Auditoria revela que Bahia tem dívida de R$ 83,2 milhões
O resultado da auditoria das contas do Bahia traz informações reveladoras sobre o estado de endividamento do clube. O interventor Carlos Rátis vinha declarando que a nova gestão iria encontrar uma situação financeira complicada e a auditoria confirmou as expectativas. Mais: o clube tem uma dívida de R$ 83,2 milhões.
A auditoria realizada pela empresa Performance foi registrada no Tribunal de Justiça da Bahia e é referente às contas Bahia de 1º de janeiro de 2012 a 30 de junho de 2013, período que corresponde ao segundo mandato do ex-presidente Marcelo Guimarães Filho, destituído do cargo por uma intervenção judicial.
O documento, obtido e divulgado pelo jornal A Tarde, projeta ainda que o rombo nas contas do clube pode ser ainda maior e pode chegar a R$ 132,9 milhões. A cifra pode ser maior ou menor, já que existem valores que ainda não foram registrados contabilmente no Bahia.
Em relação às dívidas, o documento é enfático: "se (o endividamento) não for tempestivamente equacionado, aumentará atuais os problemas de liquidez (incapacidade de pagar suas obrigações que podem até vir a comprometer a continuidade operacional da Entidade".
Somente nos últimos seis meses da gestão de Guimarães Filho, segundo o documento, o Bahia contraiu R$ 20 milhões em dívidas. Além disso, algumas fontes de renda do clube já foram comprometidas, como por exemplo a antecipação de R$ 40 milhões em cotas de transmissão de jogos pela televisão, até o ano de 2018. A gestão do ex-presidente também comprometeu mais R$ 7,7 milhões destas cotas como garantia para liquidar empréstimos com os bancos BMG, BVC, Itaú e Safra.
Além das dívidas, a auditoria relata falta de transparência em pagamentos realizados pelo clube e também o não recolhimento de impostos como FGTS. Alguns cheques foram emitidos em nome do clube sem que a auditoria conseguisse identificar quais teriam sido os serviços prestados pelos beneficiários. Outros tiveram como destino a conta de empresas que tem ligação com o ex-presidente Marcelo Guimarães, pai do presidente destituído.
O relatório aponta que um desses cheques, emitido em 10 de abril de 2012, foi em nome do auxiliar de escritório Fernando Góes. Ele recebeu um cheque nominal de R$ 10 mil, emitido como adiantamento concedido por Maurício Carvalho, ex-coordenador financeiro do Bahia. No mesmo dia, o cheque foi devolvido ao próprio Carvalho, e foi usado para pagamento do empréstimo da empresa Consultiva.
A Consultiva aparece como beneficiária do repasse de parte de uma dívida de crédito do Bahia com a Protector Segurança e Vigilância, de propriedade de Marcelo Guimarães. A empresa do ex-presidente fez um empréstimo de R$ 200 mil ao Bahia, há 13 anos.
Hoje, a dívida ultrapassa os R$ 3,2 milhões, por conta dos juros anuais de 2,5%. O Bahia pagou parte dessa dívida com dois cheques. Um de R$ 1,5 milhão, emitido ao portador, e outro de R$ 200 mil, que a auditoria não conseguiu identificar quem foi o favorecido.
A auditoria revelou, ainda, que o clube pagou o imposto de renda do funcionário Sérgio Beserra, também conhecido como Kabrocha, em maio de 2012. O valor foi de R$ 3.652,29 e, segundo o documento, não foi detectada a devolução do montante.
Segundo o relatório da Performance, existe a prática de crime de apropriação indébita na gestão de Marcelo Guimarães Filho. O crime tem pena prevista de um a quatro anos de prisão, de acordo com o Código Penal, além de multa.
O resultado da audiotira aponta que R$ 23.389.907 em dívidas são “decorrentes de retenções na fonte de impostos e contribuições sociais que não foram recolhidas”. O Bahia não quitava regularmente o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) dos jogadores e, recentemente, chegou a perder atletas das divisões de base por não recolher os devidos tributos.
Durante a gestão interventora, o advogado Carlos Rátis chegou a pagar com dinheiro próprio 44 guias de jogadores das divisões de base – algumas com valores irrisórios para um clube de futebol.
Entre os profissionais, o lateral Madson, titular da equipe em várias rodadas do Brasileirão, também conseguiu se desvincular do clube, mas teve liminar revogada e continua no clube.
Reação do novo presidente
Procurado pela reportagem, o presidente Fernando Schmidt reagiu à divulgação do resultado da auditoria e se disse "estarrecido e indignado" pelas informações reveladas pelo relatório. Schmidt pretende, ainda, dar entrada em processos no Ministério Público Federal e Estadual para investigar a situação o mais rápido possível.
"Amanhã vou enviar o documento ao MPE e ao MPF para que eles examinem as questões que lá estão, como a possível apropriação indébita e gestão temerária ou fraudulenta. As questões sobre esses cheques sem explicação precisam ser respondidas. Vou até as últimas consequências", declarou o presidente eleito.
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