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Futebol

Ameaças e deboche: advogado fala sobre vida após Caso Lusa

André Müzzel / Futura Press
11 nov 2015
11h15
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Osvaldo Sestário, 48 anos, advogado e especialista em direito esportivo, é uma daquelas vítimas da fraqueza alheia, lançado por circunstâncias ainda não esclarecidas ao centro de uma polêmica que lhe custou ameaças, noites mal dormidas, tratamento psicológico e inúmeras situações de constrangimento. Tudo isso por algo sobre o qual não teve nenhuma responsabilidade. Sestário era o advogado da Portuguesa no final de 2013, quando em razão da escalação irregular de um atleta (Heverton), em jogo com o Grêmio, a Lusa foi punida com a perda de quatro pontos e acabou rebaixada para a Série B do Campeonato Brasileiro.

Conhecido como o "Caso Lusa", o imbróglio é investigado pelo Ministério Público de São Paulo, que deixou sob suspeição dois clubes, Flamengo e Fluminense, os que teriam interesse no erro que resultou no descenso da Portuguesa. Os dois cariocas negam que tenham cometido alguma ilegalidade. Em meio ao turbilhão que tomou o noticiário esportivo no final de 2013, o nome de Sestário ficou em evidência por ter sido apontado pela Lusa como o grande vilão da queda do clube paulista. Seus dirigentes alegaram que Sestário não repassou a informação de que Heverton havia sido suspenso pelo STJD por dois jogos e portanto não teria condições de enfrentar o Grêmio. Depois, mudaram a versão mais duas vezes.

Somente meses depois, o MP de SP inocentou publicamente Osvaldo Sestário e voltou suas investigações para dirigentes da Portuguesa. Mas o advogado ainda sofre com constrangimentos até hoje e pede na Justiça R$ 1 milhão à Lusa por danos morais. Nesta entrevista exclusiva ao Terra, dois anos depois de ganhar destaque negativo na mídia nacional e internacional, Sestário conta como o caso afetou sua vida particular e profissional.

Terra - Depois de dois anos, o que ficou daquele episódio?
Sestário
– Algumas sequelas e é difícil combatê-las. Vivi num inferno, fiquei muito assustado com a repercussão e sofri ameaças por telefone e pela internet. Teve gente que me ligou dizendo que conhecia bem o meu itinerário de casa para o trabalho. Registrei boletim de ocorrência e passei a dormir sob efeito de tranquilizante. Fiz tratamento psicológico, preocupado também com minha família. Minhas filhas me ligavam de Brasília muito nervosas, apreensivas comigo. Até hoje, eu pego um táxi ou vou a um shopping ou restaurante no Rio e sempre tem aquele olhar desconfiado, com risinho, ar de deboche. Já tive de ouvir algo como “e aí, quem pagou mais?”, numa alusão a um eventual suborno pela escalação irregular do atleta da Portuguesa.

Terra - E como o senhor reage nessas situações?
Sestário
– Eu fico às vezes sem reação. Quando alguém puxa assunto e pergunta, lá vou eu explicar tudo de novo. Mas há situações em que o constrangimento é enorme. Num café, poucos meses atrás, eu estava com um cliente e outros advogados do escritório quando chegou um rapaz e cumprimentou um a um. Parecia íntimo de todos, embora ninguém dali do meu grupo o conhecesse. Na hora de apertar a minha mão, ele disse "saudações tricolores" e foi embora rindo. Foi um grande mal-estar. Também não esqueço do médico de minha esposa, então grávida, que ficou repetindo baixinho o meu sobrenome até ter um estalo e me perguntar se eu não era o advogado do caso da Portuguesa. E aí, no meio da consulta, eu me vi obrigado a repetir tudinho de novo.

