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Sérvia e Croácia: como Djokovic e Rakitic afetam o conflito?

Especialistas falam ao LANCE! sobre as mensagens de apoio dos atletas aos países, que são rivais. Finais de Wimbledon e da Copa do Mundo acontecerão neste domingo

14 jul 2018 23h24
| atualizado em 15/7/2018 às 09h48
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São 2.888 km de distância entre as duas finais. Em Moscou, a Croácia estará enfrentando a França na decisão da Copa do Mundo, enquanto Novak Djokovic estará em Londres disputando a partida que define o título de Wimbledon. Antes das bolas rolarem, as declarações do tenista e do jogador Ivan Rakitic demonstraram apoio aos países "rivais", o que reacendeu um barril de pólvora de uma guerra interminável.

Durante anos houve tensões entre a Croácia e a Sérvia por questões diplomáticas - ambas integravam a Iugoslávia até o começo da década de 90. Durante a Segunda Guerra Mundial, protagonizaram um duelo sangrento, e as tensões se intensificaram em 1991, quando foram iniciados vários conflitos pela independência croata - houve registro da morte de mais de 20 mil pessoas.

Djokovic e Rakitic podem ser campeões neste domingo (Foto: AFP)
Djokovic e Rakitic podem ser campeões neste domingo (Foto: AFP)
Foto: Lance!

Novak Djokovic movimentou essa relação entre os países. Através de suas redes sociais, o tenista publicou uma foto ao lado de jogadores da seleção croata e declarou apoio ao país na final da Copa do Mundo. Sua relação com o meio-campista Ivan Rakitic, do Barcelona, foi um dos principais fatores para essa aproximação e simpatia.

 

A reação imediata foi de revolta por parte dos sérvios. Entre os mais exaltados, o deputado Vladimir Djukanovic, do partido de direita SNS (Partido Sérvio do Progresso), o mesmo do presidente Aleksandar Vucic, detonou o tenista pela publicação. O mandatário o chamou de "idiota por apoiar a Croácia" e perguntou se "ele não teria vergonha disso". Entre os torcedores comuns, muitos diziam que Djokovic "não ligava para a Sérvia".

Do outro lado, Rakitic concedeu entrevista antes da decisão e também tocou no assunto, lembrando que o tenista disputará a final de Wimbledon contra o sulafricano Kevin Anderson. O meio-campista do Barcelona declarou que também irá torcer por ele na final do torneio, mas não sofreu tantas represálias por parte dos croatas.

"Tenho que tirar meu chapéu para ele. Torço por ele em Wimbledon, queria vê-lo jogar a final no domingo, seria fantástico se nós dois tivéssemos um grande dia. Somos seres humanos acima de tudo, temos que deixar a história para trás. Para mim, Djokovic é um fantástico atleta e uma fantástica pessoa. Recentemente nos encontramos em Miami, desejo toda a sorte do mundo a ele e espero que ambos celebremos no domingo", afirmou o meia do Barcelona.

A Croácia tem chamado a atenção no cenário internacional do esporte, como o caso da perda de pontos nas Eliminatórias da Copa do Mundo devido ao desenho de uma suástica no gramado. Mas como as declarações de Djokovic e Rakitic podem interferir diretamente nesta relação turva?

A doutora em história Rachel Motta comentou sobre o conflito entre Sérvia e Croácia na década de 90 após a dissolução das repúblicas da Iugoslávia no fim do século passado. Remontou ainda a uma relação conflituosa desde o período da Segunda Guerra Mundial.

"De 1941 até 1945, houve sérios problemas com esses dois países. Os sérvios foram mortos por croatas com a ascensão de um partida de extrema direita, apoiado por Hitler, que queria enfraquecer as alianças com a União Soviética. Com o processo de independência da Iugoslávia, passa a haver uma série de conflitos. Alguns estados se declararam independentes, mas a pressão de croatas começou a atingir publicamente e foram organizadas estruturas paramilitares que se colocaram contra a posição da Iugoslávia. Os sérvios, então, apoiando a Iugoslávia, colocaram-se contra os croatas", explica ela.

Para a historiadora, as declarações de ambos os atletas acabam tendo uma certa ligação com esse conflitos. Segundo ela, a intenção de ambos passa então a ser mostrar que o esporte pode ser uma ferramenta de união entre os países - mesmo que historicamente tenham protagonizado tantos conflitos. Com isso, podem interferir positivamente na ligação entre eles.

"Essas declarações têm tudo a ver com a relação do conflito e acho que é uma tentativa de mediar essa questão. É possível mostrar que essa relação entre os dois países vai além das questões políticas, que sérvios e croatas podem dividir o espaço no esporte de forma pacifica. A Copa do Mundo não trata apenas de esporte, mas trata também de questões humanas".

Rachel conta que as reações exaltadas de políticos e torcedores ainda persistem pelos problemas políticos que, mesmo com a independência da Croácia, seguem presentes diariamente nas relações conturbadas entre eles. Para ela, ações com as de Djokovic e Rakitic tendem a ser cada vez mais comuns no cenário esportivo.

"Frases como essas serão cada vez mais presentes. Na história do esporte, nas relações interpessoais, são fundamentais. O esporte aproxima pessoas e o caminho pacifico é visto como possível para países que sempre tiveram suas diferenças.De 1941 até 1945, tivemos sérios problemas com esses dois países devido ao genocídio. Você tem um período de conflito que vem desde meados da Segunda Guerra Mundial".

Outro que demonstra simpatia pelas posições de Djokovic e Rakitic é o historiador Pedro Ribeiro, que evidenciou o valor de declarações em tom de paz vindos de grandes personalidades do esporte de cada país. Segundo ele, isso pode contribuir para a diminuição de discursos de ódio, que muitas vezes são plantados entre populações de países "rivais".

"Djokovic e o Rakitic são ícones nacionais e de grande influência dentro dos seus países. Declarações nesse sentido ajudam a diminuir o sentimento de ódio que um povo sente pelo outro. Os povos ainda estão em conflitos pois a Croácia conquistou sua independência através de uma guerra contra forças sérvias que queriam manter o controle, de novo numa questão racial de "meu povo é mais forte que o seu"".

As questões relacionadas à Segunda Guerra Mundial também foram lembradas pelo historiador. Além dos conflitos religiosos e raciais, existem questões mal resolvidas que a guerra tratou de intensificar. A luta para provar que um povo pode ser mais forte que o outro causou uma batalha étnica e milhares de mortos ao longo dos anos.

"Quando a Iugoslávia se dissolveu, a Croácia conquistou a sua independência através de uma guerra contra forças sérvias que queriam manter o controle, de novo numa questão racial de "meu povo é mais forte que o seu". Prova disso é que a limpeza étnica foi promovida pelos dois lados e acredita-se em centenas de milhares refugiados de cada lado. Dá pra dizer que a independência da Croácia mais aumentou a rivalidade do que deu fim a ela".

A opinião também é seguida pelo professor de história Rodrigo Sandeo, que citou o ressentimento entre os países após a dissolução da Iugoslávia. Os problemas existem entre Croácia e Sérvia podem ser vistos também em países como a Bósnia e a Eslovênia, por exemplo.

"Isso causa um ressentimento entre os dois. Existiam muitas causas nacionalistas por essa centralização do poder pela Sérvia, que era o governo da Iugoslávia. Com a morte do presidente, o governo enfraqueceu. Por isso a dissolução foi tão traumática, tanto na Bósnia, na Eslovênia e na Croácia".

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