Irmãos Boateng superam diferenças e se enfrentam sem mágoa
Um é zagueiro, usa óculos, é conhecido pelo profissionalismo na carreira, não bebe álcool e quase nunca aparece fora do campo. O outro, um meia ofensivo que pode jogar no ataque, tem o corpo coberto de tatuagens, já sofreu com problemas de indisciplina, foi flagrado fumando e bebendo após uma partida e é uma das principais vozes contra o racismo no futebol. O primeiro joga pela Alemanha, o segundo por Gana. Mas ambos têm o mesmo sangue: Jérôme e Kevin-Prince Boateng são irmãos por parte de pai, e se enfrentam às 16h deste sábado, em Fortaleza, pela Copa do Mundo de 2014.
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Não será a primeira vez que os dois meio-irmãos, tão diferentes entre si, vão se encarar na principal competição do futebol mundial: em 2010, a Alemanha superou Gana por 1 a 0, também na fase de grupos, com ambos em campo. A novidade é que, desta vez, Jérôme e Kevin-Prince se tratam como amigos. Naquela ocasião, os dois não se falavam – não apenas pelo "pacto" de romper contato antes de uma partida, que existe até hoje, mas por uma falta que tirou o capitão alemão Michael Ballack da Copa do Mundo.
Foi em maio de 2010, quando o Chelsea venceu o Portsmouth por 1 a 0 na final da Copa da Inglaterra. Kevin-Prince, então meio-campista do pequeno time britânico, deu uma entrada violenta que lesionou os ligamentos do tornozelo de Ballack, à época na equipe londrina. Foi o suficiente para que o ganês virasse o inimigo número 1 da Alemanha. E quando seu próprio irmão Jérôme o criticou, dizendo que ele deveria ter sido expulso, a relação entre os dois se partiu.
Temperamental, Kevin foi quem decidiu se afastar. Ele disse a Jérôme que cada um deveria seguir o próprio caminho; em resposta, o zagueiro deu declarações de que "não se importava mais" com o que acontecia com o meio-campista. A boa relação foi retomada apenas recentemente, quando ambos, mais maduros, superaram o "caso Ballack" e voltaram a se falar. Até passam férias juntos ocasionalmente – mas antes de um jogo em que vão se enfrentar, o contato volta a ser rompido.
Os dois são filhos do mesmo pai ganês, mas de mães alemãs diferentes. Nasceram em Berlim, mas cresceram em ambientes bem distintos: Jérôme, no pacato bairro de classe média Charlottenburg; Kevin-Prince, no subúrbio de Wedding, uma das regiões mais pobres da capital alemã. Os caminhos e personalidades opostos os acompanharam durante toda a vida, e influenciaram diretamente a qual seleção nacional viriam servir quando adultos.
Jérôme nunca foi um homem de polêmicas: jogou pelas categorias de base da Alemanha desde o Sub-17, e segue com a seleção principal até hoje. Mas com Kevin não é tão simples. Ele também jogou pelo time alemão nas categorias inferiores, mas quando foi cortado da Euro Sub-21 em 2009 por indisciplina e atrasos, se revoltou. Anunciou que estava à disposição de Gana para a Copa de 2010 e foi convocado de última hora. Aos 23 anos, fez história, sendo determinante na campanha que levou o país às quartas de final na Copa da África do Sul.
Naquela ocasião, Jérôme, com 21, também surpreendeu. Foi titular na lateral esquerda da Alemanha que massacrou Inglaterra e Argentina antes de parar na eventual campeã Espanha nas semifinais. Agora, os dois são jogadores experientes e conhecidos no futebol mundial – o zagueiro é titular do Bayern, o meio-campista foi campeão italiano pelo Milan e hoje defende o Schalke 04. Chegou a hora de um novo encontro no principal palco do esporte, mas desta vez, sem ressentimento de nenhum dos lados.
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