Ainda incompleto, estádio mais caro do País tenta justificar R$ 1,2 bi
Entorno do polêmico Estádio Nacional de Brasília, que abre a Copa das Confederações neste sábado, ainda tem obras que nem foram licitadas. Por isso, há o temor velado de que os custos finais cheguem até R$ 2 bilhões
O Estádio Nacional de Brasília será palco da abertura da Copa das Confederações no próximo dia 15, com partida entre Brasil e Japão. O jogo terá casa lotada, com 70 mil espectadores. A organização, no entanto, seguirá os moldes da Fifa, que requer mais planejamento e antecedência do torcedor. Veja a seguir as principais dicas que os organizadores dão para quem for assistir ao jogo na capital federal.
Foto: Getty Images
Pretensões faraônicas, estouro no orçamento, atrasos e inauguração incompleta. Demolido a marretadas e reconstruído para abrir a Copa das Confederações neste sábado, o Estádio Nacional de Brasília, o Mané Garrincha, revive em 2013 a epopéia de sua construção na década de 1970. Desta vez, já há a confirmação de que se superou a quantia de R$ 1,2 bilhão. A convicção de que vai se superar também R$ 1,5 bilhão. E o temor de que, somadas as obras do entorno atrasadas, se alcançarão os R$ 2 bilhões.
Entre urbanismo, paisagismo e a construção de dois túneis sob o eixo monumental, entre outros, acredita-se que ainda irá se somar R$ 305 milhões a R$ 1,2 bilhão já gastos, segundo a Controladoria Geral da União. Estas obras, porém, sequer foram licitadas, o que deixa duas preocupações no ar: a viabilidade de conclusão até a Copa do Mundo de 2014 e a possibilidade de ainda mais investimento. A Terracap, companhia do estado que financia a obra, fala internamente sobre aditivos que inflacionariam o custo final. E pensar que o custo inicial era de R$ 697 milhões...
Com estruturas internas inacabadas, mas que não vão aparecer na televisão, o Estádio Nacional deve mostrar ao mundo o que tem de melhor durante o duelo entre Brasil e Japão, a partir das 16h (de Brasília). As 71 mil cadeiras cor vermelho-paixão, a acústica que favorece a equipe da casa e o caráter de sustentabilidade que marca o projeto idealizado pelo arquiteto Eduardo de Castro Mello. Filho de Ícaro, autor da primeira versão do estádio, nos anos 70. E pai de Vinícius, terceira geração da família e também envolvido no planejamento atual.
O estouro no orçamento e todos os "nãos" ao Estádio Nacional
"Não acredito em nenhum desses estudos sobre custo das obras", diz Eduardo em entrevista ao Terra. Na última quinta-feira, o deputado federal Romário (PSB) divulgou estudo que compara valores gastos nos seis estádios da Copa das Confederações - o de Brasília já chegou a R$ 16.936 por assento. Lidera o ranking e com larga vantagem: o Maracanã vem em segundo com o preço de R$ 12.800 por lugar. Eduardo de Castro Mello insiste em análises distintas.
MAIOR E MENOR RENDA DA HISTÓRIA
Com R$ 6,9 milhões arrecadados, Santos x Flamengo, abertura do Brasileiro 2013, gerou a maior renda da história do País no confronto entre dois clubes, justamente em Brasília. Era a despedida de Neymar, inclusive. O jogo contrastou com outro momento curioso: Grêmio Brasiliense 2 x 1 Coenge, pelo Estadual do Distrito Federal, registra o menor público na história do Brasil com um pagante.
"Não há orçamentos iguais de todos projetos de estádios. Você não pode comparar laranja com banana. Tem de considerar o entorno, a circulação, estacionamentos. Dá diferença no preço. Se o estádio é de 40 mil lugares, não vai ter o mesmo custo de 72 mil. É comparar um ônibus com um automóvel. Só o certificado de sustentabilidade custa de 3 a 5% da obra. Mas vai dar uma economia de manutenção que é brutal".
Economizar, no entanto, não é um verbo conjugado no projeto mais elevado entre os 12 da Copa do Mundo de 2014. A alegação de que a captação de energia solar poderia abastecer o estádio e 2 mil casas foi insuficiente. Prova é que o investimento no Estádio Nacional foi desaconselhado pelo Ministério Público-DF, pelo Tribunal de Contas-DF e especialmente pelo governo federal. O BNDES, seguindo essa linha, disse não ao pedido do financiamento.
