A Copa invade a Fundação Casa: 'Me sinto livre por 90 minutos e mais os acréscimos'
'Estadão' acompanha internos na vitória da seleção sobre o Japão: abraços e broncas mostram como o Mundial altera a rotina
Do lado de fora da Fundação Casa Itaquera, na zona leste, as vuvuzelas, caxirolas e buzinas anunciam o início do jogo do Brasil na Copa do Mundo nesta segunda-feira, 29. A Copa passa por cima dos muros de mais de cinco metros.
Portões azuis, grossos, pequenas gaiolas de transição, onde uma porta só se abre depois que a outra se fecha, e cadeados de sete centímetros prendem até a nossa respiração. Lá dentro, 74 adolescentes e jovens, entre 12 e 21 anos, internados vestem camisas amarelas sobre o uniforme cinza-chumbo obrigatório. Durante pouco mais de uma hora e meia, o refeitório virou arquibancada. A Copa liberta.
Em dias de jogo da seleção brasileira na Copa, a rotina muda. Eles recebem bandeiras de plástico e vuvuzelas - dói o ouvido só de lembrar o barulho que elas fazem. Um grupo assiste à partida em um refeitório de janelas altas. Até elas, uma rara abertura em meio às portas metálicas, são protegidas por grossas grades perfuradas.
O ambiente de contenção sucumbe ante o calor do clima de estádio. Até as gaiolas de transição entre um espaço e outro receberam desenhos da taça da Copa do Mundo. A diretora da unidade, Flávia Mangolin de Barros, de 45 anos, pintou o rosto dos adolescentes de verde e amarelo. Alguns reclamam, dizendo que aquilo parece batom.
Ela responde sem perder o sorriso: "É para você pensar que uma novinha está perto de você". As risadas aliviam a tensão. Na metade do primeiro tempo, ela retoca as pinceladas que começaram a descolorir.
Ao longo da partida, os comentários lembram qualquer roda de torcedores. "Vira!", grita um adolescente, pedindo que o Brasil ataque para o outro lado do campo. Quando Casemiro marca o gol de empate, outro sentencia: "Nunca critiquei".
Nem a própria condição dos internos deixa de ser motivo de humor. Em um lance polêmico, um jovem protesta contra a arbitragem. "O juiz está roubando para o Japão." A resposta vem carregada de ironia. "Olha quem está falando de roubar?".
A execução do Hino Nacional revela outra realidade. Muitos estão aprendendo agora a cantar corretamente a letra, reflexo de trajetórias marcadas por rupturas escolares.
Ex-menino da Vila quer ser engenheiro
Por determinação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a identidade dos adolescentes é preservada para garantir sua ressocialização. Um deles é C., de 18 anos. Ex-jogador das categorias de base do Santos, diz ser ambidestro, prefere atuar pelos lados do campo.
Conta que esteve perto de realizar o sonho de se tornar profissional, mas interrompe a história quando o assunto chega ao motivo da internação. "Foram algumas escolhas erradas, pessoas erradas que fizeram chegar aqui. A culpa não foi dessas amizades. Foi minha. Mas nosso foco é mudar isso, socializar e, quem sabe, voltar ao futebol novamente".
Ele não menciona o motivo da internação. O Estadão apurou que foi roubo a residências. Por enquanto, são os jogos da seleção brasileira que fazem o adolescente se reconectar com seu passado. "Com a Copa do Mundo, eu esqueço onde estou. Eu me sinto livre praticamente enquanto dura o jogo, 90 minutos mais os acréscimos."
Na mesma sala, J., de 20 anos conta que sua primeira lembrança de Copa é um trauma coletivo: o 7 a 1 sofrido pelo Brasil diante da Alemanha, em 2014, assistido ao lado dos pais, em casa. "Foi triste, mas a gente continua no sonho do hexa".
Interno há 10 meses por tráfico de drogas, esse zagueiro no estilo zagueiro mesmo, que só rebate, diz que ver os jogos do Brasil é bom para "distrair a mente". "A Copa não me deixa esquecer onde estou. É impossível. Mas dá uma amenizada. Copa é um momento de felicidade".
No segundo ano do Ensino Médio, ele diz que pretende trabalhar com o pai, funcionário da CPTM, quando deixar a unidade. A mãe trabalha numa loja de roupas do Brás, região central. Ambos não perdem as visitas de domingo. Quando sair, quer cursar Engenharia Civil. A justificativa vem em linguagem direta: "Acho que dá um dinheiro da hora."
Liberdade se o Brasil passar?
O esporte ocupa espaço importante na rotina da unidade. Além do futebol, há aulas de tênis, handebol e skate. Os adolescentes também estudam, recebem acompanhamento de psicólogos, assistentes sociais, pedagogos e equipes socioeducativas, que avaliam continuamente sua evolução. Os adolescentes são internados pelo período de seis meses a três anos.
A Copa inspira até as brincadeiras sobre o próprio futuro. "Diretora, se o Brasil ganhar, vai ser liberdade para todo mundo?", pergunta L., de 15 anos. Ela sorri.
A liberdade ali tem limites bem definidos. Durante a partida, levantar para beber água exige autorização. Trocar de lugar também. Flávia apenas faz um discreto movimento com a cabeça e o adolescente entende que pode ir. Palavrões são considerados faltas graves. Exageros na comemoração também.
Corintiana em uma família de santistas e há sete anos à frente da unidade, Flávia toca buzina junto com os adolescentes e explica que a descontração faz parte do trabalho. "Eles precisam entender que existem momentos de brincadeira e momentos de seriedade. Assim é mais fácil se aproximar"
Quando Gabriel Martinelli marca o gol da vitória brasileira já nos acréscimos, os protocolos cedem. Os adolescentes se abraçam, pulam, sobem nos bancos e transformam o refeitório em uma arquibancada improvisada atrás das grades.
A explosão dura poucos segundos. A diretora interrompe a festa e chama a atenção dos meninos. Não gostou de subirem nos bancos.
No fim da partida, a Copa deixa a unidade quase tão rapidamente quanto entrou. A liberdade que o futebol oferece tem hora para acabar. Bandeiras de plástico são recolhidas. As vuvuzelas desaparecem. Alguns seguem para atividades educativas, outros assistem à televisão ou participam das oficinas de crochê reservadas aos adolescentes com bom comportamento.
No pátio, uma árvore dos sonhos, onde cada adolescente pode registrar simbolicamente seus projetos para o futuro, mostra que esse momento é transitório.
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