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Futebol

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A Copa invade a Fundação Casa: 'Me sinto livre por 90 minutos e mais os acréscimos'

'Estadão' acompanha internos na vitória da seleção sobre o Japão: abraços e broncas mostram como o Mundial altera a rotina

1 jul 2026 - 23h56
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Do lado de fora da Fundação Casa Itaquera, na zona leste, as vuvuzelas, caxirolas e buzinas anunciam o início do jogo do Brasil na Copa do Mundo nesta segunda-feira, 29. A Copa passa por cima dos muros de mais de cinco metros.

Portões azuis, grossos, pequenas gaiolas de transição, onde uma porta só se abre depois que a outra se fecha, e cadeados de sete centímetros prendem até a nossa respiração. Lá dentro, 74 adolescentes e jovens, entre 12 e 21 anos, internados vestem camisas amarelas sobre o uniforme cinza-chumbo obrigatório. Durante pouco mais de uma hora e meia, o refeitório virou arquibancada. A Copa liberta.

Em dias de jogo da seleção brasileira na Copa, a rotina muda. Eles recebem bandeiras de plástico e vuvuzelas - dói o ouvido só de lembrar o barulho que elas fazem. Um grupo assiste à partida em um refeitório de janelas altas. Até elas, uma rara abertura em meio às portas metálicas, são protegidas por grossas grades perfuradas.

O ambiente de contenção sucumbe ante o calor do clima de estádio. Até as gaiolas de transição entre um espaço e outro receberam desenhos da taça da Copa do Mundo. A diretora da unidade, Flávia Mangolin de Barros, de 45 anos, pintou o rosto dos adolescentes de verde e amarelo. Alguns reclamam, dizendo que aquilo parece batom.

Internos da Fundação Casa acompanham vitória do Brasil sobre o Japão na Copa do Mundo
Internos da Fundação Casa acompanham vitória do Brasil sobre o Japão na Copa do Mundo
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

Ela responde sem perder o sorriso: "É para você pensar que uma novinha está perto de você". As risadas aliviam a tensão. Na metade do primeiro tempo, ela retoca as pinceladas que começaram a descolorir.

Ao longo da partida, os comentários lembram qualquer roda de torcedores. "Vira!", grita um adolescente, pedindo que o Brasil ataque para o outro lado do campo. Quando Casemiro marca o gol de empate, outro sentencia: "Nunca critiquei".

Diretora da unidade fez questão de colorir os rostos dos internos para assistir ao jogo da seleção brasileira
Diretora da unidade fez questão de colorir os rostos dos internos para assistir ao jogo da seleção brasileira
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

Nem a própria condição dos internos deixa de ser motivo de humor. Em um lance polêmico, um jovem protesta contra a arbitragem. "O juiz está roubando para o Japão." A resposta vem carregada de ironia. "Olha quem está falando de roubar?".

Comemoração dos internos da Fundação Casa, em Itaquera, celebram gol salvador da seleção brasileira
Comemoração dos internos da Fundação Casa, em Itaquera, celebram gol salvador da seleção brasileira
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

A execução do Hino Nacional revela outra realidade. Muitos estão aprendendo agora a cantar corretamente a letra, reflexo de trajetórias marcadas por rupturas escolares.

Ex-menino da Vila quer ser engenheiro

Por determinação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a identidade dos adolescentes é preservada para garantir sua ressocialização. Um deles é C., de 18 anos. Ex-jogador das categorias de base do Santos, diz ser ambidestro, prefere atuar pelos lados do campo.

Conta que esteve perto de realizar o sonho de se tornar profissional, mas interrompe a história quando o assunto chega ao motivo da internação. "Foram algumas escolhas erradas, pessoas erradas que fizeram chegar aqui. A culpa não foi dessas amizades. Foi minha. Mas nosso foco é mudar isso, socializar e, quem sabe, voltar ao futebol novamente".

Flávia Mangolim de Barros dirige a Fundação Casa Itaquera há sete anos
Flávia Mangolim de Barros dirige a Fundação Casa Itaquera há sete anos
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

Ele não menciona o motivo da internação. O Estadão apurou que foi roubo a residências. Por enquanto, são os jogos da seleção brasileira que fazem o adolescente se reconectar com seu passado. "Com a Copa do Mundo, eu esqueço onde estou. Eu me sinto livre praticamente enquanto dura o jogo, 90 minutos mais os acréscimos."

Na mesma sala, J., de 20 anos conta que sua primeira lembrança de Copa é um trauma coletivo: o 7 a 1 sofrido pelo Brasil diante da Alemanha, em 2014, assistido ao lado dos pais, em casa. "Foi triste, mas a gente continua no sonho do hexa".

Interno há 10 meses por tráfico de drogas, esse zagueiro no estilo zagueiro mesmo, que só rebate, diz que ver os jogos do Brasil é bom para "distrair a mente". "A Copa não me deixa esquecer onde estou. É impossível. Mas dá uma amenizada. Copa é um momento de felicidade".

No segundo ano do Ensino Médio, ele diz que pretende trabalhar com o pai, funcionário da CPTM, quando deixar a unidade. A mãe trabalha numa loja de roupas do Brás, região central. Ambos não perdem as visitas de domingo. Quando sair, quer cursar Engenharia Civil. A justificativa vem em linguagem direta: "Acho que dá um dinheiro da hora."

Liberdade se o Brasil passar?

O esporte ocupa espaço importante na rotina da unidade. Além do futebol, há aulas de tênis, handebol e skate. Os adolescentes também estudam, recebem acompanhamento de psicólogos, assistentes sociais, pedagogos e equipes socioeducativas, que avaliam continuamente sua evolução. Os adolescentes são internados pelo período de seis meses a três anos.

A Copa inspira até as brincadeiras sobre o próprio futuro. "Diretora, se o Brasil ganhar, vai ser liberdade para todo mundo?", pergunta L., de 15 anos. Ela sorri.

A liberdade ali tem limites bem definidos. Durante a partida, levantar para beber água exige autorização. Trocar de lugar também. Flávia apenas faz um discreto movimento com a cabeça e o adolescente entende que pode ir. Palavrões são considerados faltas graves. Exageros na comemoração também.

Corintiana em uma família de santistas e há sete anos à frente da unidade, Flávia toca buzina junto com os adolescentes e explica que a descontração faz parte do trabalho. "Eles precisam entender que existem momentos de brincadeira e momentos de seriedade. Assim é mais fácil se aproximar"

Quando Gabriel Martinelli marca o gol da vitória brasileira já nos acréscimos, os protocolos cedem. Os adolescentes se abraçam, pulam, sobem nos bancos e transformam o refeitório em uma arquibancada improvisada atrás das grades.

A explosão dura poucos segundos. A diretora interrompe a festa e chama a atenção dos meninos. Não gostou de subirem nos bancos.

No fim da partida, a Copa deixa a unidade quase tão rapidamente quanto entrou. A liberdade que o futebol oferece tem hora para acabar. Bandeiras de plástico são recolhidas. As vuvuzelas desaparecem. Alguns seguem para atividades educativas, outros assistem à televisão ou participam das oficinas de crochê reservadas aos adolescentes com bom comportamento.

No pátio, uma árvore dos sonhos, onde cada adolescente pode registrar simbolicamente seus projetos para o futuro, mostra que esse momento é transitório.

Estadão
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