Ainda assim, movido pela ambição descabida de receber a abertura da Copa do Mundo de 2014, o governo do Distrito Federal fez por viabilizar. Essa nunca foi uma possibilidade, porém, realmente factível. "Só se pode entender (...) como um gesto de ousadia, uma imaginação de grandeza. Fora disso, Brasília será analisada como desperdício de dinheiro público", afirmou o ministro do Esporte Aldo Rebelo.
O jeitinho brasileiro que permitiu a Brasília o estádio mais caro do País
Arruda deu início ao suposto sonho por um estádio com mais de 70 mil assentos
Foto: Da Press / Especial para Terra
É de autoria do ex-governador José Roberto Arruda o sonho encampado de receber a abertura da Copa do Mundo. Coincidência ou não, Arruda foi cassado em 2010 pela Operação Pandora e a identificação do desvio de recursos públicos por empresas contratadas pelo governo. Em meio a esse processo, o Distrito Federal discutia quem poderia aprovar a licitação para o Estádio Nacional.
"Com a saída dele, pouco antes de se decidir como colocar a obra em licitação, houve um atraso. Até se definir quem seria o governador definito, foram cinco provisórios. E nenhum queria assumir a licitação", aponta o arquiteto Eduardo Castro Mello. Coube ao interino Rogério Rosso (PSD) a decisão de bancar o projeto para 72 mil pessoas com recursos da capital federal. O que abriria feridas futuras.
Rosso autorizou a utilização de recursos da Terracap, imobiliária estatal que tem sociedade repartida entre o governo de Brasília (51%) e a União (49%). Foi com base nos terrenos negociados pela companhia que se viabilizou financeiramente a megalomania do estádio mais caro do Brasil. Com o cartaz de "o único sem recursos federais", mas com mais um jeitinho brasileiro.
Agnelo Queiroz deu sequência ao curso e contrariou seu discurso de campanha
Foto: Wilson Dias / Agência Brasil
Para ter acesso ao dinheiro, Agnelo Queiroz (PT) reviu sua posição de campanha ao governo do estado. Antes contrário ao investimento, virou partidário e não se impos limites. Primeiro demitiu o presidente. E como os conselheiros da Terracap reprovaram o financiamento, também demitiu todos. Entre os sucessores, até um tio de seu chefe de gabinete, Cláudio Monteiro. O Terra tentou entrevistar Cláudio, mas sua assessoria alegou falta de agenda.
Os números que atormentam e o alívio para Mané Garrincha
Entre idas e vindas, o Estádio Nacional está pronto. Seu projeto inicial previa conclusão para dezembro de 2013, mas foi abreviado para dezembro de 2012 e saiu em 18 de maio de 2013. Tudo para que pudesse receber, ao menos, a abertura e único jogo da Copa das Confederações na capital. Eduardo de Castro Mello afirma que a antecipação não mudou o preço, mas outro especialista discorda.
"Não houve aumento. Todos os dimensionamentos foram mantidos", diz o arquiteto responsável pela obra. Presidente do Sindicato da Arquitetura e Engenharia do Distrito Federal (Sinaenco), Sergio Castejon crê que o acréscimo nos preços para que ficasse pronto meses antes foi inevitável. "Existe o impacto. No orçamento da mão de obra, nos equipamentos, e isso impacta em custos", acredita.
Castejon fala em tom apreensivo sobre a possibilidade de se chegar aos R$ 2 bilhões. "Isso me pega de surpresa. É um valor que não se pode nem conversar. Em 2007, quando o Brasil foi eleito, previa R$ 2,7 bilhões para todos os estádios. Na Alemanha foram R$ 3,2 bilhões. Na África do Sul, foram R$ 3,7 bilhões. Aqui cada um fica perto de R$ 1 bilhão. Cabe ao Tribunal de Contas da União investigar", pede.
A trajetória de controvérsias no projeto do estádio candango inevitavelmente remete à criação nos anos 70. Emílio Garrastazu Médici, então presidente, queria um palco para 140 mil lugares, mas topou inaugurá-lo às pressas para 42 mil e com obras incompletas que jamais se completaram.
À época, ainda era chamado Estádio Hélio Prates da Silveira. Agora, por um erro de protocolo da organização de Brasília, ficará apenas como Estádio Nacional, diferentemente de como é normalmente chamado. Um alívio para a alma de Mané Garrincha.
