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Ciclismo se prepara para período de turbulência

8 mai 2009 - 09h46
(atualizado às 10h04)
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O mundo do ciclismo profissional está envolvido em uma disputa especialmente quente entre a organização que o comanda, as equipes e os fabricantes de equipamentos de alto nível, para determinar exatamente o que uma bicicleta de corrida pode oferecer sem escapar aos regulamentos.

A União Internacional do Ciclismo (UIC) alertou as equipes no começo da temporada de que pretendia esclarecer e reinterpretar suas regras muitas vezes oblíquas quanto ao projeto de bicicletas, por meio de inspeções mais freqüentes de equipamento.

O anúncio foi uma surpresa desagradável para o esporte. Certas bicicletas e acessórios podem se ver proibidos nas próximas semanas. Isso forçaria as equipes a correr a fim de encontrar novas bicicletas para seus principais atletas, e deixaria aos fabricantes um estoque de modelos que não terão mais a quem vencer.

"Quando estudei o assunto pela primeira vez, não me preocupei", disse Phil White, da Cervelo, uma fábrica de bicicletas de Toronto que mantém uma equipe profissional de corridas na Europa. "Mas agora estou preocupado. Isso pode se provar devastador".

A repressão e o debate renovados quanto ao projeto de bicicletas não são vistos de forma inteiramente negativa. Alguns ciclistas famosos afirmam que avanços recentes possibilitados por novos materiais e técnicas de produção podem estar prejudicando injustamente as equipes menores, cujo acesso aos equipamentos mais recentes é limitado.

A UIC informou as equipes inicialmente sobre seus planos em uma carta enviada em janeiro, depois que elas já haviam recebido as bicicletas com que pretendem disputar a temporada.

Um mês mais tarde, no meio do Tour da Califórnia, dirigentes da UIC informaram que as inspeções começariam imediatamente, ainda que depois tivessem recuado diante dos fortes protestos.

Agora, Pat McQuaid, presidente da organização, diz que as equipes filiadas precisam cumprir as normas quanto a equipamentos a partir de 1° de julho, antes do início da Volta da França, mas adiou a imposição de outros padrões até o ano que vem.

Exatamente por que a organização decidiu adotar as regras sem aviso prévio às equipes é uma incógnita. McQuaid afirma que a carta de advertência surgiu depois de discussões realizadas no final de 2008.

"Decidimos trazer o esporte e os fabricantes de volta à realidade", disse ele, de seu escritório na Suíça. "O esporte deve girar em torno da capacidade atlética e não da capacidade técnica", emendou.

A disputa atual envolve em larga medida bicicletas e componentes projetados para provas contra o relógio. Fatores aerodinâmicos podem afetar de maneira significativa a velocidade do ciclista e, por isso, entre as temporadas, as equipes mais ricas usam testes de túnel de vento para avaliar bicicletas e otimizar a posição dos ciclistas. O que surge desse processo são bicicletas dispendiosas e de aparência exótica.

A UIC há muito proibiu o uso de qualquer recurso que tenha por objetivo único propiciar benefícios aerodinâmicos, mas o uso crescente de resinas plásticas reforçadas por fibra de carbono, que podem ser produzidas em uma variedade de formas, criou novas questões.

Nos anos 90, os ciclistas britânicos Chris Boardman e Graeme Obree bateram o recorde de distância em provas de uma hora - a modalidade mais importante do esporte - utilizando bicicletas com projetos incomuns e posições de pilotagem excepcionalmente aerodinâmicas.

Obree quebrou o recorde duas vezes, em duas bicicletas diferentes que ele mesmo construiu (uma delas usava engrenagens de uma máquina de lavar), mas seus projetos foram posteriormente banidos pela UIC.

Em 2000, novas regras passaram a requerer que as bicicletas tivessem a tradicional forma de diamante e peso mínimo de 6,8 quilos. Mas uma delas é mais ambígua e se refere a uma "forma de fuselagem", que, segundo a UIC, é "uma extensão ou acabamento aerodinâmico de uma seção".

O que quer que isso signifique, a razão aerodinâmica dessas peças não pode exceder três para um (para fins de comparação, uma bicicleta comum, com tubos arredondados, teria razão aerodinâmica de um para um).

Até janeiro, os fabricantes entendiam que a regra se aplica apenas às seções individuais da estrutura de uma bicicleta, e por isso se esforçavam para aumentar a razão aerodinâmica sem violá-las, ou assim entendiam.

A Giant, Scott and Felt, uma fabricante norte-americana de bicicletas de velocidade que produz modelos com porções frontais alongadas em busca de melhor aerodinâmica, conecta o guidão e a estrutura da roda ao resto da bicicleta por meio de arranjos muito complexos, e diz em seu site que, embora a razão aerodinâmica assim obtida seja de seis para um, suas bicicletas ainda assim cumprem as normas da UIC.

Alguns ciclistas dizem que não querem apenas fiscalização mais rigorosa, e sim regras mais severas para as bicicletas usadas em provas de velocidade.

Marco Pinotti, atual campeão de provas de velocidade na equipe nacional de ciclismo italiana e membro do Team Columbia High Road, reconhece que o equipamento especial já o beneficiou, mas acredita igualmente que ele ofereça vantagem desleal a equipes com orçamentos que permitam testes em túnel de vento.

"As bicicletas para provas de velocidade aumentam as diferenças entre as equipes", diz Pinotti. "O melhor seria que cada ciclista usasse uma bicicleta comum, sem nada de especial", encerrou.

Tradução: Paulo Migliacci

Foto: Getty Images
The New York Times
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