Senninha se eterniza e revela a criador o Ayrton que sabia perder
Senninha tinha menos de um ano de idade à época do Grande Prêmio do Brasil de 1994, o primeiro daquela temporada da Fórmula 1. O personagem de história em quadrinhos idealizado pelo desenhista Ridaut Dias Júnior e pelo publicitário Rogério Martins, no entanto, já havia ganhado o seu espaço no esporte. Estava estampado na camiseta que a inspiração Ayrton Senna vestia sob o seu macacão e até em um trabalhoso bandeirão aberto nas arquibancadas de Interlagos.
Preocupado porque as emissoras de televisão já não queriam dar publicidade gratuita ao Senninha, produto no qual investira US$ 2 milhões do próprio bolso, Ayrton Senna havia encontrado uma maneira de expor mundialmente o seu personagem. O desenhista Ridaut foi até a casa do ídolo para pintar um bandeirão com a ilustração da sua criação, que inevitavelmente seria focalizado pelas câmeras em caso de uma vitória do brasileiro da Williams. "Você ganha a corrida, vai para a frente do bandeirão, sai do carro e faz alguma brincadeira. Será bacana", previu Ridaut. "Deixa comigo", respondeu Ayrton.
Senna fez a pole-position daquele GP do Brasil, porém não conseguiu completar a corrida. O vencedor foi o então novato alemão Michael Schumacher. Resignado, Ridaut precisou recolher a sua bandeira enorme, debaixo de chuva, e dobrá-la na garagem do tricampeão mundial. "Muito trabalho aí?", perguntou Ayrton, quando o encontrou. O artista não perdoou: "É... Um amigo meu combinou um negócio comigo, mas não cumpriu muito bem. Deu uma de Braço Duro (vilão das histórias do Senninha)". O piloto, em tom sério, deixou o seu famoso orgulho de lado: "O pior é que esse seu amigo não pode colocar a culpa em ninguém. A culpa foi dele mesmo".Para Ridaut Dias Júnior, o diálogo havia lhe revelado um Ayrton Senna mais humano, que sabia perder. No estúdio em que as revistas do Senninha eram produzidas, o piloto já havia desmitificado a imagem de um ídolo inalcançável, porém ainda se mostrava altamente competitivo, como nas pistas. Corintiano, gostava de provocar o publicitário Rogério Martins, torcedor do São Paulo, a cada derrota do seu rival no futebol. Dizia que apoiava um clube do povo, e não um elitista. "Ainda não existia essa coisa de Bambi. A brincadeira era outra", recorda o também alvinegro Ridaut, mais um a enfrentar a aversão do patrão a derrotas. "Uma vez, disse para ele: em relação a aniversário, você não ganha de mim. Nasci em dezembro de 1959. Você, em março de 1960." Ayrton não se deu por vencido: "Eu sempre te alcanço".
"Mas, depois daquele Grande Prêmio do Brasil, eu percebi que o Ayrton Senna também sabia perder. Ele me ensinou: ‘É bom você ver que não ganho sempre. Perder faz parte do negócio’", comenta Ridaut, pensativo, durante visita à redação da Gazeta Esportiva por ocasião do 20º aniversário de morte de Senna e do 20º aniversário de vida do Senninha. "Outra coisa que ele sempre nos dizia: ‘O pessoal fala do Senna corredor, do homem de negócios, da minha imagem. Mas quem passa a cinco centímetros do muro sou eu’. Ou seja, ele era competitivo, mas sabia os riscos que estava correndo", acrescenta.
Ridaut Dias Júnior demorou a ganhar a oportunidade de ouvir os conselhos de Ayrton Senna. Com a experiência de ter trabalhado nas histórias da Turma da Mônica na Mauricio de Sousa Produções, o desenhista havia se unido ao publicitário Rogério Martins no início da década de 1990 com o sonho de criar um personagem próprio e com apelo comercial. Segundo ele, ninguém melhor do que Senna para ser retratado. Sem consultar a sua inspiração, fez os primeiros traços do Senninha e mostrou para a exigente esposa Adny, roteirista, que prontamente aprovou.O mais difícil estava por vir - apresentar o Senninha a Senna. O primeiro passo de Ridaut e Rogério Martins foi mostrar o projeto embrionário a Milton da Silva, pai de Ayrton, em 1991. A dupla havia ensaiado bastante o discurso sobre o conteúdo do personagem que criaram. A ideia era exibir os desenhos só ao final da explanação. A curiosidade de Milton, contudo, falou mais alto. Ao ver as ilustrações diante de si, ele recolheu tudo da mesa e saiu da sala em silêncio, deixando os artistas sem reação. Pouco depois, retornou acompanhado de um diretor da empresa que agenciava a imagem de Ayrton e soltou o comentário: "Isso não é bacana? Você não gostou?".
