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Clubes priorizam sócios-torcedores em volta aos estádios; médicos alertam para riscos

Jogos do Brasileirão terão público neste fim de semana após um ano e nove meses

2 out 2021 05h11
| atualizado às 09h55
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A rodada do Brasileirão que começa neste sábado será especial para clubes e torcedores. Após um ano e nove meses, ou exatos 664 dias, o público está de volta aos estádios na Série A. A última vez que uma partida pela competição contou com torcida foi em 8 de dezembro de 2019. Com a eclosão da pandemia de covid-19 no Brasil em março de 2020, o Brasileirão daquele ano ocorreu todo com portões fechados.

Apesar da decisão do Conselho Técnico de clubes da Série A pelo retorno do público a partir desta rodada, os estádios em São Paulo só poderão receber torcida com 30% de sua capacidade a partir de segunda-feira, dia 4, por decisão do governo. Depois de 14 de outubro, o governador João Doria autorizou o limite de 50%. A partir de 1º de novembro, passará para 100%.

As equipes paulistas tiveram a prerrogativa de adiar suas partidas, como fez o Santos, que aceitou postergar o confronto com o Fluminense, antes marcado para este domingo. Mas o Palmeiras não quis jogar para frente o compromisso com o Juventude e jogará neste dom

Estádio com torcedores antes da pandemia
REUTERS/Amanda Perobelli
Estádio com torcedores antes da pandemia REUTERS/Amanda Perobelli
Foto: Reuters

ingo com os portões fechados no Allianz Parque, assim como o Bragantino, que encara o Corinthians neste sábado, no Nabi Abi Chedid.

O Athletico-PR foi o único a defender portões fechados até o fim da competição, enquanto o Flamengo não quis participar do conselho técnico que aprovou a medida, repetindo o que fizera em encontro semelhante no início do mês. Ficou definido que o porcentual de ocupação dos estádios seguirá a autorização oficial dos órgãos sanitários locais.

O protocolo elaborado pela CBF exige para os torcedores que forem às arenas o uso de máscaras, o distanciamento social e a apresentação de teste negativo para covid ou comprovante de imunização completa.

"É um passo importante para a presença dos torcedores nos estádios que está sendo dado em parceria com os órgãos sanitários, respeitando sempre o protocolo elaborado pela comissão médica organizada pela CBF. Esperamos que a torcida, a maior beleza do futebol, volte a brilhar e se emocionar nos estádios", disse o presidente interino da CBF, Ednaldo Rodrigues.

Retornar aos estádios é seguro neste momento?

A liberação parcial da torcida suscita o questionamento: a medida é segura? Para Eliseu Alves Waldman, epidemiologista e professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, não há problema no retorno dos torcedores às arquibancadas desde que o protocolo seja bem elaborado e respeitado.

"Com 1/4 da lotação dos estádios e se o protocolo for respeitado o risco é muito pequeno porque os estádios são abertos", opina Waldman, que alerta para os riscos que podem trazer as aglomerações fora dos estádios. "Os torcedores têm que tomar cuidado na entrada e saída das arenas. Será esse o problema principal. Se for escalonado diminui o risco. Não parece que deva ter impacto na trajetória da pandemia no País".

É importante, diz o epidemiologista, monitorar os torcedores depois das partidas. A prefeitura do Rio adotou esse procedimento, e identificou um caso confirmado de covid-19 e outros nove suspeitos entre os torcedores presentes no jogo-teste entre Flamengo e Grêmio, em 15 de setembro, pela Copa do Brasil.

"É possível monitorar, condições tem, se os gestores públicos fizerem isso vai ajudar. É aconselhável. Assim, conseguimos identificar qual tipo de atividade terá o maior impacto", recomenda Waldman.

A biomédica Mellanie Fontes-Dutra, coordenadora da Rede Análise covid-19, entende que o momento não é propício para aglomerações nos estádios. "Enquanto a transmissão ainda estiver significativa entendo que não seja seguro fazer esse retorno, ainda que estejamos vendo medida sanitárias sendo implantadas", salienta.

