1950: erros e euforia marcaram "desastre" no Maracanã
- Julio Simões
Quando o Brasil decidiu ser sede da Copa do Mundo de 1950, não imaginava que poderia ir tão longe. Talvez pelo famoso "complexo de vira-lata", expressão que Nelson Rodrigues criou naquele mesmo ano para representar a insistente inferioridade do inconsciente coletivo brasileiro com relação ao resto do mundo, o Brasil tinha como objetivo ser apenas um bom anfitrião, acolhendo os países - muitos deles destruídos pela recém-finalizada Segunda Guerra Mundial - da melhor forma possível.
Mas a Seleção Brasileira começou a dar resultado dentro de campo. Primeiro, venceu o México por 4 a 0 na estreia. Depois, empatou por 2 a 2 com a Suíça e voltou a vencer na última partida da primeira fase, desta vez a Iugoslávia, por 2 a 0. Classificada em primeiro lugar, a equipe formada por jogadores como Nilton Santos, Zizinho e Barbosa foi à fase final como uma das grandes favoritas a conquistar aquele que seria seu primeiro título mundial - até então, Itália tinha duas conquistas e o Uruguai apenas uma.
O favoritismo conquistado, aliás, ficou ainda maior quando o time comandado por Flávio Costa aplicou duas goleadas na segunda fase. A primeira vítima foi a Suécia, atropelada por 7 a 1. Depois, foi a vez da Espanha, derrubada por 6 a 1. Já na derradeira partida, o adversário seria o Uruguai, que havia feito campanha bem mais modesta, com um empate em 2 a 2 com a Espanha e uma vitória apertada por 3 a 2 sobre a Suécia. Ou seja, o Brasil já começava a "final" (entre aspas por ser a última partida de um quadrangular, não propriamente uma final) com a vantagem do empate para ficar com o título. E aí estava o perigo.
"Minha lembrança é o otimismo com que nós chegamos ao estádio. Havia 'bolo' para acertar o resultado, e apostávamos em 6 a 0, 7 a 0. O placar mais baixo que se apostava era 5 a 2", lembra o jornalista Roberto Muylaert, que tinha apenas 15 anos na época e era um dos 200 mil torcedores que assistiram o último jogo do Brasil no recém inaugurado Estádio do Maracanã. "Outro momento emocionante foi quando todo mundo cantou o hino nacional. Naquela época (entre 1930 e 1945), a ditadura havia mandado ensinar nas escolas, então toda a gente cantava sem vacilo", conta.
Quando o Brasil fez o primeiro gol, com Friaça, ele lembra que o estádio todo começou a comemorar o título. A situação só mudou quando o Uruguai conseguiu a virada com Schiaffino e Ghiggia, já na parte final do segundo tempo. "No final, veio aquele silencio sepulcral. O que mais me marcou foi o absurdo da derrota. Eu estava na lateral oposta, então a gente não sabia se a bola tinha entrado ou não. Ficamos nos perguntando se sim ou não, mas o silêncio indicava que sim."
A passagem da euforia para a decepção tinha explicação: o Brasil, antes desacreditado pelo próprio país, tinha demonstrado que poderia se consagrar como campeão mundial em seu esporte mais popular. Não haveria "complexo de vira-lata" que estragasse a confiança do povo brasileiro. "O clima vinha embalando pelos resultados. No jogo contra a Espanha, a torcida brasileira cantou Touradas em Madrid, de um cara chamado Braguinha, muito famoso na época. Contam até que ele estava no estádio e começou a chorar quando ouviu isso. E dizem também que um brasileiro do lado dele olhou e falou: 'olha esse espanhol chorando a derrota para a gente'", narra o jornalista.
Mas na "final", a esperança ruiu em uma derrota por 2 a 1, de virada, frustrando todo um país. Inclusive Muylaert, que não sabe ao certo o que poderia ter acontecido com o Brasil naquela partida. "É difícil apontar um erro, mas creio que um dos problemas do Brasil foi a concentração e toda a euforia que vinha de fora", especula o jornalista, antes de explicar o contexto.
"Durante a Copa, o time ficou nas Paineras, uma chácara que, se não me engano, está até desativada. Mas antes da final, eles desceram e ficaram em São Januário. Lá, Barbosa dizia que eles nem conseguiam comer direito de tanta gente de fora que ia atrapalhar, principalmente políticos da época querendo se promover. Teve até um cara que entrou na concentração para pegar as assinaturas dos jogadores nas fotos e vendê-las depois, mas ele foi descoberto e expulso", lembra.
"Aconteceu até de um jornal publicar a manchete 'Brasil Campeão do Mundo' na véspera! O técnico dos uruguaios (Juan Lopez) aproveitou, comprou o maior número de exemplares que conseguiu e colocou no chão do vestiário para os jogadores mijarem em cima das fotos", acrescenta, lembrando mais uma das histórias que cercaram a decisão e, de certa forma, influenciaram no resultado.
Anos depois, aliás, Muylaert revisitou a experiência vivida in loco aos 15 anos ao registrar quase 30 horas de entrevista com o goleiro Barbosa, material que rendeu o livro Barbosa: um gol faz cinquenta anos, publicado em primeira edição no ano 2000. O jogador morreu na mesma época, aos 79 anos, ainda como o principal culpado pela derrota no episódio conhecido por Maracanazzo. Mas Barbosa, conta Muylaert, não via o lance que decidiu a partida da mesma forma que seus críticos.
"O Barbosa disse que ele fez tudo certo, e que o Ghiggia fez tudo errado. Mas o errado deu certo e o certo deu errado. Antes do gol, Ghiggia já havia avançado pelo mesmo lado e cruzado para Schiaffino, que concluiu e empatou. Depois, quando Ghiggia avançou de novo, Barbosa ficou no centro e correu para fechar o ângulo. Mas Ghiggia chutou 'mascado' e a bola foi lentamente para o gol. A impressão que dá é que Barbosa falhou, mas ele estava posicionado para defender no centro, como o Ghiggia vinha fazendo", defende o biógrafo.
Nas próximas semanas, o Terra prossegue o especial conversando com personalidades que viram as Copas de 1954, 58 e assim sucessivamente até o Mundial da Alemanha, em 2006.