Palco da abertura da Copa das Confederações, o Mané Garrincha recebeu partidas do Campeonato Brasileiro de 2013
Foto: Paulinho Menezes/Portal da Copa / Divulgação
Palco da abertura da Copa das Confederações, o Mané Garrincha recebeu partidas do Campeonato Brasileiro de 2013
Foto: Paulinho Menezes/Portal da Copa / Divulgação
Palco da abertura da Copa das Confederações, o Mané Garrincha recebeu partidas do Campeonato Brasileiro de 2013
Foto: Paulinho Menezes/Portal da Copa / Divulgação
Palco da abertura da Copa das Confederações, o Mané Garrincha recebeu partidas do Campeonato Brasileiro de 2013
Foto: Paulinho Menezes/Portal da Copa / Divulgação
Palco da abertura da Copa das Confederações, o Mané Garrincha recebeu partidas do Campeonato Brasileiro de 2013
Foto: Paulinho Menezes/Portal da Copa / Divulgação
14 de maio de 2013: Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, chega à reta final das obras
Foto: Diogo Alcântara / Terra
14 de maio de 2013: Obras do estádio do DF ganharam elogios de secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke
Foto: Diogo Alcântara / Terra
14 de maio de 2013: "Impressionante o avanço desde janeiro. O Estádio Nacional Mané Garrincha toma forma para a abertura da Copa das Confederações", disse Valcke
Foto: Diogo Alcântara / Terra
14 de maio de 2013: Estádio receberá a abertura da Copa das Confederações, em 15 de junho
Foto: Diogo Alcântara / Terra
14 de maio de 2013: Estádio é um dos seis escolhidos para a Copa das Confederações
Foto: Diogo Alcântara / Terra
14 de maio de 2013: Única partida da Copa das Confederações em Brasília será Brasil x Japão
Foto: Diogo Alcântara / Terra
14 de maio de 2013: Inauguração da arena será neste sábado (18)
Foto: Diogo Alcântara / Terra
14 de maio de 2013: No Twitter, Jérôme Valcke divulgou foto de visita de nomes como Bebeto, Agnelo Queiroz e Ronaldo
Foto: Twitter
10 de maio de 2013: O Estádio Nacional de Brasília, sede da abertura da Copa das Confederações, recebe as traves para seus eventos-teste
Foto: Lula Marques / Divulgação
10 de maio de 2013: a arena receberá a partida entre Santos e Flamengo, no dia 26 de maio, pela primeira rodada do Campeonato Brasileiro
Foto: Lula Marques / Divulgação
30 de abril de 2013: Instalação do campo de jogo foi concluída a menos de um mês do primeiro evento-teste do estádio
Foto: Lula Marques / Divulgação
22 de abril de 2013: Estádio Nacional de Brasília corre para ficar pronto para a Copa das Confederações
Foto: Adalberto Marques/Agif / Gazeta Press
22 de abril de 2013: Estádio Nacional de Brasília corre para ficar pronto para a Copa das Confederações
Foto: Adalberto Marques/Agif / Gazeta Press
22 de abril de 2013: Estádio Nacional de Brasília corre para ficar pronto para a Copa das Confederações
Foto: Adalberto Marques/Agif / Gazeta Press
22 de abril de 2013: Estádio Nacional de Brasília corre para ficar pronto para a Copa das Confederações
Foto: Adalberto Marques/Agif / Gazeta Press
8 de abril de 2013: perto de inauguração, Estádio Nacional de Brasília já apresenta desenho próximo ao projeto original
Foto: Reuters
8 de abril de 2013: estádio ganha últimos detalhes antes da entrega, prevista para 21 de abril
Foto: Reuters
8 de abril de 2013: Obras já superam os 95% da projeção
Foto: Reuters
8 de abril de 2013: com cobertura já instalada, estádio será aberto a tempo da Copa das Confederações
Foto: Reuters
8 de abril de 2013: conforme prometido pela Secopa-DF, cadeiras do estádio são todas vermelhas
Foto: AFP
8 de abril de 2013: em novo estádio, pilares da estrutura externa dão aspecto característico à construção
Foto: Reuters
8 de abril de 2013: estádio receberá partida da Copa das Confederações em 15 de junho
Foto: Reuters
8 de abril de 2013: estádio ainda receberá partidas pela Copa do Mundo de 2014
Foto: Reuters
8 de abril de 2013: Brasília também será sub-sede do futebol na Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro
Foto: AFP
