Hoje 'palhaço', ex-árbitro de futebol exige profissionalização e fim de tabus
Cada vez mais, a profissionalização dos árbitros ganha força como pauta do futebol brasileiro. Embora carregue o mesmo apelido do juiz que faleceu em 1995, o “Margarida” de Florianópolis constrói identidade própria ao levantar a bandeira do ativismo. Não só em nome dos profissionais do futebol, mas também por um esporte menos preconceituoso.
“Não há motivos para criticar a arbitragem dessa forma. A arbitragem no Campeonato Brasileiro foi uma sofrência nesse ano, mas a gente tem que entender que existem motivos que levam os árbitros a não atuarem com perfeição. É inadmissível cobrar de uma pessoa que não é profissional. Todos os envolvidos no espetáculo do futebol, do jogador ao gandula, são profissionais. O único elemento que não é profissional, que tem que ter um emprego paralelo, é o árbitro de futebol”, desabafou à Gazeta Esportiva.
Antes filiado à Federação Catarinense de Futebol, Margarida já não aparece mais no quadro de árbitros nacional desde 2004. Segundo ele, as dificuldades encontradas o obrigaram a investir na carreira circense. “Não temos tempo para nos preparar física e psicologicamente. Não tem como cobrar um trabalho digno dessa maneira. A maneira como estão tratando a arbitragem no Brasil é inadmissível. Nós temos que fazer com que todos os seguimentos cobrem a profissionalização. Só assim poderemos cobrar o árbitro como fazemos hoje”, prosseguiu.
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Mesmo longe dos gramados em âmbito competitivo, Margarida ainda não se livrou dos obstáculos. Afinal, a vida de espetáculos também não proporciona tanta voz e visibilidade aos seus profissionais como costumava fazer nos tempos de outrora, quando o circo ainda era reconhecido no Brasil. Ainda assim, o árbitro se orgulha por unir seu trabalho ao ativismo, como no uniforme cor de rosa que parece feliz em vestir.
“É até importante ressaltar que a gente não tem nada a ver com o Margarida do Rio de Janeiro (Jorge José Emiliano dos Santos, falecido em 95). Eu tenho o meu estilo próprio de corrida, os meus trejeitos. Eu fui o precursor de colocar uma cor tão feminina, como o rosa, em um esporte tão machista quanto o futebol. Eu me inspiro não só no Jorge Emiliano, mas no próprio Armadinho, o Morgadinho... Árbitros folclóricos que deram certo no Brasil. Estou dando seguimento a isso e, é claro, conhecendo as 17 regras”, explicou.
Na ocasião da entrevista, Clésio Moreira dos Santos – seu nome verdadeiro, pouco utilizado na vida de espetáculos que já o acompanha desde 1998 – apitava um atípico jogo entre palhaços no Pacaembu, hoje quase “esquecido” na disputa com as novas e modernas arenas do futebol paulista.
“O Pacaembu faz parte da história do futebol brasileiro e não pode ficar esquecido. Achei interessante trazer o jogo de palhaços para cá porque é a alegria, e onde tem alegria tem que ter algo a ver com o Pacaembu. Tomara que os nossos dirigentes possam olhar com mais carinho para cá, valorizar essa história toda”, pediu Clésio, que voltou a ser ovacionado em um estádio de futebol – desta vez, em tons rosas e na identidade de Margarida.
*especial para a Gazeta Esportiva