'Não pude fazer meus filhos doutores, mas fiz deles profissionais honestos', diz artesã que começou vendendo cavalinhos de barro na feira aos 8 anos
Conheça a história de Griceu Gonçalves da Silva, que transformou sua paixão em sustento em Caruaru, no Agreste de Pernambuco
Griceu Gonçalves da Silva, artesã de Caruaru, transforma barro em arte que celebra a cultura nordestina e a superação pessoal, destacando o papel das mulheres e sua trajetória de vida.
Conhecida como a capital do Agreste, a cidade de Caruaru, em Pernambuco, tem o artesanato mais famoso do País. Por meio do barro, os centenas de artesãos da cidade se inspiram na arte de grandes mestres oriundos da região, como Vitalino (1909-1963) e Galdino (1929-1996), para representar a cultura nordestina e os acontecimentos de suas próprias vidas. Entre eles, está a caruaruense Griceu Gonçalves da Silva, conhecida como Dona Griceu.
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Assim como vários outros do município, Griceu aprendeu a modelar com os pais, que também eram artesãos e feirantes, quando tinha apenas sete anos. Segundo ela, a mãe foi uma das primeiras feirantes da feira de Caruaru, o que até rendeu homenagens por parte da administração da cidade. Com oito, já vendia cavalinhos de barro e coletava o dinheiro para ajudar com o sustento da família. Aos poucos, foi desenvolvendo o próprio estilo.
Em seu ateliê, que fica localizado em uma ruelinha da Avenida Mestre Vitalino, no Alto do Moura, é possível encontrar as várias peças de sua autoria. Todas inspiradas na cultura local, africana, cuja história ela tem paixão, ou em sua própria trajetória. Um exemplo é a “Mãe de Leite”.
Quando a visitamos durante o São João do município, que é considerado um dos maiores do Brasil, Dona Griceu estava sentada nos fundos da loja, trabalhando na peça. De acordo com ela, a negra sentada no topo da estrutura dando de mamar para um bebê existiu de verdade.
“Eu era muito nova quando tive a minha primeira filha. Aí, eu não tinha leite. Eu ia fazer 13 anos. [Então] uma menina chamada Indaiá quem amamentou a minha filha. Ela passou 3 dias, depois foi embora. Eu sempre tive em mente fazer uma peça em homenagem a ela. Uns 10 anos depois [do ocorrido], criei a peça: a Mãe de Leite, a Indaiá. Ela nem sabe que ela é homenageada. Nunca mais encontrei”, relembra dona Griceu.
Na peça, ao lado de Indaiá, estão outras duas crianças, os filhos dela. “Ela teve gêmeos”, conta. “Eu faço as peças sempre inspiradas em algo importante”. No mesmo estilo, criou o fotógrafo, inspirado na imagem de um fotógrafo africano ao redor de crianças. Além deles, também tem namoradeiras, retirantes, músicos e, claro, Nossa Senhora.
“Pra mim, é um grande orgulho [ser artesã]. Eu coloco um pedaço de barro tão simples e faço uma peça… Tem hora que eu fico assim: ‘Meu Deus do céu, foi eu que fiz?’”, diz emocionada.
Griceu ressalta que o amor pela arte foi o que lhe deu propósito e sustento para seguir uma vida que começou cedo demais. “Eu inventei de me casar muito cedo. Ai tive muitos filhos. Tive sete filhos, quatro prematuros [e não sobreviveram]. Era uma vida muito sofrida, porque foi uma história terrível. Mas graças a Deus, nunca trabalhei para ninguém. Sempre do meu trabalho, criei meus três filhos”, conta.
De acordo com ela, seguindo a tradição nordestina, passou seus conhecimentos para os filhos, mas poucos seguiram a arte.
“Eu tive de criar meus filhos. Criar e ensinar, passar para os meus filhos o que minha mãe me passou: Nunca peça nada a ninguém. Não pode. Aí fui manter a minha família. Trabalhei! Não pude dar uma faculdade aos meus filhos. Infelizmente, eu não pude fazer deles um doutor, um advogado, mas fiz deles um profissional honesto, graças a Deus. Decente, honrador e respeitador acima de tudo”, destaca.
O filho mais velho se tornou caminhoneiro, mesmo sabendo como trabalhar com o barro, já as outras duas filhas --uma delas é homenageada na Mãe de Leite--, se casaram com artesãos da região e trabalham pintando peças. De acordo com ela, enquanto tiver vida, irá tentar repassar esta mesma paixão para as próximas gerações.
“Gosto de ensinar. Se vocês passarem dois dias aqui, já saem artistas”, brincou.
A parede dos fundos da loja, onde Griceu trabalha, está repleta de certificados. Alguns de participação, outros de homenagens e mais alguns de cursos. Segundo ela, deseja representar a força da mulher nordestina. “Eu sou sempre chamada para todos os cantos, para levar peças. A gente tem a nossa exposição do grito daqui do Alto do Moura, que a gente representa muito o grito da mulher. E o que não falta é garra aqui, das mulheres daqui do Alto do Moura, que trabalham muito mais do que os homens”, diz, divertida.
“Eu tive de crescer antes da hora. Então, eu não falo do valor financeiro. Pra mim, um dos maiores valores, troféu, certificado de tudo que já fiz nessa vida é isso aqui”, disse mostrando a loja. “Pra mim, eu venci nessa vida. Essas peças são meus amores. Eu amo tudo que eu faço”.
- A repórter viajou para Caruaru (PE) a convite de O Boticário.
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