Convocação de Antony para a seleção é um desrespeito às mulheres
Primeira bola fora de Fernando Diniz, voto de confiança a atacante do Manchester United revela insensibilidade sobre violência de gênero
Memória curta é um problema crônico no futebol, sobretudo quando envolve questões que vão além do campo-bola. Há menos de dois meses, Antony foi denunciado pela ex-namorada Gabriela Cavallin por violência doméstica. Indiferente à gravidade da situação, Fernando Diniz, novo técnico da seleção brasileira, resolveu incluir o nome do jogador em sua primeira lista de convocados.
Não significa que o atacante do Manchester United não tenha direito à ampla defesa. Ao se pronunciar sobre o caso pelas redes sociais, após prestar esclarecimentos em uma delegacia, Antony negou ter agredido Cavallin e diz ter sido alvo de uma falsa acusação.
Porém, a DJ que o denunciou apresentou à polícia prints de conversas em que o jogador a ameaçava, registrou fotos de lesões supostamente causadas pelas agressões e alegou em depoimentos ter sofrido, inclusive, ameaças de morte.
O processo aberto por Cavallin exige uma postura cuidadosa e sensível por parte do treinador da seleção. Já é questionável o Manchester United – ainda mais depois do caso Greenwood – manter o jogador treinando e jogando normalmente, como se não existisse uma denúncia, mas ao menos o clube, como empregador do atleta, se apega ao argumento jurídico de que precisaria esperar o desenrolar das investigações antes de tomar qualquer medida mais severa.
No caso da seleção, nada justifica convocar jogador denunciado por violência contra a mulher antes de um veredito da Justiça, muito menos o fato de Diniz já ter trabalhado com Antony nos tempos de São Paulo e confiar no atacante. A convocação se torna ainda mais indefensável diante da postura do treinador com Lucas Paquetá.
Horas antes da divulgação da lista, estourou a informação de que o meia do West Ham está sendo investigado na Inglaterra por suposto envolvimento em esquema de apostas. O técnico justificou que, a princípio, Paquetá estava entre os convocados, mas decidiu cortá-lo para preservar o jogador.
“O que me protege a vida inteira é a verdade. Não é uma questão de pré-julgamento, mas de preservação”, explicou Diniz. No entanto, ele entrou em contradição ao ser perguntado sobre o caso de Antony, que ele definiu como “uma coisa muito incipiente”.
Pois bem, se a investigação a Paquetá veio a público às vésperas da convocação, o que dizer da denúncia contra Antony, protocolada há quase dois meses? Ou, por acaso, violência contra a mulher seria um crime menos grave que manipulação de resultados?
Bancar Antony nessas condições, ainda que se respeite a presunção de inocência do jogador, é a primeira bola fora de Fernando Diniz como treinador da seleção. E, por tabela, um desrespeito às mulheres que frequentemente são desacreditadas ao denunciar violências machistas.
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