8 de abril de 2013: primeira partida da Copa das Confederações de 2013 será entre Brasil e Japão, pelo Grupo A
Foto: Reuters
8 de abril de 2013: abertura, porém, será a única partida da Copa das Confederações no DF
Foto: AP
8 de abril de 2013: até aqui, três estádios para Copa das Confederações estão prontos no Brasil: Castelão (Fortaleza), Fonte Nova (Salvador) e Mineirão (Belo Horizonte)
Foto: AFP
8 de abril de 2013: capacidade do Estádio Nacional de Brasília superará os 70 mil espectadores
Foto: Reuters
8 de abril de 2013: em 2014, estádio do DF receberá sete partidas da Copa do Mundo
Foto: Reuters
8 de abril de 2013: Agnello Queiroz, governador do DF, apresenta maquete do futuro estádio
Foto: AP
27 de março de 2013: perto da entrega oficial, o Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha teve instalada a última das 48 partes da película principal da membrana da cobertura
Foto: Reuters
27 de março de 2013: a membrana da cobertura é autolimpante, não pega fogo e reflete os raios ultravioleta
Foto: Reuters
27 de março de 2013: cobertura branca do estádio também irá liberar a passagem de iluminação natural e refletir os raios solares, o que reduzirá o calor interno e a necessidade do uso de ar-condicionado ou outro tipo de ventilação artificial
Foto: Reuters
27 de março de 2013: Estádio Nacional de Brasília está com 94% das obras concluídas. Cinco mil assentos já foram instalados. A previsão para a entrega da obra é no dia 21 de abril, data do aniversário de 53 anos da capital do Distrito Federal
Foto: Reuters
28 de janeiro de 2013: Com custo estimado em R$ 1,5 bilhão, o Estádio Nacional de Brasília (Mané Garrincha) precisa correr para ficar pronto a tempo de receber o jogo inaugural da Copa das Confederações de 2013, dia 15 de junho, entre Brasil e Japão
Foto: Antônio Cruz / Agência Brasil
28 de janeiro de 2013: Atualmente, o Estádio Nacional apresenta, de acordo com o governo federal, está 87% concluído
Foto: Antônio Cruz / Agência Brasil
28 de janeiro de 2013: Inicialmente, o Estádio Nacional deveria ter ficado pronto em dezembro de 2012. Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, disse que tolerará atrasos até abril
Foto: Antônio Cruz / Agência Brasil
28 de janeiro de 2013: Inicialmente, o projeto de Brasília estava orçado em R$ 696,6 milhões
Foto: Antônio Cruz / Agência Brasil
28 de janeiro de 2013: De acordo com notícia recente publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, O Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) acusou o governo de uma distorção de R$ 212,3 milhões nos gastos
Foto: Antônio Cruz / Agência Brasil
30 de abril de 2012: O Estádio Nacional, sede do Distrito Federal na Copa do Mundo de 2014, se encontra com 58% das obras concluídas para receber a competição de daqui dois anos
Foto: Douglas Haunss / Divulgação
30 de abril de 2012: O Estádio Nacional, cuja conclusão das obras está prevista para o final deste ano, também pleiteia ser o palco da inauguração da Copa das Confederações de 2013
Foto: Douglas Haunss / Divulgação
27 de abril de 2012: A estimativa total de custos do Estádio Nacional é de R$ 800 milhões
Foto: Quenanna Gules / Divulgação
27 de abril de 2012: Atualmente, a arquibancada inferior da sede do Distrito Federal já foi concluída
Foto: Quenanna Gules / Divulgação
27 de abril de 2012: Restam ainda a conclusão do setor intermediário (90% concluído) e a montagem da arquibancada superior
Foto: Quenanna Gules / Divulgação
17 de março de 2012: Operários assistem a um jogo de futebol promovido no Mané Garrincha
Foto: AP
17 de março de 2012: Dois trabalhadores observam as obras do Estádio Mané Garrincha, em reformas para a Copa do Mundo de 2014
Foto: AP
17 de março de 2012: trabalhadores jogaram bola no gramado do estádio, mesmo ainda em obras
Foto: AP
17 de março de 2012: Segundo as informações das autoridades, o Estádio Mané Garrincha já tem mais de 50% das obras concluídas
Foto: AP
17 de março de 2012: Funcionários assistem ao jogo no gramado do Mané Garrincha