Bia Figueiredo tem papel decisivo na construção do futuro das mulheres no automobilismo
Para celebrar o Dia Internacional da Mulher, o Esporte em Foco desta semana conversou com exclusividade com a maior referência feminina brasileira no automobilismo: Bia Figueiredo. A pilota tem uma grande e vitoriosa carreira nas quatro rodas, dentro e fora do Brasil. Na temporada 2026, ela disputa a Copa Truck, tradicional competição brasileira de caminhões, e é inspiração para as mulheres que sonham em trabalhar no automobilismo.
Marcio Arruda, da RFI em Paris
Bia, que já tem título nesta categoria, começou no automobilismo ainda criança. Ela contou que hoje sabe que seu papel nas pistas vai muito além de pilotar em alta velocidade.
"Quando comecei a correr com 8 anos de idade, meu sonho era correr num grande nível profissional. Eu não tinha um grande entendimento desse negócio de ser mulher. Queria ser um grande piloto", lembra.
A pilota ressalta que "no automobilismo, homens e mulheres competem juntos". Durante sua carreira, ela foi "competitiva, na maioria das vezes, desde o kart, vencendo em todas as categorias, disputando o título da Fórmula Renault e andando na frente na Fórmula 3. Nos Estados Unidos, na Indy Light, a gente disputou o título e ficamos em terceiro no campeonato. Eu fui a primeira mulher a ganhar na categoria".
A Fórmula Indy foi a competição mais sofrida "porque a gente andou em equipes pequenas. Depois, mesmo tendo andado na equipe Andretti, as coisas não encaixaram. Cheguei a andar entre os cinco primeiros em São Paulo, mas o bom resultado não aparecia. E mesmo sendo mulher, a gente precisa de bons resultados", conta Bia Figueiredo.
"Depois voltei ao Brasil e disputei a Stock Car. Aí eu fiz uma pausa na minha carreira na pandemia para ter filhos e voltei para acelerar; primeiro de TCR e depois na Copa Truck. Mas só depois de muitos anos nesse esporte é que as pessoas começaram a falar de mim como a primeira mulher que fez isso, fez aquilo… foi aí que eu percebi a dimensão do quanto isso era importante para as mulheres", completou.
"Quando eu coloco o capacete, eu não penso nisso. Entendo a importância e fico feliz de ter conquistado tudo o que conquistei como piloto e como mulher."
Projeto "Girls on Track"
Atualmente, Bia concilia o trabalho de pilota com uma atividade que não exige velocidade, mas requer talento e competência. A brasileira é a representante para a América do Sul do projeto "Girls on Track" da FIA (Federação Internacional de Automobilismo), que está sediada em Paris.
Bia também foi convidada pelo presidente da CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo), Giovanni Guerra, a presidir a comissão feminina da entidade.
"Eu me tornei membro da comissão de mulheres da FIA representando a América do Sul, comecei a colocar em prática os projetos do 'Girls on Track' aqui no Brasil e foi um sucesso. A partir daí, o Giovanni Guerra decidiu criar a comissão feminina de automobilismo. Foi quando eu chamei a publicitária Bruna Frazão e a engenheira mecânica Rachel Loh para me ajudar com os projetos. A Bruna saiu no ano passado para focar em outros objetivos. A Rachel continua comigo até hoje liderando a comissão feminina", explicou.
Bia Figueiredo disse que forma uma parceria com Fabiana Ecclestone, que é vice-presidente da seção para a América do Sul da FIA e esposa de Bernie, ex-proprietário da Fórmula 1.
"Eu tenho, junto com a Fabiana Ecclestone, tentado fazer um trabalho para que outros países da América do Sul criem comissões femininas para conquistarem seus espaços, mas sempre com o apoio das confederações nacionais", afirma.
O objetivo dos projetos "Girls on Track" da FIA e da CBA é inserir cada vez mais mulheres no automobilismo. E tem dado certo.
