Como o exercício físico pode ser um aliado no cuidado da endometriose
Médico Luis Felipe Sallum explica como a atividade física, quando bem orientada, pode ajudar no controle da doença sem normalizar a dor
Movimentar o corpo é um ato de autocuidado. Para mulheres com endometriose, o exercício físico pode representar não apenas uma forma de manter a saúde, mas também uma importante ferramenta de alívio dos sintomas e de reconexão com o próprio corpo. No entanto, há um limite que não deve ser ultrapassado: a dor não pode ser tratada como algo normal.
A endometriose é uma doença inflamatória crônica caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina, principalmente na região pélvica. Esse tecido responde às variações hormonais do ciclo menstrual, provocando inflamação persistente, dor pélvica, cólicas intensas, fadiga e outros sintomas que impactam diretamente a qualidade de vida.
Apesar de comum - afetando milhões de mulheres de diferentes idades - a endometriose ainda é, muitas vezes, silenciosa e subdiagnosticada. Mesmo mulheres fisicamente ativas, que praticam exercícios regularmente, podem conviver com sintomas sem perceber que algo não está bem. Dor frequente, cansaço excessivo e queda de rendimento esportivo costumam ser naturalizados, tanto no dia a dia quanto no ambiente esportivo.
Segundo o médico ginecologista Luis Felipe Sallum, a prática de atividade física pode, sim, ser uma aliada importante no cuidado da endometriose, desde que seja individualizada e acompanhada. Evidências científicas mostram que o exercício regular está associado à redução da dor e à melhora da qualidade de vida, atuando como modulador inflamatório e hormonal.
A atividade física contribui para a diminuição da inflamação sistêmica, melhora da circulação, equilíbrio hormonal e liberação de endorfinas, substâncias responsáveis pela sensação de bem-estar e pelo alívio da dor.
Por outro lado, o alerta é claro: dor intensa durante o exercício, piora das cólicas, cansaço extremo ou alterações no ciclo menstrual não fazem parte de um treino saudável. Esses sinais indicam que o corpo está sobrecarregado e precisa ser ouvido. Ignorá-los pode agravar os sintomas e atrasar o diagnóstico da doença.
No esporte de alto rendimento, a atenção deve ser ainda maior. Treinos excessivamente intensos, associados a baixo percentual de gordura corporal e altos níveis de estresse físico, podem provocar alterações hormonais importantes, irregularidade menstrual ou até ausência de menstruação. Esses desequilíbrios não apenas podem piorar os sintomas da endometriose, como também impactar a saúde óssea e o bem-estar a longo prazo.
Vivemos em uma cultura que valoriza ultrapassar limites e suportar dor como sinônimo de força. No entanto, quando se trata de saúde feminina, força também é saber pausar, ajustar rotinas, pedir ajuda e buscar orientação médica especializada. Dor não é normal - nem para mulheres comuns, nem para atletas.
A relação entre endometriose e esporte é complexa: o exercício pode aliviar sintomas e melhorar a qualidade de vida, mas a dor jamais deve ser ignorada. Informação de qualidade, acompanhamento médico e individualização da prática esportiva são fundamentais para que mulheres com endometriose continuem ativas, saudáveis e em movimento.
- Quando bem orientado, o esporte é um grande aliado da saúde ginecológica. O equilíbrio entre treino, saúde hormonal e acompanhamento médico é o caminho para garantir que desempenho e bem-estar caminhem juntos. Afinal, a relação entre endometriose e atividade física não é sobre escolher entre movimento e saúde, mas sobre construir um percurso em que ambos coexistam de forma segura e equilibrada - destacou o especialista.