0

Escolinha de futebol de terra batida vira oásis no centro de São Paulo

Comunidade Esportiva do Glicério oferece aulas gratuitas sob o comando da Tia Eva, ex-moradora de rua

16 mai 2019
17h22
atualizado às 19h01
  • separator
  • 0
  • comentários

O pequeno campo de futebol de terra batida representa um oásis na paisagem sofrida da Baixada do Glicério, uma região dominada pelo tráfico de drogas no centro da cidade de São Paulo e se que se tornou uma minicracolândia nos últimos anos. Meninos e meninas correm atrás da bola e dos sonhos embaixo do viaduto do Glicério. Do lado de fora do muro, viciados em crack se empilham nas calçadas escuras. Contraste. Esse pedaço de esperança, que tem mais ou menos uns 60 metros, faz parte da Comunidade Esportiva do Glicério, projeto que oferece atividades esportivas e culturais para 253 crianças e adolescentes.

Na tarde chuvosa de quarta-feira, em uma sala colada no campinho, meninas fazem aula de balé. Mais cedo, o espaço simples oferecia ginástica rítmica. A comunidade oferece ainda vôlei e futsal. Tudo de graça. A comunidade recebe pedidos de inscrição de toda a cidade até da Zona Leste.

É um "pedaço do céu" nas palavras da líder do projeto, Eva Mariza Alves, tia Eva, como gosta de ser chamada. Hoje, o projeto é mantido com recursos do Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (FUMCAD) da Prefeitura de São Paulo, por meio da renúncia fiscal do Imposto de Renda. A ação já contou com patrocínios privados, que acabaram escasseando com a crise econômico no País.

Embora surpreenda quem passa pelo viaduto, no sentido Zona Leste, o espaço tem uma longa história, que começou nos anos 1980. A trajetória do campinho é a própria vida da tia Eva.

Aos 12 anos, ela saiu do interior de São Paulo para trabalhar como empregada doméstica numa "casa de família" da capital, expressão comum à época. Veio com a promessa de estudar e se formar. Não foi bem assim. Após dois anos, depois de maus tratos e impedida de sair de casa por sua tutora, ela fugiu de casa. Foram três anos perambulando pelo centro. Aos poucos, conseguiu emprego e se casou. Deixou de ser moradora de rua.

Depois de se mudar para o Glicério, ainda nos anos 1980, ela ficou incomodada com a falta de lazer para crianças que passavam o dia todo nas ruas. Ela decidiu começar a organizar os jogos de futebol que se espalhavam pelas esquinas. O problema era achar um lugar.

Após a enorme repercussão de uma reportagem sobre sua iniciativa do extinto Jornal da Tarde, que integrou o Grupo Estado, em 2003, Tia Eva passou a ser responsável pelo espaço público onde trabalha até hoje. Ela conseguiu a concessão por esquema de comodato com o governo de São Paulo. Segundo ela, são 90 anos de posse para a comunidade.

Além de oferecer esporte e cultura para crianças, o projeto também revela talentos para o futebol profissional. Matheus Saldanha, hoje no Santos, começou sua carreira embaixo do viaduto do Glicério. O mesmo acontece com Alan Guimarães, do Palmeiras. No feminino, a escolinha revelou Kathleen Cruz e Tainara Luna para o São Paulo. "Minha maior alegria é quando eu vejo que um ex-aluno do projeto traz seu filho para jogar comigo. Já estou na segunda geração de meninos", orgulha-se tia Eva.

O dilema de tia Eva é a reforma do gramado que substituir a terra batida por grama sintética. "Entendo pouco das regras do futebol, mas gosto de ver a poeira subir", conta a líder da Comunidade Esportiva do Glicério.

Estadão
  • separator
  • 0
  • comentários
publicidade