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Fórmula E: categoria precisa avançar além da velocidade na era Gen4

Nova geração coloca à prova a preparação das equipes, o acesso das mulheres ao grid e a responsabilidade com a segurança de quem faz o campe

2 nov 2026 - 17h22
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Foto: Divulgação / Fórmula E

Não é novidade para ninguém que a Fórmula E prepara uma nova geração de carros, mas potência e velocidade não são suficientes para medir seu avanço. A Gen4 também será um teste para a capacidade da categoria de organizar sua expansão, oferecer condições competitivas às equipes e transformar o discurso de inclusão em oportunidades. A tecnologia pode mudar de uma temporada para outra. As estruturas que determinam quem consegue competir costumam resistir muito mais.

Os anúncios de Nissan e Andretti ajudam a enxergar essa discussão. Em 29 de outubro, a fabricante japonesa confirmou extensões dos contratos de Sam Bird como piloto de reserva e desenvolvimento e Abbi Pulling como piloto de simulador e estreante. A equipe americana, por sua vez, contratou Callum Voisin para apoiar a preparação de Jake Dennis e Felipe Drugovich. As movimentações reforçam o trabalho que acontece antes de os titulares entrarem no carro.

Há lógica esportiva nessas decisões. Uma mudança tecnológica exige referências, experimentação e profissionais capazes de transformar informações em ajustes. Na Nissan, Bird relatou justamente o esforço para adaptar o simulador às características da Gen4. Preservar pessoas que conhecem a estrutura pode ajudar a reduzir as incertezas dessa transição. 

Mas os anúncios também merecem ser lidos pelo que deixam sem resposta. Bird continua sendo considerado valioso para desenvolver o equipamento, enquanto seu retorno ao grid permanece sem perspectiva anunciada. A experiência de um vencedor de corridas serve para preparar o carro, mas não lhe assegura um lugar fixo para disputá-las. Isso não significa que a Nissan lhe deva uma vaga, tampouco permite concluir que sua ausência decorra de idade ou desempenho, embora esses fatos possam contar muito e acabem impedindo que o veterano retorne aos palcos principais, mesmo que isso aconteça por debaixo dos panos. Nesse contexto, o elogio à sua contribuição não responde à pergunta mais interessante: quais condições permitiriam que ele voltasse a ser titular?

Inclusão precisa chegar à disputa por vagas

Com Pulling, a cobrança é diferente e vai além de uma decisão individual de carreira. \campeã da F1 Academy, sua continuidade tem valor, trabalhar regularmente com uma fabricante permite acumular conhecimento e participar do desenvolvimento. Ainda assim, a renovação mantém a piloto em uma função de apoio. O comunicado prevê oportunidades de testes, mas não apresenta um caminho definido para uma vaga titular. 

É nesse ponto que a celebração precisa dar espaço ao questionamento. A presença feminina nos bastidores não pode ser usada como medida suficiente de inclusão quando o objetivo de uma piloto é competir. Trabalhar no simulador é uma função esportiva relevante, mas sua importância não deve servir de justificativa para deixar a discussão sobre acesso ao grid sempre para depois.

Não se trata de exigir uma promoção automática para Pulling. Trata-se de cobrar critérios, continuidade e condições para que ela possa disputar essa oportunidade. Quantos testes terá? Como seu desempenho será avaliado? Que experiência ainda precisa acumular e como a equipe pretende ajudá-la a conseguir isso? Sem respostas, o público recebe a notícia da permanência, mas continua sem saber até onde aquela porta está realmente aberta.

O anúncio de Voisin oferece um contraponto útil. A Andretti apresenta a função como uma etapa de desenvolvimento de sua relação com o piloto, com responsabilidades no simulador e na preparação das provas. Também não há promessa de um cockpit. A questão, portanto, é acompanhar se essas funções produzem possibilidades reais de progressão, e se mulheres recebem condições equivalentes para percorrer esse caminho. 

Expandir o grid exige sustentar a expansão

A mesma distância entre anúncio e execução aparece na preparação material da Gen4. Em reportagem publicada em 28 de outubro, o e-Formula.news reproduziu declarações de Roger Griffiths, presidente da associação de equipes e fabricantes, sobre a pressão provocada pela chegada tardia da Fusion. Segundo ele, fornecedores haviam planejado a produção para 11 equipes. Griffiths também ressaltou que a dificuldade não era um impedimento incontornável. 

Um grid maior pode ser uma boa notícia, mas o número de inscritos não encerra a avaliação. É preciso garantir que a expansão seja acompanhada por capacidade de fornecimento e preparação. Caso a falta de componentes comprometa testes, o prejuízo poderá aparecer antes mesmo da primeira largada, na quantidade de informações que cada equipe consegue reunir.

Não há confirmação de que a Fusion ficará fora dos testes. O alerta, porém, já justifica cobrar planejamento. Uma categoria não deveria medir o sucesso de sua expansão apenas pela ocupação das vagas, mas pelas condições oferecidas para que os novos participantes consigam disputar o campeonato.

Por isso, Jarama merece ser observado para além da tabela de tempos. Quilometragem, falhas, disponibilidade de peças e execução dos programas ajudarão a revelar quem chega preparado e quem ainda tenta colocar sua operação em funcionamento. Uma volta rápida pode render a manchete; a capacidade de repetir o trabalho é que sustentará a temporada.

A segurança de quem compete precisa vir primeiro

A responsabilidade com quem faz o campeonato acontecer também precisa orientar a definição da abertura da temporada. Segundo informações publicadas pelo e-Formula.news, a estreia da Gen4 poderá passar de Jeddah para a Cidade do México, hipótese ainda sem confirmação oficial diante das preocupações com a segurança na região. 

A discussão ganha relevância com o que acontece na MotoGP: a Yamaha anunciou que não disputará o GP do Catar por manter suas restrições de viagem, enquanto a organização citou implicações contratuais e possíveis consequências esportivas, sem anunciar uma punição específica. Os episódios não permitem equiparar as condições de segurança dos dois países, mas colocam em evidência uma questão comum: quem assume o risco quando os compromissos comerciais pressionam pela realização de uma corrida? Cobrar garantias de proteção não deveria colocar pilotos e trabalhadores sob ameaça de punição. 

Se a Fórmula E precisar adiar sua estreia para preservar essas pessoas, terá mais a demonstrar com essa decisão do que com qualquer discurso sobre o futuro do esporte.

No mais, a Gen4 oferece à Fórmula E uma oportunidade de crescimento. Aproveitá-la exige cobrar da organização e das equipes o mesmo rigor que se espera da engenharia. Se a categoria quer ser reconhecida pelo futuro que representa, precisa mostrar como esse futuro será construído, quem terá condições de participar dele e quais oportunidades chegarão, de fato, ao grid.

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