Terra - Esses dois incidentes foram os mais graves?
Sestário
– Não, teve um bem pior, mas eu não gostaria de falar. (Sestário hesita um pouco e então o também advogado Flavio Fonseca, sentado ao lado, o interrompe e enfatiza que ele deve sim falar, que é importante contar a história). Bom, em setembro eu fui convidado para fazer uma palestra em Brasília, sobre Lei Pelé. Por coincidência, no voo do Rio até a capital federal eu me sentei ao lado do presidente do Flamengo (Eduardo Bandeira de Mello). Conversamos bastante durante a viagem, ele se mostrou muito simpático e me pediu para contar toda aquela história de novo. Antes da despedida, descobrimos que tínhamos sido convidados para uma recepção naquela noite, na mesma casa. Ele então me disse: "À noite, a gente continua". Já no local do jantar, que reuniu umas 50 pessoas, do meio jurídico, do esporte a da política em Brasília, eu estava numa roda, descontraído, quando um amigo me puxou pelo braço e foi direto: "O presidente do Flamengo está num carro lá fora e só participa do evento se você for embora. Você tem que ir agora. Vamos". Eu fiquei atônito, não sabia nem o que dizer ou fazer. Por respeito à anfitriã e aos amigos, eu me retirei em silêncio. Recebia ali mais um duro golpe. Foi algo muito desagradável, uma humilhação como jamais eu havia passado. No dia seguinte, na Câmara, durante a palestra, o presidente do Flamengo me cumprimentou como se nada tivesse acontecido. Ou seja, eu ainda pagava o ônus de ter sido envolvido num imbróglio do qual não tive culpa. Suponho que algum assessor do presidente do Flamengo o tenha alertado sobre o "risco" de ser fotografado ao meu lado.

Terra - O que o senhor pede em ação movida contra a Portuguesa?
Sestário
– Eu gostaria de deixar esse assunto com o Flavio, que é o advogado do nosso escritório que cuida do caso. (Flavio Fonseca conta que a ação por danos morais requer R$ 1 milhão da Portuguesa, que ela foi movida em maio de 2014 e corre em segredo de justiça. Ele diz ainda que Sestário chegou a desistir da ideia, mas acabou demovido, em razão mesmo da manifestação de outros advogados do escritório e de dirigentes de clubes que lhe foram solidários).

Terra - O presidente da Portuguesa, naquele período, era Manuel da Lupa. Voltou a falar com ele?
Sestário
– Não, os contatos foram apenas naqueles dias de julgamento do caso na Justiça E

sportiva. Lamento que ele e outros dirigentes da Portuguesa, clube que eu respeito por sua história, tradição e por sua torcida apaixonada, lamento que eles tenham atirado meu nome na lama. Primeiro, disseram que eu não tinha avisado o clube sobre a punição do atleta. Depois, que eu informei errado, afirmando que o Heverton só teria sido suspenso por uma partida. Por fim, inventaram uma terceira versão: a de que eu comuniquei ao clube apenas sobre o processo de outro atleta da Portuguesa, o Gilberto, também julgado naquela semana de dezembro de 2013 pelo STJD. Eu fui apunhalado pelas costas. Graças a Deus, sou conhecido no meio esportivo e recebi o apoio de muita gente do futebol. Mas, infelizmente, uma parte da opinião pública guardou imagem negativa de mim e até hoje sofro com isso no meu dia a dia.

Terra - O promotor Roberto Senise, do MP de São Paulo, que cuida do caso na esfera criminal, já inocentou o senhor publicamente, e já deixou claro que há evidências de fraude naquela história. O senhor concorda?
Sestário
– Eu não tenho em mãos os elementos de apuração que ele juntou. Sei que ele faz um trabalho sério e meticuloso. Mas eu tenho o hábito de acreditar no ser humano e ainda alimento a ideia de que aquilo tudo foi um baita descuido de quem deveria ter responsabilidade sobre a condição de jogo dos atletas. Não falo do técnico e sim dos departamentos do clube que deveriam cuidar disso.

Terra - O senhor perdeu clientes por causa disso tudo?
Sestário
– Não, meu escritório atende hoje a cerca de 30 clubes do futebol brasileiro. Só perdi mesmo a Portuguesa, porque não havia como continuar. Mas não sei, por exemplo, se deixei de receber algum outro serviço por conta do episódio. Nunca vou saber.

Fonte: Silvio Alves Barsetti

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