que algumas pessoas me observam com curiosidade, talvez compaixão. Ao meu lado, Paulo Julio Clement, do Jornal O Dia, é um deles. Estudamos na mesma faculdade, somos amigos e ele não se cansa de me lembrar do gol que marcou contra mim, então goleiro, numa disputa interna dos estudantes de jornalismo.

'Levar gol de cabeça, Sílvio, no futebol de salão (futsal), isso é marcante.' Ele me provoca, e provavelmente faz isso para me acalmar.

Às vezes, tento espiar pela janela e meu olhar se perde em imagens brumosas que me remetem a um estado de letargia. Melhor assim, penso. O voo prossegue e chega o momento que eu mais temia. Nuvens espessas levam o avião a sacudir. A turbulência nem é tão intensa assim. Mas isso basta.

Começo a passar mal, minhas mãos ficam geladas. O suor encharca minha camisa. Tenho vontade de correr, de pular, de sair dali. Estou convicto de que o avião vai cair. Num gesto instintivo, peço ao Paulo Julio que segure a minha mão. Solidário e estranhando todo aquele sofrimento, ele repete 'calma, camarada, não é isso tudo, calma!'

Passam-se os anos, e eu abro um sorriso ao encontrar com ele numa dessas coberturas de eventos esportivos e cantar 'Foi por medo de avião que eu segurei pela primeira vez a tua mão.' Ele também sorri. Acha graça naquilo. Talvez nunca tenha tido a ideia da extensão e importância daquele gesto tão breve, tão passageiro e tão reconfortante.

Hoje, 29 de novembro de 2016, nossos papeis se inverteram. Sou eu que estendo as mãos para o meu amigo e sua família, com um abraço fraterno em Flavia e no filhinho deles, o tricolor Theo, de 7 anos, orgulho dos pais. Muito obrigado, Paulo Julio."

Fonte: Especial para Terra
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