Vale a pena investir no novo título de 'aposentadoria' do Tesouro? Entenda vantagens e riscos
Especialistas avaliam lançamento do Tesouro RendA+ e apontam o que o investidor deve ter em mente para decidir sobre aplicação
O governo irá lançar no próximo ano um título público chamado Tesouro RendA+, voltado à aposentadoria. Com aporte mínimo de cerca de R$ 30, ele poderá ser comprado por pessoas físicas a partir de 30 de janeiro, pela internet, e o pagamento poderá ser feito por Pix.
O título promete ao investidor rentabilidade real, ou seja, acima da inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo). Segundo especialistas ouvidos pelo Estadão, o investimento pode ser vantajoso pela facilidade de aquisição e baixo risco.
Apesar da facilidade, os especialistas apontam que não é possível afirmar que o Tesouro RendA+ seria melhor ou pior que a opção por algum tipo de previdência privada, sendo necessário avaliar caso a caso o que vale mais a pena para o investidor. Porém, alguns pontos pesam mais contra do que a favor do RendA+ ante a previdência.
"A desvantagem clara do título do Tesouro é em relação à tributação. O investidor não poderá deduzir o valor investido no Imposto de Renda como acontece na previdência, e o imposto cobrado sobre o rendimento será de 15%, ante 10% da previdência (após dez anos da aplicação). Além disso, há a questão da sucessão patrimonial. Pela previdência, o dinheiro é liberado rapidamente e, em alguns Estados, não há cobrança de imposto", diz Luciana Seabra, analista independente de fundos de investimento e previdência.
Seabra lembra ainda que os títulos estão sujeitos à oscilação de mercado. Ou seja, podem valer mais ou menos a depender do momento. "É uma renda fixa muito diferente do Tesouro Selic. O investidor não pode achar que funciona como previdência e reserva de emergência ao mesmo tempo. A liquidez existe, mas pode ser punitiva, a depender da oscilação do título", afirma. A especialista diz ainda que o investimento é conservador, mas oferece risco de render menos no longo prazo, uma vez que não tem exposição à renda variável ou a outros ativos além do próprio Tesouro.
Christopher Galvão, analista de renda fixa da Nord Research, afirma que os preços dos títulos do Tesouro são impactados por fatores como o cenário fiscal e a inflação. "Quanto mais longo for o prazo de vencimento de um título, maior será o impacto da oscilação dos juros precificados pelo mercado. Além disso, ao vender um título antecipadamente, o custo de custódia é maior do que no vencimento", diz.
Para Pierre Oberson de Souza, professor de finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o novo título de investimento não deve desafogar o INSS, funcionando apenas como uma forma de complemento da renda paga pelo governo, sem substituí-la. Porém, se o Tesouro Nacional conseguir estimular o hábito de investir para a aposentadoria, o País pode enfrentar menos problemas sociais no futuro. "Se as pessoas economizarem um pouco mais para a aposentadoria, isso já será excelente. Haverá menos endividamento e menos empréstimos na aposentadoria, mas isso não vai cobrir o rombo do INSS", afirma.
O Tesouro RendA+ será o primeira emissão de um título previdenciário no mundo, segundo carta enviada para o lançamento do título em Brasília pelo Nobel de Economia de 1997, Robert Merton, e o economista Aron Muralidhar, cujo trabalho serviu de inspiração para o Tesouro Nacional brasileiro estudar e implementar o novo papel. A carta é assinada também pelo economistas Alexandre Vitorino e Azita Sharif. Vitorino, professor da Universidade Federal de São Paulo, participou do lançamento em Brasília e leu a carta. Os economistas afirmam que o Brasil tem uma oportunidade "singular" de incluir os títulos previdenciários em seus arranjos de aposentadoria, mas ponderam que o título é um complemento de renda que nunca substituirá o seguro social do INSS.
Como vai funcionar
Na nova aplicação, o investidor poderá escolher a data em que pretende se aposentar e receber os rendimentos para complementar sua aposentadoria por 20 anos após o vencimento do papel.
Ou seja, caso a data planejada para a aposentadoria seja em 2035, o investidor compra títulos com esse prazo de vencimento e passará a receber os valores a partir dessa data até 2055. No lançamento, serão oito prazos de vencimento, indo de 2030 a 2065.
Apesar da flutuação de preços até o vencimento, o Tesouro RendA+ é considerado um investimento conservador, com um risco de crédito que é praticamente inexistente, segundo os especialistas, porque quem emite o título é o próprio Tesouro Nacional.
Por meio de um simulador no portal do Tesouro Direto, o investidor também pode descobrir quantos títulos precisa adquirir para conseguir receber a quantia que deseja para complementar sua aposentadoria.