Em entrevista ao Le Monde, Raí lembra do irmão Sócrates e do peso de não poder ser um jogador mediano
Raí, um dos atletas e brasileiros mais apreciados pelos franceses, é a personalidade da semana entrevistada pelo jornal Le Monde. A entrevista foi publicada na edição que chegou às bancas neste fim de semana, com data desta segunda‑feira (20). Na chamada de capa, a frase "No futebol, era como se eu tivesse uma varinha mágica" resume o tom do depoimento do ex-jogador da Seleção Brasileira. No bate‑papo com a jornalista Raphaëlle Bacqué, centrado em momentos decisivos de sua vida, o ex‑capitão do PSG afirma que não podia ser um jogador mediano, pois a comparação com o irmão Sócrates teria sido insuportável.
Ao longo da conversa, Raí revisita sua trajetória pessoal e profissional, marcada pela força da família, pelo talento precoce no esporte e por um profundo compromisso social e político. Caçula de seis irmãos, ele lembra que cresceu em um ambiente no qual os pais valorizavam simultaneamente os estudos, o esporte e o engajamento social.
Filho de uma professora e de um funcionário público autodidata, Raí destaca o papel decisivo do irmão mais velho, Sócrates, ídolo do futebol brasileiro e símbolo da Democracia Corinthiana, experiência emblemática de resistência democrática durante a ditadura militar. Tímido e sonhador fora de campo, ele conta que no futebol tudo se transformava.
Desde a adolescência, percebia que conseguia realizar jogadas difíceis com extrema facilidade, como se tivesse uma varinha mágica. Ao mesmo tempo, reafirma que nunca poderia ser um jogador mediano: a comparação com Sócrates teria sido insuportável. O ponto de virada veio cedo, aos 17 anos, quando se tornou pai, o que o levou a assumir responsabilidades, intensificar os treinos e, em pouco tempo, se tornar jogador profissional.
Engajamento social
Já consagrado no Brasil, Raí chegou ao PSG em 1993, enfrentando inicialmente um choque cultural e climático, mas rapidamente se firmou como capitão da equipe. Na França, aprendeu o idioma, estudou na universidade Sorbonne e aprofundou seu interesse pela cultura e pela política, herança direta de sua formação familiar.
Longe de se deixar deslumbrar pela fama, Raí explica que observar de perto os excessos que marcaram a vida do irmão o ajudou a manter distância das ilusões do sucesso. Ao encerrar a carreira em 2000, passou a se dedicar intensamente ao engajamento social. Ao lado do ex‑jogador Leonardo, criou a ONG Gol de Letra, voltada à educação de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade no Brasil.
Crítico do bolsonarismo e do avanço dos populismos no mundo, Raí afirma preferir atuar fora da política institucional para preservar sua independência e seu impacto social. Defende a educação, o esporte, a arte e o diálogo como caminhos para reduzir desigualdades e reconstruir a convivência democrática.
Com dupla nacionalidade, passaporte francês e condecorado com a Legião de Honra, ele mantém fortes laços com a França e reafirma, na entrevista, a convicção de que sociedades mais justas são fruto de escolhas coletivas.
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