A aprovação de Milton não serviu para o Senninha chegar às páginas dos gibis com a mesma velocidade com que Ayrton Senna guiava a McLaren para conquistar o seu terceiro título da Fórmula 1 em 1991. A agência de publicidade do piloto engavetou a criação de Ridaut e Rogério durante dois anos. Quando o desenhista telefonava em busca de respostas, ouvia: "O Ayrton está viajando". Ele apelou até para um conhecido, que dizia ser vizinho da secretária do piloto. O sujeito levou os desenhos para a mulher, que prometeu: "Então, está bem. Deixe aqui comigo, que eu vou mostrar para uma pessoa". Tratava-se da mesma pessoa que não levara o projeto adiante.
Quis o destino, porém, que Ayrton Senna notasse os desenhos que estavam sobre a mesa da secretária enquanto caminhava pelo escritório. Conforme o piloto contou ao jornal A Gazeta Esportiva em janeiro de 1994, fora paixão à primeira vista: "Quando vi o esboço do que seria o Senninha na mesa da minha secretária, tocou o meu coração. Desde então, decidi assumir o risco e colocar o projeto em andamento". O pai Milton se surpreendeu: "Pô, achei que você já estivesse tocando esse projeto. Faz tempo que os meninos vieram falar comigo sobre ele. Dei uma pequena continuidade e tal".
Ayrton Senna deu uma grande continuidade ao Senninha. O ídolo pretendia aplicar mais US$ 4 milhões no personagem até 1995, com a intenção de atingir no mercado internacional um público potencial de 2,2 bilhões de garotos com menos de 16 anos. A editora Abril Jovem tinha a meta de vender 6 milhões de revistas (mais de 15% do mercado nacional) até o final de 1994. Para tanto, tudo foi feito com a meticulosidade de Senna. Os primeiros exemplares do gibi, que era quinzenal, foram distribuídos gratuitamente nas principais escolas do Brasil e nas agências do Banco Nacional, além de ser anexados em embalagens de salgadinhos industriais. Em nome da popularização, Ayrton também passou a usar com frequência camisetas com a imagem do personagem - uma delas, aquela que o piloto vestiu no dia do lançamento, está guardada até hoje no armário de Ridaut Dias Júnior.
O desenhista não queria tornar apenas a sua criação íntima de Senna. "Pensei em virar amigo do Ayrton. Eu não perderia a chance de ter um contato mais humano com ele. Sem abusar, é claro", recorda. O gesto inicial de Ridaut foi enviar, ainda antes do acerto final do seu projeto, uma ilustração do personagem em homenagem ao penúltimo aniversário em vida do piloto. Dias depois, eles se encontraram pela primeira vez. Superada uma espera de duas horas no escritório de Ayrton, regada a goladas de café, a secretária o chamou: "Vem, vamos entrar". Ela o pegou pelo braço, abriu uma porta diferente daquela a que ele estava acostumado a entrar, percorreu um corredor, subiu uma escada, abriu mais uma porta, e... Lá estava Ayrton Senna, em pé, atrás do quadro que havia ganhado de presente do artista. "Tivemos uma conversa boba, do tipo ‘olá, tudo bem?’. Você não sabe nem o que falar direito nessas horas", sorri.
Ayrton sabia o que falar. Foi ideia dele batizar dois dos vilões do gibi como Braço Duro e Bate Pino. E por que não um nome mais próximo de Alain Prost, o inimigo da vida real? "Na minha cabeça, o Ayrton não via o Prost como um vilão. Ele era um adversário, um oponente, mas não alguém do mal", explica Ridaut. Outros personagens de Senninha, Gigi e Téo, faziam referência aos irmãos do piloto, Viviane e Leonardo. Gabi, a artista da turma, era uma alusão à filha do desenhista.Com o projeto em andamento, foi Ayrton Senna quem tomou a iniciativa de se aproximar dos artistas que contratara. No final de 1993, como possuía um contrato com a McLaren renegociado a cada corrida, o piloto fazia questão de sempre retornar ao Brasil após os Grandes Prêmios - também para pressionar o chefe Ron Dennis. Por volta de 17 horas de um dia desses, Ridaut viu um vulto no décimo andar do prédio onde trabalhava - a sala de Ayrton ficava no 13º. Era o próprio. "Pô, e aí? Tudo bem? Gosto muito de vir aqui. É um negócio, sim, e eu levo a sério, mas não tem aquela pressão da Fórmula 1. O ambiente é outro. Vocês criam... Então, não se preocupem comigo. A gente vai trocando uma ideia. Se eu não atrapalhar...", disse o tricampeão.
Ayrton não atrapalhava. Ao contrário. Ele começou a contar histórias de sua infância para ser utilizadas no gibi, como a da semana em que fora mordido duas vezes por um mesmo cachorro. Ridaut também se abria com o ídolo desmitificado. O piloto tinha liberdade até para brincar com a esposa do desenhista, Adny. Certa vez, ela telefonou para o estúdio de criação do Senninha, preocupada porque o marido trabalhava até tarde. Senna atendeu, mas não se identificou: "Oi, tudo bem? Vou ver se ele está". Após alguns segundos, continuou: "Olha, acho que ele não pode falar". Ao voltar para casa, Ridaut teve que acalmar a mulher e explicar que se tratava de uma brincadeira do ídolo. Sem saber, ela se exaltara: "Quem é essa pessoa que atende o telefone aí? Que acha que você não pode falar comigo?".
