1958: Brasil vence racismo, complexo de vira-latas e a Copa
- Emanuel Colombari
Quando a Seleção Brasileira conquistou sua primeira Copa do Mundo em 1958, estava garantindo mais do que sua entrada em um "hall da fama", que contava então com apenas três países - Uruguai, Itália e Alemanha Ocidental. Para nós, que havíamos sofrido um duro golpe com o vice-campeonato de 1950, a Taça Jules Rimet levantada por Bellini na Suécia era a redenção de todo um país, que se culpava pelo que Nelson Rodrigues chamava de "complexo de vira-latas": fazer bonito e não saber vencer.
"Foi a primeira vez que a gente ganhou. Vivíamos dizendo que tínhamos o melhor futebol no mundo, e não mostrávamos em campo. Ali estava a prova. Foi a primeira grande emoção do futebol brasileiro", analisou Luiz Mendes, atualmente locutor esportivo da Rádio Globo e então um narrador em início de carreira.
Na década de 50, Mendes havia começado sua carreira na própria emissora, de onde foi levado em 1955 para narrar jogos na extinta TV Rio. Na época, a emissora realizara uma pesquisa no Rio de Janeiro para escolher quem iria conduzir suas transmissões esportivas. E em meio a tantas novidades nas transmissões televisivas, Mendes foi o escolhido em meio ao que chamou de "medalhões".
"Tinha muitos rivais fortes, como o Antonio Cordeiro, na Rádio Nacional, e o Ary Barroso, na Tupi. Tinha nomes de muita força na disputa, mas eu ganhei essa pesquisa na TV Rio, não sei nem o porquê", conta Luiz Mendes, que explica parte do cenário de descrença existente no Brasil quando a Seleção do técnico Vicente Feola embarcou para a Europa.
"A gente não acreditava muito, porque o Brasil não tinha tradição de ganhador. Nas três primeiras Copas, perdemos bizonhamente na primeira (1930), fizemos uma partida e fomos embora na segunda (1934). Depois, na terceira ficamos em terceiro (1938). Só houve outra 12 anos depois. Pensávamos que iríamos ganhar e perdemos", conta. "Quando saímos daqui em 1958, tínhamos perdido em 1950 e 1954, nenhuma geração tinha visto o Brasil ser campeão. Não havia uma convicção de que poderíamos ser campeões."
Apesar da descrença, o Brasil tinha pilares para se apoiar quando embarcou. O principal deles era Mané Garrincha, destaque do Botafogo desde 1953 - "já se achava que ele deveria ter ido em 1954", conta Mendes. Pelé, então com 17 anos, ainda era uma incógnita da qual pouco se ouvia falar no Rio de Janeiro. A dupla, que pouco havia sido testada, deu certo assim que passou a entrar em campo, diante da União Soviética, na terceira rodada da primeira fase - antes disso, o Brasil venceu a Áustria por 3 a 0 e empatou sem gols com a Inglaterra.
Além disso, a preparação brasileira ainda envolveu uma série de amistosos no Brasil e na Itália, contra os clubes locais e seleções, disputados a partir de 1958. Antes do embarque, uma vitória sobre o Corinthians e duas sobre a Bulgária. Depois, já na Europa, duas vezes o placar de 4 a0, contra a Fiorentina e a Inter de Milão. "O Brasil jogou muito bem", lembra Mendes.
Hoje, passados 52 anos dos bons resultados conquistados, parece inimaginável que o Brasil sofresse com tamanha pressão antes do embarque. No entanto, o técnico Vicente Feola pôde comemorar um fator que acometeu Luiz Felipe Scolari na Copa de 2002 e acomete Dunga às portas do Mundial de 2010: a pressão popular pela convocação de um jogador. Por sorte ou competência, Feola não teve seu Romário ou Ronaldinho.
"Não chegava a isso. Tinha outro jogador que representava a esperança para nós, que era o Garrincha, e que foi convocado meio de última hora. Originalmente, convocaram o Julinho Botelho, que jogava na Fiorentina e que não queria vir, porque achou que devia dar lugar a outro que jogava no Brasil. Aí é que convocaram o Garrincha", diz o locutor, que faz elogios ao então craque do Botafogo. "Ele é que foi a grande força brasileira na Copa, junto com o Pelé. Eles foram sensacionais. Do Pelé, a gente esperava que ele fosse um grande jogador. Em São Paulo, falávamos dele como um jogador milagroso. No Rio, tínhamos a esperança com o Garrincha."
Em compensação, Vicente Feola encarou outro questionamento, mas na lateral direita: se Djalma Santos estava melhor na Portuguesa, por que o são-paulino De Sordi foi o escolhido para ser titular? Inicialmente, a versão que se comentava era: De Sordi, branco, levava vantagem sobre Djalma Santos, negro. "Ate sé dizia que a comissão técnica tinha dado preferência para jogadores brancos, o que não era verdade", conta Luiz Mendes, que explica que De Sordi foi escolhido porque jogava no São Paulo, clube do técnico Vicente Feola e de Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação.
De Sordi foi titular durante toda a Copa, perdendo a vaga para Djalma Santos apenas na final diante da Suécia. Com apenas 90 minutos de atuação no 5 a 2 diante da Suécia, o ex-craque da Portuguesa garantiu o "prêmio" de melhor lateral direito do Mundial. Não marcou gols, mas ajudou a derrubar o mito racista de que o Brasil não ganhava porque jogava com negros e a superar em definitivo o "complexo de vira-latas" decretado por Nelson Rodrigues e sempre lembrado na hora dos fracassos.
"Já havíamos ganho uma competição muito boa, que foi o Campeonato Pan-Americano de 1952 (no Chile). Mas até então, não havíamos vencido nenhuma competição fora do continente. Só havíamos vencido três Campeonatos Sul-Americanos, e todos dentro do Brasil: 1919, 1922 e 1949. Não éramos nem reis no nosso continente, quanto mais do mundo", lembra Luiz Mendes. "Mas em 1958, nós ganhamos e confirmamos aquilo que todo mundo pensava."