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Vamos virar robôs se deixarmos a IA pensar por nós, diz fundadora da Humanare

Adriana Schneider vê os jovens como os mais vulneráveis nas relações com IAs; leia entrevista

17 mar 2026 - 11h31
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Para Adriana Schneider, fundadora e CEO da consultoria Humanare, os trabalhadores devem se posicionar como autores na era da inteligência artificial (IA) e ter senso crítico para manter o controle da própria narrativa.

"Quando delegamos a capacidade de pensar para uma máquina, só reproduzimos o que ela pensou. Nós que nos tornamos robotizados", afirma.

Segundo ela, os jovens são os mais vulneráveis a se deixarem levar por IAs e, por isso, incentiva que todos aprendam sobre essa tecnologia, que estará cada vez mais presente no dia a dia das empresas.

Adriana, também curadora do palco Humanare no São Paulo Innovation Week, lembra ainda que não devemos nos deixar levar por relações fictícias com IAs, mantendo o foco nas relações humanas que sejam reais. O festival é uma realização do Estadão, em parceria com a Base Eventos - assinantes podem comprar ingressos com 35% de desconto: para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes devem acessar este link.

O SPIW será realizado entre 13 e 15 de maio na Mercado Livre Arena Pacaembu e na Faap.

A especialista também afirma que o retrocesso global visto na adoção de programas de ESG em empresas mostra quais iniciativas eram de verdade e quais existiam apenas por formalidade.

Leia os principais trechos da entrevista a seguir.

Diante da nova realidade trazida pela IA, como o humano deve se posicionar nas empresas?

Como autor. O ser humano não vai se sentir ameaçado se construir o próprio repertório, se ele souber ter uma base na hora de usar (a IA), se ele tiver um pensamento crítico sobre o que está sendo proposto. Aí, vira parceria de pensamento. Quando delegamos a capacidade de pensar para uma máquina, só reproduzimos o que ela pensou. Nós que nos tornamos robotizados. Jovens profissionais têm mais perigo porque ainda não têm experiência de vida, não têm um repertório muito profundo. Mas o uso da IA nos negócios é irreversível. Precisamos nos letrar nessa nova relação.

Como garantir que a inteligência artificial não atropele a inteligência emocional?

A IA coleta informações criadas por nós e responde da forma mais lógica e curta possível, menos trabalhosa para ela. Tem um aspecto que não é curto e nem necessariamente lógico, que é o da dimensão das emoções. Os pensamentos guiam as nossas emoções e as ações. Então, falar de habilidades socioemocionais e de inteligência emocional sem considerar que cada indivíduo é único é muito perigoso. Inclusive, há vários relatos de codependência com a inteligência artificial, como naquele filme Ela (estrelado por Joaquin Phoenix). Muitas pessoas fazem terapia com IAs. Precisamos de relações mais próximas entre as pessoas. Para a IA não atropelar a inteligência emocional, precisamos reconhecer que as relações humanas são mais prioritárias do que as relações com as máquinas.

Adriana Schneider, CEO da Humanare, diz que IA precisa ser usada como parceira de pensamento nas empresas
Adriana Schneider, CEO da Humanare, diz que IA precisa ser usada como parceira de pensamento nas empresas
Foto: Estadão/TecMundo / Estadão

A pauta ESG tem sido desafiada nos últimos anos. Os EUA descontinuaram iniciativas ligadas a temas ambientais e sociais, o que tende a pautar outros países. Como as empresas brasileiras devem navegar nesse cenário?

Acho que elas já estão lidando com isso. A pauta, de certa maneira, retraiu. Os investimentos retraíram não só no Brasil, mas na Europa, onde também eram avançados. Temos as empresas que tinham agenda ESG para ficarem com uma boa marca empregadora. Essas retraíram os investimentos. E temos as que têm iniciativas com verdadeiro sentido. São as que têm ações que não são apenas para preencher um relatório. Letramento já não é a questão, as pessoas já estão letradas (em ESG). É o que se faz depois. Nesse momento de crise, de questionar as ações, separa-se quem se mantém firme, quem aumenta o investimento e quem usa a desculpa inclusive para cancelar modelos de governança e até áreas inteiras de sustentabilidade ou de diversidade.

