Dedo da discórdia: por que gesto de canadense é irregular e colocou em xeque honestidade no curling?
Marc Kennedy é pivô de polêmica na modalidade, com jogos gerenciados pelos próprios atletas e pedidos por implementação de VAR
Futebol, vôlei e tênis são esportes que contam com revisão em vídeo para definição de lances polêmicos. O curling se recusa a aceitar esse recurso, mas, nos Jogos de Inverno de Milão-Cortina, vive uma crise que pode mudar o cenário.
O esporte é conhecido pela etiqueta e honestidade. Os próprios jogadores monitoram as jogadas e confessam irregularidades. Um exemplo é quando há dois toques no lançamento da pedra. Foi essa a polêmica com o canadense Marc Kennedy nos Jogos de Inverno.
Na partida entre Canadá e Suécia, em 13 de fevereiro, Kennedy lançou a pedra e, com o dedo, deu mais um toque no granito, mas não apontou para a infração. O sueco Oskar Eriksson reclamou, mas não houve comprovação, já que o próprio Kennedy não sinalizou.
Depois, o canadense não negou e até reconheceu que pode ter cometido "pequenas infrações ao regulamento".
Houve cobranças por novas formas de revisão. Isso levou a World Curling a emitir um comunicado, reiterando que não usa vídeo para revisar decisões. "As decisões tomadas durante o jogo são definitivas", escreveu a entidade.
Canada cheating… at curling
Curling is awesome to watch though. pic.twitter.com/Y8T6UKLFZd
— Matt White (@GreenSuit76) February 15, 2026
No curling, os toques no cabo da pedra são ilimitados antes da linha de lançamento. Após a marca, não é permitido tocá-la novamente. Se isso acontece, a pedra lançada é removida do jogo. Em nenhum momento, é permitido tocar no granito, apenas no cabo.
Depois da confusão com Kennedy, a World Curling mudou o protocolo, mas ainda sem incluir revisão por vídeo. Os árbitros ficam posicionados no final da pista, sem visão para possíveis infrações no lançamento.
Entretanto, foi definido que, quando há notificação de uma violação pela equipe adversária, eles se aproximam e observam os lançamentos durante três entradas, para verificar possíveis infrações seguintes. Durou um dia, e a World Curling recuou após reclamações.
Enquanto durou, porém, a mudança teve resultado. Na disputa feminina entre Canadá e Suíça, uma pedra lançada pela canadense Rachel Homan foi retirada por dois toques. Ela não concordou: "Absolutamente não. Chance zero por cento".
???? women curling team got caught and was penalized this time after its men team got away with accused cheating against Sweden
In her first delivery of the game against Switzerland, ???? women's skip Homan was judged to have touched the stone after release by an official on the… https://t.co/yNsNRTUSHl pic.twitter.com/JFppEBuDPM
— David Lee (@DavidLe76335983) February 15, 2026
Os novos árbitros também tiraram uma pedra do britânico Bobby Lamine pelo mesmo motivo. Companheiro de Lamine, Hammy McMillan Jr. defendeu a implementação do vídeo para revisão.
"Você traz o VAR ou o Hawk-Eye, e cada equipe tem um ou dois desafios, então você tem que ter certeza de que alguém cometeu a violação", argumentou o escocês. "Talvez modernizaria um pouco o curling. Eu acho que o replay de vídeo poderia ser o próximo passo, com as equipes recebendo desafios."
Após a polêmica na partida contra a Suécia, Kennedy foi acusado de trapaça pelos suíços, na derrota canadense por 9 a 5. "Eu vi (Kennedy fazer isso) quando o árbitro estava ao meu lado", disse o suíço Pablo Lachat-Couchepin à BBC Sport. "Eu realmente acredito que não faz diferença nenhuma, não altera a pedra, mas quando um árbitro estiver analisando, ele deveria ver."
"Fiquei um pouco irritado e disse ao árbitro principal que, se enviassem um e-mail, teriam que seguir o que está escrito. Não tenho nada contra o Marc, mas é preciso seguir a regra", completou.
A Curling Canada, órgão responsável pelo esporte no país norte-americano, recebeu uma advertência depois do primeiro caso, mas não sobre a infração. O comunicado foi sobre a linguagem de Kennedy no jogo. A regra 19 do curling proíbe "conduta inadequada, linguagem obscena ou ofensiva, abuso de equipamentos ou danos intencionais".
"Eu não gosto de ser acusado de trapaça depois de 25 anos competindo e quatro Olimpíadas. Ele continuou nos acusando de trapaça, e eu não gostei disso. Então eu disse a ele onde enfiar isso, porque somos o time errado para fazer esse tipo de acusação. Não me importo. Talvez ele estivesse chateado por estar perdendo", contou Kennedy após a partida contra os suecos.
O Canadá é o maior campeão olímpico de curling. São seis ouros no masculino, dois no feminino e um nas duplas mistas. O país ainda tem três pratas e três bronzes. A Suécia é a segunda maior medalhista, com 11 (quatro outros, três pratas e quatro bronzes).