Corinthians 100 anos: a vitória da resistência, saiba mais sobre a fundação
- Diego Garcia
O Corinthians completa 100 anos de vida neste dia 1º de setembro de 2010. Após um século de vida, o clube já passou por situações boas e ruins, e continua sendo um dos maiores times do Brasil.
Com as comemorações do centenário corintiano, o Terra voltou um pouco no tempo e reviveu a história do mais popular clube de São Paulo, em conversa com historiador e jornalista Celso Unzelte. Confira abaixo um pouco mais sobre o nascimento do Corinthians.
1910 - o ano do nascimento:
O calendário marcava 1910. No dia 1º de setembro, cinco operários se reuniram na esquina da Rua dos Imigrantes (hoje José Paulino) com a atual Cônego Martins e deram início à história centenária do Corinthians.
Carlos Silva era trabalhador braçal; Joaquim Ambrósio e Antônio Pereira, pintores de parede; Raphael Perrone, sapateiro; Anselmo Correia, era cocheiro. Em comum, além do perfil operário, apenas uma ideia em comum: fundar um time de futebol. Foi o bastante.
"Todos eles eram operários do bairro do Bom Retiro e queriam fundar um time de futebol. Além disso, eles tinham espaço pelo Botafogo, um time que existia no bairro. E a polícia estava de olho nos jogos do Botafogo, pois sempre quebrava o pau, sempre tinha briga e por isso a polícia queria fechar esse clube. Isso ajudou, pois esses jogadores desse time foram para o Corinthians", declarou Celso Unzelte, principal historiador do Corinthians.
Foi então que no dia 1º de setembro, junto a outros cinco operários - entre eles Miguel Bataglia, que viria a ser o primeiro presidente do clube -, eles proclamaram fundada uma nova agremiação paulistana. Mas existia um porém: faltava um nome.
Sport Club Corinthians Paulista:
Alguns nomes foram sugeridos, como Santos Dumont e Carlos Gomes, mas vingaria outra opção. Impressionados com as apresentações de um selecionado inglês que excursionou pelo Brasil, o Corinthian Football Club - que jogou seis partidas e venceu todas, marcando 38 gols - os operários entraram em consenso e decidiram homenagear o clube britânico.
"Pela campanha do Corinthians inglês por aqui, os cinco decidiram homenagear esse clube, que passou pelo País massacrando todos os adversários", declarou Unzelte, explicando uma curiosidade peculiar: "só que o nome do time inglês não tinha a letra 's' no final, mas seus jogadores eram chamados de 'corinthians', o que na tradução deveria ser corintianos. Foi uma confusão que ocorreu na época", explicou Celso.
Além da opção de Corinthians, chama a atenção a aparição de outro nome entre os envolvidos. Carlos Gomes foi um importante compositor brasileiro e que obteve muito prestígio entre as plateias italianas, país em que viveu boa parte de sua vida.
"Isso mostra que a participação da colônia italiana, assim como a presença de inúmeros outros imigrantes dos mais diversos tipos, como espanhóis, árabes, portugueses, todos fizeram parte do nascimento do Corinthians", declarou o historiador.
"O autor do primeiro gol da história do clube, Luiz Fabbi, inclusive, era italiano. Raphael Perrone, um dos fundadores, é o italiano presente na fundação. Colocaram o nome de time Paulista, mas o Corinthians era uma reunião de varias colônias, era a representação do povo operário brasileiro no início do século", concluiu.
A luta da resistência e o surgimento de um fenômeno social:
O Corinthians nasceu com um perfil operário, em uma época que o futebol era extremamente elitista. Clubes como Mackenzie, São Paulo Athletic, Germânia, Paulistano, todos oriundos da alta sociedade paulistana, comandavam o esporte na cidade e ignoravam os movimentos de resistência que nasciam nas várzeas dos rios transbordados de São Paulo.
"No início, tinham dois tipos de times de futebol. A elite jogava o futebol oficial e o povo criou um futebol paralelo, que era o de várzea, chamado de extra oficial. Era a chance do povo, e o povo se apropriou desse esporte. O Corinthians começou a fazer muito sucesso, começou a ser o Galo da Várzea. Atraiu pessoas para ver seus jogos, ficou famoso entre a população e alimentou o sonho de disputar um campeonato oficial", definiu Celso Unzelte.
Graças ao Corinthians, os primeiros Campeonatos Paulistas tiveram que ser divididos, já que os clubes de elite não aceitavam disputar a mesma competição que os clubes "pobres". Isso criou um verdadeiro movimento de aceitação e uma luta de resistência que caracterizaria a história do Corinthians e identificaria o clube com o povo para sempre.
"O Campeonato Paulista nasceu dessa motivação técnica do Corinthians, que tinha um time muito bom para continuar na várzea. Teve a luta pela aceitação das elites, que, quando aceitaram, criaram uma outra Liga. Nos primeiros anos em que foi campeão, o Corinthians não disputa com clubes como Paulistano e outros elitizados, que não aceitaram a inclusão de equipes da várzea. Eles eram estudantes ingleses, alemães, gente rica, e não queriam se misturar com operários", acrescentou.
Com o tempo, o Corinthians foi saindo das pequenas várzeas paulistanas e se espalhando por todo o País. Indesejado pelos "grandes", em um curto espaço o novo time tornou-se gigante, aclamado pelos braços populares de uma população sofrida. São Paulo ficaria pequeno para o clube, que em breve seria o maior campeão do Estado e chegaria, em 2010, aos 100 anos de vida.
"O Corinthians nasce dessa resistência. O Corinthians é uma vitória do povo, é a representação da luta do povo contra as elites. Talvez isso ajude a explicar o fenômeno social que virou a historia do clube", concluiu Unzelte, acrescentando. "O Corinthians é a nossa vida, a nossa história, e a gente fica muito contente por prestigiar essa passagem do centenário".