A pauta ESG está em fase de transformação no mundo corporativo?

De modo geral, nas empresas estrangeiras, a palavra diversidade foi substituída por equidade. Eu ainda não sei aonde isso vai nos levar, mas quando saímos de um extremo ao outro, talvez esse seja o caminho do meio. No Brasil ainda não vemos isso, mas vai chegar.

Como as empresas podem usar a inovação para gerar impacto social real (o 'S' do ESG) sem cair na armadilha do 'social washing'?

As empresas conscientes olham para todas as partes envolvidas no negócio. É a visão do capitalismo consciente. Não só os líderes e os funcionários, mas também os fornecedores, os parceiros, os clientes, a natureza e a sociedade. Quando a empresa consegue conectar interesses comuns, ela acha um ponto de convergência para um bom projeto social. Por exemplo, cuidar de áreas no seu entorno ou profissionalizar pessoas com programas de aceleração de grupos minorizados, sejam ou não absorvidos pela própria empresa. É preciso esse olhar do para o 'além de mim'.

As ações sociais das empresas brasileiras têm gerado um impacto duradouro ou têm sido mais pontuais?

As duas coisas. E tem até as que não causam impacto nenhum, que são feitas para postar fotos em redes sociais. As ações que têm um cunho assistencialista são muito importantes. Mas quando elas amadurecem para algo de longo prazo e as pessoas têm acesso a informações, desenvolvimento, saúde e dignidade, isso se mantém mais vivo. Quem passa por esses programas se transforma e vai transformando assim pessoas próximas. Precisamos atender as situações críticas, mas também precisamos apoiar o desenvolvimento humano para autonomia, para a produtividade e para os trabalhos dignos. Eu acredito nos projetos que empoderam o indivíduo.

Como garantir que a inovação e a agenda ESG coexistam nas empresas?

Elas não só coexistem, como se apoiam. Eu acredito em tecnologias humanas. A inteligência artificial também pode ser inteligência ancestral. A tecnologia mais perfeita do mundo é a natureza. Ela tem todas as respostas. Quanto mais a gente se volta para inovações que sejam orgânicas e que atendam às necessidades humanas. Eu não vejo como caminhos opostos, vejo possibilidades de encontro.

Como um colaborador que não ocupa cargos de gestão pode exercer o protagonismo para sugerir e implementar inovações dentro de uma estrutura tradicional?

A pessoa deveria assumir com intencionalidade, no mínimo, a autoliderança e a autorresponsabilidade. Para mim, protagonismo, autoliderança e autorresponsabilidade são sinônimos. É se perceber como parte do problema para poder fazer parte da solução. Se o problema é do líder, é do político, então o poder está com eles. Quando eu me vejo como parte, tenho de fazer alguma coisa. Essa postura de protagonista é de inquietude para viver melhor. Isso independe do cargo. Uma pessoa precisa desenvolver três características: autoconsciência, para ter um olhar reflexivo sobre si mesmo e também ser investigador dos seus gatilhos e talentos, autorresponsabilidade e automotivação. Se a pessoa não tem uma bússola para ver se está no caminho certo, seguindo seu propósito, ela vai atendendo às expectativas do mercado e da sociedade. Se ela olha para si, para o seu papel e o que a motiva, ela será mais produtiva e mais feliz.

O conceito de lifelong learning é essencial para a inovação. Como a Humanare enxerga a evolução do treinamento corporativo para que ele seja menos mecânico?

O treinamento funciona no formato de habilidades técnicas, como aprender a usar um novo software. Funciona porque é necessário para que a pessoa possa trabalhar bem e ela vê significado no que está fazendo, porque vai melhorar a vida dela. Agora, para desenvolvimento humano, se a pessoa não quiser, pode fazer os programas mais lindos, e ela vai estar lá olhando o celular. Ou se inscreve e não vai. Tem um descompasso entre o que a área estratégica de pessoas entende como necessidade versus o que o colaborador entende como necessidade. Uma estratégia é alinhar interesses. Mas nós não aprendemos só em cursos, treinamentos ou MBAs. Às vezes, aprendemos fazendo um trabalho voluntário ou assumindo um projeto que não é da nossa área para ter uma visão mais sistêmica do negócio.

Estadão
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