"Hoje existem vários movimentos legais para trazer as mulheres para o automobilismo. Muitas categorias e até mesmo a própria FIA têm um incentivo muito grande para termos essa equalização para que mais mulheres se interessem pelo esporte a motor. E aí eu vejo nas categorias de base que tem mais meninas começando, existe mais interesse, temos mais meninas para trabalhar no automobilismo, mais seguindo e acompanhando… começando pela Fórmula 1 e chegando a outras categorias. A gente precisa de muito interesse na base para que a gente possa encontrar grandes talentos no automobilismo em várias áreas. Eu até brinco que na minha época, se existisse esse incentivo, eu nem sei como teria sido a minha carreira. Hoje tem muito mais oportunidades do que tive. Eu acho que é um movimento sensacional que só ajuda o aumento de participação", opinou.
Acostumada a sempre competir contra homens, Bia Figueiredo acredita que a criação da F1 Academy, categoria que reúne um grid formado inteiramente por mulheres, sem a participação de qualquer homem, dá novos estímulos às jovens pilotas.
"O automobilismo não exige força física. É fato que existe um trabalho grande na parte de musculatura para as meninas; o mesmo não ocorre com os meninos. Sei que já corri em alto nível sendo mulher, então eu acho isso possível. Tudo depende de dedicação. Como eu sempre corri com homens, eu acho normal. Mas, por fim, não acho negativo haver uma separação, como acontece na F1 Academy. Esta categoria é hoje uma baita oportunidade para as meninas terem uma chance de competir em alto nível e fazer seus nomes e fama para dar continuidade às suas carreiras. E elas acabam virando referência para jovens meninas. Apesar de tudo isso, na minha opinião, nenhuma menina que hoje está na F1 Academy vai chegar à Fórmula 1 porque não estão preparadas para isso", afirmou.
Fórmula 1
Mas se nenhuma pilota da F1 Academy chegará à categoria máxima do automobilismo, será que alguma brasileira tem chance de brilhar nas pistas nos próximos anos e, quem sabe, um dia estar no grid da Fórmula 1?
"A Vicky Farfus, que é filha do Augusto Farfus, piloto brasileiro que continua brilhando nas pistas europeias. Ela, que é apoiada pela Iron Dames, largou em terceiro no último mundial de kart. Logo no início, jogaram ela para fora. Ela voltou para a pista, veio lá de trás e chegou em quarto lugar. Esse foi o melhor resultado de uma menina no mundial de kart. Para mim, entre as mulheres, é ela quem pode chegar à Fórmula 1", aposta Bia.
A brasileira também aposta em uma jovem tcheca, que é filha do finlandês bicampeão mundial de F1 e já integra o programa de jovens talentos da McLaren. "Também tem a Ella, que é filha do Mika Hakkinen. Ela é um supertalento que está andando bem na Europa", garantiu Bia.
Com tantos projetos que estimulam a presença e a participação feminina no automobilismo, Bia Figueiredo confia que haverá mais mulheres nos paddocks dos autódromos pelo mundo nos próximos anos.
"Com certeza a presença feminina e o interesse de mulheres no automobilismo aumentou bastante. Hoje quando entro no paddock da Fórmula 1, tem muito mais mulheres trabalhando, organizando e mexendo nos carros. Mesmo que você ainda tenha poucas mulheres no esporte a motor, já ajuda muito outras mulheres a se sentirem mais confortáveis nesse ambiente. Uma menina de 10 ou 12 anos quando entra num boxe de um autódromo e não vê uma mulher, o inconsciente dela diz que aquilo não é para ela porque ali só tem homens. Por outro lado, se ela vê mulheres, já chama atenção e ela pensa: 'olha que legal, eu posso ser uma engenheira, uma mecânica'. Isso ajuda, a longo prazo, a termos mais mulheres nesse meio e a deixar o ambiente mais aberto para elas", disse Bia.
A imagem do automobilismo ligada somente a homens já não existe mais e nem dá para ver pelo retrovisor. Lugar de mulher é onde ela determina; inclusive no automobilismo. Torcendo nas arquibancadas ou trabalhando nos boxes e nas pistas.