Baía de Guanabara recebeu tentativa fracassada de colonização francesa
Os milhares de franceses que desembarcam no Rio de Janeiro para acompanhar a partida contra a Alemanha, pelas quartas de final da Copa do Mundo, não constituem a primeira "invasão" do país à região. A Baía de Guanabara recebeu uma tentativa fracassada de colonização da França no século XVI, episódio que contribuiu com a fundação da atual capital fluminense.
Dentro do contexto do "mare liberum" (mar livre), política declarada pelo rei Francisco I como resposta ao Tratado de Tordesilhas, pelo qual Portugal e Espanha dividiram o Novo Mundo, os comerciantes franceses estabeleceram bases ao longo da costa brasileira. Um destes pontos, na Baía de Guanabara, originou a França Antártica, batizada em função da crença equivocada de proximidade do Polo Sul.
A Ilha de Villegagnon, localizada no interior da Baía, é uma recordação da breve ocupação francesa na região. Em 1555, no reinado de Henrique II, Nicolas Durand de Villegagnon partiu da França com destino ao Brasil na tentativa de estabelecer uma colônia e usou a ilha para erguer o Forte Coligny. A empreitada, malsucedida, era ousada, de acordo com o historiador Luiz Fabiano de Freitas Tavares.
"Embora os franceses só tenham se instalado na Baía de Guanabara, alguns relatos dão a entender que a França Antártica seria algo muito maior, abrangendo desde a região do Ceará até o Rio da Prata. Então, o plano na verdade era usar as instalações na Baía de Guanabara para iniciar uma ocupação mais extensa", explicou o historiador, autor dos livros Entre Genebra e a Guanabara (Top Books) e Da Guanabara ao Sena (UFF), ambos sobre o assunto.Diante da invasão francesa, os portugueses resolveram tomar providências para defender o território hoje ocupado pelo Rio de Janeiro. Com a colônia descrita como um ninho de seguidores da Reforma Protestante, o combate para expulsar os "hereges" tornou-se justificável e meritório aos olhos de Deus e, por conseguinte, da comunidade católica.
As próprias diferenças entre católicos e protestantes no seio da colônia foram decisivas para o final precoce da empreitada. "Começaram a haver vários desentendimentos por conta das querelas religiosas que estavam relacionadas ao que acontecia na França. Isso acabou ocasionando a desarticulação da colônia", explicou Tavares, doutorando em História Moderna pela Universidade Federal Fluminense (UFF).
Em 1560, os portugueses conseguiram tomar o Forte Coligny, fazendo ruir a colônia iniciada por Nicolas Durand de Villegagnon. De maneira mais esparsa, muitas vezes em alianças com os indígenas, os franceses permaneceram na região até o ano de 1567, quando foram finalmente expulsos pelas forças portuguesas, lideradas pelo governador-geral Mem de Sá."É só olhar no mapa para perceber: a Baía de Todos os Santos, na Bahia, e a Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro, são dois acidentes geográficos de muita importância estratégica para as navegações. Por uma questão geográfica, era quase uma tendência natural que houvesse disputa pelo controle dessas duas áreas", declarou Tavares.
No contexto da expulsão dos invasores, com a finalidade de assegurar a posse do cobiçado território à Coroa Portuguesa, foi fundada em 1565 por Estácio de Sá, sobrinho de Mem de Sá, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Já no século XVII, a França tentou se estabelecer na atual região do Maranhão, sem sucesso. A empreitada funcionou apenas na Guiana, que foi colônia até 1946.
A partir das 13 horas (de Brasília) desta sexta-feira, no Estádio do Maracanã, começa uma nova batalha para os franceses no Rio de Janeiro. Sob o comando de Didier Deschamps, com alguns dos jogadores originários de antigas colônias, a seleção enfrenta a Alemanha por uma vaga na semifinal da Copa do Mundo.