Em uma das conversas um pouco menos descontraídas mantidas com Ridaut, Ayrton alertou que não poderia abastecer eternamente os quadrinhos com histórias de sua infância. Naquele instante, o desenhista profetizou: "O Senninha não vai acabar por causa disso. Ele é um menino, um fã seu, e continuará assim. Você precisa pensar nele como algo que vai além da sua carreira. Quando você se aposentar e estiver fazendo qualquer outra coisa, o Senninha continuará aí, correndo. Ele vai sobreviver a você".
Ridaut não imaginava que o seu discurso se comprovaria verdadeiro tão cedo. Em 1º de maio de 1994, menos de seis meses depois do lançamento dos gibis, ele assistiu pela televisão de casa ao acidente que matou Ayrton Senna da Silva no Grande Prêmio de San Marino, em Ímola, onde o ídolo também vestia uma camiseta do Senninha por baixo do macacão. O artista chorou algumas vezes. No mesmo dia, todavia, teve que conter a emoção para se dirigir ao escritório do piloto e trabalhar na logística de seu velório. O que não o impediu de guardar para sempre algumas imagens na memória - como a da fila que se manteve quilométrica por horas, para o público se aproximar do caixão na Assembleia Legislativa de São Paulo, e a de um sujeito que conseguiu chegar ali com uma pomba e a soltou lá dentro. Mais tarde, deu carona para a modelo Adriane Galisteu, então namorada de Senna.Ridaut e o sócio Rogério Martins aguardaram alguns dias para decidir se o Senninha morreria com Senna. Era necessário respeitar o luto pela perda do tricampeão. Criado na Igreja Metodista e tendo iniciado um curso de Teologia, o desenhista aproveitou o tempo para também refletir sobre o que acontecera. Só não se deixava influenciar tanto pela espiritualidade aflorada de Ayrton. "Até achava isso bacana, mas não concordava com tudo o que ele falava. Essa questão de ver Deus, não sei... Não condiz com o que imagino. Mas, ao mesmo tempo, ele tinha tanta convicção naquilo. Era uma coisa que o expunha, que poderia fazer um pouco mal à imagem dele. Nunca entrei nesse mérito com ele, porque não vinha ao caso", diz.
Passados alguns dias, Ridaut, os demais integrantes da equipe de artistas e a família de Senna decidiram que o Senninha e a sua turma sobreviveriam. Houve apenas algumas mudanças - o personagem trocaria o macacão azul da Williams por um vermelho, em referência à McLaren, pela qual Ayrton conquistou as suas maiores glórias. Vinte anos mais tarde, o Senninha permanece vivo nas mais variadas ações do Instituto Ayrton Senna, que ensina crianças não somente a saber perder, e até mesmo em faixas e bandeiras de torcidas do Corinthians. "O Senninha virou a imagem do Ayrton", define Ridaut, orgulhoso, que agora só desenha a sua criação em palestras, para fãs e por hobby.
Ao final de sua visita à Gazeta Esportiva, Ridaut Dias Júnior gentilmente esboça mais uma vez os traços do Senninha. Desenha a sua criação acenando para uma estrela, que brilha no céu escuro. Em sua fala, o personagem mostra que não é o único eterno naquela história: "Você estará sempre em nossos corações!".
| Desenhista explica processo contra o Instituto Ayrton Senna |
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Ridaut Dias Júnior parou de trabalhar com o Senninha em 1997 e pediu uma revisão contratual na Justiça. Saiba o motivo, nas palavras do mentor do personagem: "Quando iniciamos o projeto, o Ayrton nos disse: ‘Estamos trabalhando em cima de uma coisa incerta. Vou investir nisso porque quero, e preciso que vocês invistam também’. A gente investiu o nosso tempo, o nosso trabalho. Ele tinha o dinheiro. Colocou US$ 2 milhões logo de cara e nos prometeu um acerto a posteriori. Se ele morresse, morreu. Se não desse certo, não deu. Eu teria perdido tempo. Ele, dinheiro. Mas, ao mesmo tempo, ele precisava ter o controle legal sobre os contratos. Então, a gente passou todos os direitos patrimoniais para o Ayrton. Só que ele morreu antes que pudéssemos mudar alguma coisa. Fui à Justiça para contestar esse contrato, para a gente refazer. Não era nada de mais, algo que eu tenha sido lesado. Não é esse o problema. A Justiça decidiu manter o contrato que assinamos, e eu não contestei. O lucro do Senninha é doado ao Instituto Ayrton Senna. A família dele não ganha nada. Eu também não. Aí, você vai me perguntar: ‘Pô, mas você não gostaria de ter recebido mais?’. É lógico que sim. Quanto mais dinheiro a gente ganha com o nosso trabalho, melhor. Mas ganhei aquilo que eu mais queria: ter o meu nome ao lado do dele, do Ayrton Senna. Ninguém tira isso de mim". |
*Colaborou André Sender