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Endrick, Deus e família: psicólogos não podem ser menosprezados pela religião

Jogador do Palmeiras e da seleção levanta debate sobre a resistência à psicologia do esporte dentro do futebol

10 fev 2024 - 12h23
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Endrick comemora gol pelo Brasil no torneio Pré-Olímpico
Endrick comemora gol pelo Brasil no torneio Pré-Olímpico
Foto: FEDERICO PARRA/AFP via Getty Images / Esporte News Mundo

Em entrevista à revista Placar, o atacante Endrick causou polêmica ao afirmar que “meus psicólogos são Deus e minha família”. À princípio, uma fala sincera e espontânea de um garoto religioso de 17 anos, mas que se torna questionável pelo complemento: “Se eu tenho Deus na minha vida, não preciso desabafar com outra pessoa que não vai nem conhecer meus pais e minha pessoa. Eu somente tenho que conversar com Deus e orar”.

Não há problema em entender que não precisa de psicólogo, dispensar a terapia ou se sentir plenamente acolhido pela família e a religião. Nem todas as questões emocionais necessitam de tratamento médico, e o acolhimento espiritual pode oferecer respostas satisfatórias para aflições típicas de um adolescente – até mesmo um que lida de forma tão precoce com a pressão de torcedores e imprensa.

O problema na fala de Endrick é por, de certa forma, transparecer o menosprezo com o trabalho de psicólogos, como se o fato de ser um profissional “desconhecido” invalidasse o tratamento médico. Na psicologia, justamente por envolver métodos científicos ministrados por alguém com distanciamento afetivo do paciente, a impessoalidade é fundamental para se alcançar bons resultados.

Há de se considerar que o atacante do Palmeiras e da seleção brasileira tem apenas 17 anos. Pela inexperiência, pode ter se atrapalhado com as palavras ao tentar exaltar a importância da religião e da família em sua trajetória. No entanto, mesmo que despropositada, a declaração sobre psicólogos carrega um antigo preconceito do meio do futebol com a psicologia.

Vários profissionais, principalmente treinadores e dirigentes, já dispensaram ou negligenciaram o trabalho de psicólogos do esporte. Nas últimas duas Copas do Mundo, a seleção brasileira, sob o comando de Tite, não contou com profissionais de psicologia em sua delegação. Outro ex-técnico da seleção, Dunga sempre foi crítico à atuação de psicólogos no esporte, argumentando que atletas “não abrem o coração para quem não conhecem”.

Por outro lado, a figura de pastores e líderes religiosos é comum em concentrações de clubes e seleções. Profissionais de psicologia que atuam no meio observam que jogadores muito apegados à religião geralmente são os mais restritivos a abordagens de psicólogos, como se tratamento emocional e acolhimento espiritual fossem excludentes.

No entanto, a partir do momento em que o futebol começou a se conscientizar sobre a necessidade de atenção à saúde mental dos atletas, são vários os casos de jogadores que passaram a tratar ansiedade, fobias e quadros depressivos com psicólogos e colheram resultados não apenas em sua vida pessoal, como também em seu desempenho em campo. Na final da última Libertadores, por exemplo, o meia-atacante Arias, um dos principais destaques do Fluminense na temporada, agradeceu à psicóloga do clube por ter impedido que ele abandonasse a carreira após a perda da avó.

A psicologia esportiva não anula nem tem a pretensão de tolher a religiosidade dos atletas. Pelo contrário, utiliza muitas vezes a fé como um estímulo para o despertar da autoconfiança e do autoconhecimento. Endrick, inclusive, contou com acompanhamento psicológico na base do Palmeiras. Nem por isso se tornou menos religioso.

Falas como a do jovem craque somente contribuem para a estigmatização de profissionais que têm se tornado cada vez mais indispensáveis no futebol de alto rendimento. Psicólogos não podem ser menosprezados pela religião. E que os adultos responsáveis pelo aconselhamento de Endrick, seja pessoal, emocional ou espiritual, utilizem a afirmação infeliz para orientá-lo sobre a importância da psicologia para a saúde mental dos atletas.

Fonte: Breiller Pires Breiller Pires é jornalista esportivo e, além de ser colunista do Terra, é comentarista no canal ESPN Brasil. As visões do colunista não representam a visão do Terra.
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