"Minha preocupação é em relação ao que pode ocorrer após o momento do jogo. Mesmo um vacinado não ficando doente, ou transmitindo menos, uma pessoa vulnerável ou sem o regime completo da vacina ainda pode acabar sendo exposta se não houver os cuidados necessários. Em minha análise, deveríamos abaixar ainda mais nossas curvas para ter um cenário de maior segurança para fazer isso, com uma transmissão mais controlada", argumenta Mellanie.

Clubes dão prioridade a sócios

No Rio Grande do Sul, o Grêmio terá o apoio de seu torcedor contra o Sport neste domingo, enquanto o Internacional vive a expectativa de retornar ao Beira-Rio na próxima semana e já anunciou que irá priorizar seus sócios-torcedores.

"O governo estadual decretou, neste inicio, a liberação de 30% da capacidade dos estádios. É um momento de comemoração e reaproximação com o nosso torcedor, que ficou tanto tempo sem assistir ao Inter das arquibancadas. A expectativa é de que tenhamos 15 mil sócios no Beira-Rio para o duelo contra a Chapecoense, na semana que vem", diz Victor Grunberg, vice-presidente de administração do Internacional.

O Juventude decidiu que só abrirá a venda de ingressos para o público geral quando a capacidade liberada for acima de 50%. De acordo com Fábio Pizzamiglio, vice-presidente de marketing do clube, apenas os sócios adimplentes terão acesso aos ingressos neste primeiro momento.

"A ajuda dos nossos sócios durante a pandemia foi fundamental, é uma forma de recompensá-los, reforçando nosso apoio e gratidão pelo suporte nesse período. Para as partidas no Alberto Jaconi, precisamos que eles estejam vacinados ou apresentem resultado negativo para covid-19", comenta o executivo.

Após 35 anos, o torcedor mato-grossense poderá acompanhar um clube do Estado no Brasileirão. Até 35% da capacidade da Arena Pantanal poderá ser ocupada no duelo com o América-MG, neste sábado. A última vez que um representante do Mato Grosso disputou um jogo da Série A com a presença de torcedores foi em 1986.

"Era um sonho de todo mato-grossense poder assistir uma equipe do estado na primeira divisão. Ficamos muitos anos sem ter um time na Série A, o Cuiabá se orgulha muito por representar o nosso povo e a nossa região. Para premiar os nossos sócios-torcedores, aqueles que estão com a mensalidade em dia, independente do plano, não pagarão para acompanhar a partida", conta Cristiano Dresch, vice-presidente do Cuiabá.

No Ceará, o torcedor precisará apresentar um passaporte digital desenvolvido pela empresa Mooh!Tech, que apresenta o teste negativo RT-PCR de até 48 horas ou o comprovante de vacinação, o que facilita a vida do fã ávido para ver seu time novamente. "Ao utilizar o sistema como uma credencial no controle de acesso a locais públicos ou privados, várias medidas, complexas para serem atendidas, deixam de ser essenciais", explica o CEO da Mooh!Tech, Everton Cruz.

A ferramenta já foi testada em ligas da França, Portugal, Israel, Estônia e Vietnã, e será exigida em jogos também em Pernambuco e pela Federação de Futebol de Brasília.

Prejuízo sem torcida

Com os torcedores nas arquibancadas, a arrecadação com bilheteria marca a retomada de um vetor importante na receita das equipes brasileiras. Com a segunda maior média de público do Brasil em 2019, o Fortaleza foi um dos clubes mais afetados financeiramente pela ausência de sua torcida nas arquibancadas. O lucro bruto dos ingressos naquela temporada foi de R$ 11 milhões, valor equivalente a cerca de 10% da receita operacional do clube.

Para a partida contra o Atlético-GO, neste sábado, a Secretaria da Saúde do Ceará liberou a presença de 10% do público no Castelão.

"A perda da arrecadação com bilheterias impactou de forma significativa a nossa receita. Nessa volta, iremos priorizar os sócios-torcedores, que mesmo sem poderem ir ao estádio abraçaram o clube durante esse período complicado", ressalta o presidente Marcelo Paz, contente com a volta dos apoiadores, que será feita, segundo ele, "com cautela e responsabilidade". "O apoio da torcida está no nosso DNA, é um reforço para o clube dentro e fora de campo".

