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Alegação de manipulação de resultados de corrida abala F1

17 set 2009 - 11h30
(atualizado às 11h33)
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John F. Burns

Por favor, digam que não é verdade.

Ao longo dos últimos 30 dias, a Fórmula 1 vem sofrendo o trauma gerado por acusações de um piloto de resultados medianos no sentido de que o Grande Prêmio de Cingapura, em setembro do ano passado, teve seu resultado manipulado por meio de um acidente pré-arranjado pela equipe Renault, que com isso levou seu principal piloto de uma posição intermediária na prova a uma vitória inesperada.

Muita gente no mundo do esporte teme que, caso a acusação venha a ser provada, viria a representar, para a Fórmula 1, o equivalente ao escândalo que a manipulação de resultados por jogadores subornados causou no beisebol profissional dos Estados Unidos em 1919: uma crise que apequenaria todos os passados problemas do esporte e abalaria suas finanças já precárias, ameaçando bilhões de dólares em investimentos por algumas das maiores montadoras de automóveis e patrocinadores empresariais do planeta.

Os temores parecem ter sido confirmados na quarta-feira, quando a equipe Renault, sediada no Reino Unido, anunciou que não contestaria a acusação de manipulação de resultados quando a organização que dirige a Fórmula 1, a Federação Internacional de Automobilismo (FIA), constituir um tribunal em Paris para considerar as acusações, na segunda-feira.

"A equipe Renault de Fórmula 1 não vai contestar as recentes acusações feitas pela FIA com relação ao Grande Prêmio de Cingapura em 2008", anunciou a equipe em comunicado.

O comunicado afirmava também que os dois homens que supostamente armaram a colisão forjada, ambos veteranos de passados campeonatos, haviam sido demitidos da equipe: Flavio Briatore, 58, da Itália, era o diretor geral da organização, e Pat Symonds, 55, da Inglaterra, era seu diretor de engenharia. Em Paris, a FIA anunciou que levaria adiante a formação do tribunal, ainda assim. As possíveis penalidades incluem expulsar a Renault do esporte.

Representantes da equipe Renault não atenderam a telefonemas sobre a questão.

Os desdobramentos do dia representam a maior crise na história de uma competição que sempre se caracterizou como o pináculo do esporte motorizado internacional, e como ponto de demonstração para as tecnologias inovadoras, de estilo aerospacial, que os conhecedores da Fórmula 1 consideram como uma de suas vantagens diante das fórmulas de engenharia mais severas e das limitações de custos mais rígidas da Nascar e da Fórmula Indy, as categorias que dominam o automobilismo dos Estados Unidos. A Fórmula 1 atrai audiências televisivas mundiais da ordem de centenas de milhões de espectadores.

Nunca haviam surgido alegações de manipulação de resultados de corrida naquilo que veio a ser conhecido como Fórmula 1, ao menos desde o GP de Trípoli, em 1933. Aquela corrida causou séria controvérsia como resultado de acusações, nunca provadas, de que um piloto italiano, Achille Varzi, havia sido escolhido como vencedor pelos pilotos, que dividiram o prêmio de uma loteria baseada no resultado da prova.

Mas a estabilidade da Fórmula 1 já estava seriamente abalada antes que o escândalo de manipulação de resultados de corrida surgisse, por ocorrências como a multa de US$ 100 milhões imposta à equipe McLaren-Mercedes, dois anos atrás, depois que foi descoberto que ela havia obtido documentos técnicos secretos roubados à rival italiana Ferrari.

Briatore havia anunciado na semana passada que estava abrindo um processo judicial na França no qual afirmava que as acusações quanto ao acidente eram parte de uma tentativa do piloto brasileiro Nelsinho Piquet, 24 anos, e de seu pai, Nélson, para "chantagear" a equipe Renault de forma a que mantivesse o jovem Piquet como um de seus dois pilotos na categoria.

