Cortina d'Ampezzo reencontra fascínio das Olimpíadas após 70 anos
Mas o sentimento dos moradores em relação aos Jogos não é unânime
70 anos atrás, era Brigitte Bardot quem deslumbrava. Hoje, o chalé de Tom Cruise rouba a cena. Cortina d'Ampezzo volta a sediar os Jogos Olímpicos de Inverno sete décadas depois da edição de 1956, a primeira em solo italiano e que transformou uma estação de esqui já conhecida em um ícone mundial.
No primeiro dia de competições oficiais, na última quarta (4), a "pérola das Dolomitas" acordou coberta por uma neve que caiu sem parar, pintando de branco as ruas e dificultando a passagem nas calçadas. É o inverno como se imagina, não como se viu com frequência nos últimos anos, mesmo em outras edições de Olimpíadas. Esse é um dos poucos elementos de conexão com os Jogos de 1956. No resto, o mundo mudou completamente.
"Há um abismo de diferença. Os esquis são duas vezes mais rápidos, ou quase", reflete Bruno Alberti, 91 anos, ex-esquiador alpino italiano que disputou as Olimpíadas de Inverno de 1960 e 1964. 70 anos atrás, o sonho de competir na sua Cortina d'Ampezzo ruiu poucos dias antes das provas, devido a uma lesão durante um treino. Ainda assim, ele foi um dos condutores da tocha olímpica, um consolo parcial.
"Foram Olimpíadas lindas, deixaram uma bela lembrança. Cortina é única, ninguém tem as montanhas que a cercam", diz Alberti, garantindo que estes Jogos também "deixarão uma bela lembrança".
A esperança de um legado positivo é compartilhada por Nicoletta, da livraria Sovilla. "As Olimpíadas são importantes. Nós ainda vivemos dos louros de 1956 e, desde então, não se fez mais nada", explica. "É a chance de se renovar. Muitos hotéis estão em reforma. Nós abrimos em 1971 e, já naquela época, se via uma cidade em decadência. Agora é a oportunidade de colocar tudo em movimento novamente", acrescenta.
O vilarejo alpino ainda tem o ar de um canteiro de obras em fase de acabamento, cenário intensificado pelos inúmeros veículos limpadores de neve e moradores munidos de pás. O estádio de gelo, perto do qual o vigilante Pietro Zantonini morreu em uma noite de frio polar algumas semanas atrás, está pronto. Mas faltam elementos cenográficos externos, e as equipes de curling, na noite inaugural, tiveram de parar por alguns minutos devido a problemas com a iluminação.
Pietro Gaspari, de 26 anos, conhecido como "Bandion", é mais crítico em relação aos Jogos. Com alguns jovens, ele formou um coletivo para trazer à tona as contradições olímpicas, como a pista de bobsled, construída com corte de árvores e alto custo, apesar do número escasso e decrescente de praticantes. Porém não é a única nem a principal, segundo ele. "Dos anos 1970 até hoje, perdemos 3 mil residentes. Passamos de 8,5 mil para 5,5 mil.
Nossa vila é cada vez menos pensada para quem vive aqui e mais para quem a consome", afirma Gaspari, alertando que as Olimpíadas "agravam" essa dinâmica. Ele, no entanto, reconhece alguns pontos positivos: "Investimentos hoteleiros foram desbloqueados, e a restauração do estádio foi boa".
Gaspari é ladino, grupo linguístico histórico da região e que, segundo ele, foi ignorado no material olímpico sobre Cortina d'Ampezzo. "A sinalização dos eventos não traz os nomes em ladino", salienta. Por isso, a União dos Ladinos de Ampezzo convidou os moradores a exibir suas bandeiras verde, branca e azul nas janelas.
É por esse motivo que, em uma pequena vila que recebe bandeiras de todo o mundo pela segunda vez em 70 anos, a mais visível de todas é a ladina.