A ausência dos torcedores nos estádios em 2020 causou a perda de R$ 450 milhões com bilheteria para os 34 principais times brasileiros, segundo estudo feito pela Pluri Consultoria. Os clubes, hoje, vivem uma situação muito pior em comparação a 14 de março do ano passado, quando pela primeira vez os estádios brasileiros não tiveram cadeiras cheias, catracas em atividade e as lanchonetes com fila.

"Os jogos sem bilheteria representam um prejuízo irreparável, a começar pelo ponto de vista desportivo já que a torcida é o 12º jogador. E também, além do valor dos ingressos, que são uma importante fonte de receita para o futebol, toda cadeia produtiva foi afetada, do pipoqueiro na porta do estádio até a loja oficial do clube", explica Pedro Trengrouse, especialista em gestão esportiva pela ESPM.

Em 2019, as receitas com dias de jogos fizeram os 20 principais times brasileiros arrecadar R$ 950 milhões, segundo levantamento feito pela E&Y. A quantia representa em média 17% do total de entradas.

"A grande maioria dos clubes já estava em situação de dificuldade extrema. Imaginem que o débito líquido dessas instituições (passivo total menos o dinheiro que tem a receber) atingiu mais de R$ 10 bilhões, houve um aumento em torno de 20% neste débito líquido (R$ 2 bi) apenas no ano de 2020. Com certeza é reflexo da crise causada pelo vírus", aponta Renê Salviano, executivo com experiência profissional em diretoria comercial, de marketing e novos negócios do esporte, e dono da agência de marketing esportivo HeatMap.

Atlético-MG, Flamengo e Red Bull Bragantino já jogaram com torcida

Para três clubes da Série A, jogar com torcida não será novidade. Atlético-MG e Flamengo atuaram com o apoio de seu torcedor em duelos da Libertadores e o Red Bull Bragantino fez o mesmo na vitória por 2 a 0 sobre o Libertad, pelo jogo de ida da semifinal da Copa sul-americana. Na ocasião, pouco mais de 1.200 torcedores viram o triunfo das arquibancadas do Nabi Abi Chedid.

O Flamengo foi a equipe que mais se esforçou para jogar diante de seu torcedor e a primeira a poder contar com público. A diretoria rubro-negra aproveitou que a Conmebol liberou a presença de público a partir das oitavas e transferiu seu duelo com o Defensa y Justicia, pela Libertadores, para Brasília, já que a prefeitura do Rio havia negado o pedido do clube para atuar no Maracanã. Cerca de 5 mil rubro-negros geraram renda de quase R$ 1 milhão e assistiram ao time golear o rival argentino por 4 a 1 e avançar de fase.

Nas quartas, o Flamengo enfrentou o Olímpia novamente no Mané Garrincha. Fez 5 a 1 no oponente paraguaio com 11 mil torcedores nas arquibancadas. Na semifinal, a prefeitura do Rio liberou e o time de Renato Gaúcho duelo com o Barcelona de Guayaquil no Maracanã, onde 23.083 pessoas deram renda de R$ 4 milhões ao clube e viram de perto o triunfo por 2 a 0 sobre os equatorianos.

Mas o retorno do torcedor ao Maracanã foi contra o Grêmio pelas quartas da Copa do Brasil. Como a Secretaria Municipal de Saúde do Rio apresentou um parecer técnico favorável à proposta do Flamengo, o time pôde duelar com os gaúchos com público no estádio. Diante de 6 mil torcedores, venceu por 2 a 0 e ratificou a vaga à semifinal.

O Atlético-MG contou com público em dois jogos da Libertadores. Contra River Plate, nas quartas, foi apoiado por cerca de 17 mil torcedores, e diante do Palmeiras, na semifinal, pouco mais de 18 mil viram a equipe empatar por 1 a 1 e ser eliminada.

Estadão
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