O jovem Piquet foi despedido na metade das 17 provas desta temporada, que tem corridas na Europa, Ásia, Oriente Médio e América do Sul. A corrida de Cingapura, no ano passado, aconteceu perto do final de sua primeira temporada na Fórmula 1, em um momento no qual Piquet estava sob forte pressão da equipe devido a uma série de resultados medíocres que incluíam colisões e aparente incapacidade de acompanhar a velocidade de seu companheiro de Renault, o espanhol Fernando Alonso, duas vezes campeão mundial de Fórmula 1 em uma passagem anterior pela equipe.

Pouco depois da última corrida do jovem Piquet pela Renault, este ano, o piloto e seu pai procuraram a FIA para fazer suas acusações, detalhes das quais vazaram nos últimos dias para repórteres que cobrem a categoria, acompanhadas por transcrições das entrevistas da FIA com pessoas supostamente envolvidas. Os dois brasileiros afirmaram que o jovem Piquet havia sido instruído em uma reunião com Briatore e Symonds, em Cingapura, sobre o desejo da equipe de que ele provocasse uma colisão em um trecho estreito da pista, pouco depois de uma parada para reabastecimento que Alonso realizou incomumente cedo na prova. O plano, de acordo com os Piquet, era que os destroços deixados pela batida provocasse a entrada do safety car, o que retardaria os demais pilotos e permitiria que Alonso assumisse a liderança depois que os concorrentes que estavam à frente no início da prova realizassem suas paradas de reabastecimento.

Como viram milhões de telespectadores em todo o mundo, Piquet colidiu na 14ª volta da prova noturna, depois que Alonso concluiu seu reabastecimento na 12ª volta, e o acidente provocou a entrada do safety car. Alonso conseguiu garantir a vitória, que repetiu três semanas mais tarde no Grande Prêmio da China, sobre o qual não existem quaisquer sugestões de manipulação de resultados. Não existe qualquer indício, nos documentos da FIA que chegaram à imprensa, de que Alonso tenha sido informado dos planos de colisão deliberada, e ele se recusou a comentar antes que o tribunal de Paris seja constituído.

De acordo com os documentos que vazaram da FIA, o jovem Piquet declarou que estava em "estado mental muito frágil e muito emotivo", quando solicitado a colidir, porque Briatore se havia recusado a confirmar a renovação de seu contrato em 2009. Symonds era citado no documento como tendo alegado que foi o jovem Piquet que mencionou a possibilidade de uma colisão deliberada. Em outro ponto de seu depoimento, ele supostamente teria dito aos investigadores da FIA que "não tenho intenção de mentir a vocês. Não menti a vocês, mas reservei um pouco a minha posição sobre o assunto".

Para a Fórmula 1, o impacto potencial vai além do risco de que a Renault possa ser excluída da categoria, ou que a montadora decida abandonar o automobilismo. O tribunal de Paris terá a missão de julgar a acusação de que os dirigentes da equipe Renault de Fórmula 1 organizaram a colisão a fim de convencer o comando da montadora, sediada em Paris, a não abandonar a Fórmula 1, já que a empresa estava em busca de formas de reduzir custos em meio à crise econômica mundial.

Caso a Renault abandone a Fórmula 1, ela seria a terceira grande montadora de automóveis a deixar a categoria nos últimos nove meses, depois da Honda e BMW. Já que só restariam as equipes controladas pela Mercedes-Benz, Toyota e Fiat (dona da Ferrari) entre as que dispõem dos recursos das grandes montadoras de automóveis, a Fórmula 1 se veria forçada a recuar a uma era em que os grids de largada eram formados principalmente por pequenas equipes independentes, sem os recursos financeiros para desenvolver os motores de alta tecnologia e a aerodinâmica avançada que servem de base ao esporte em sua versão atual.

Tradução: Paulo Migliacci ME

Flávio Briatore é uma das figuras mais conhecidas da Fórmula 1
Flávio Briatore é uma das figuras mais conhecidas da Fórmula 1
Foto: AP
The New York Times
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