'Um País e um mundo caótico propiciam o autodesenvolvimento', diz Beto Pandiani
Ex-empresário do ramo de bares em São Paulo, velejador usa experiência em travessias extremas para ajudar executivos a lidar com tempos incertos
Beto Pandiani sabe como enfrentar dificuldades. Já teve, por exemplo, de velejar com um catamarã por uma tempestade noturna na costa da África enfrentando ondas de cinco metros. "Muita gente poderia ficar aterrorizada", afirma. O ex-sócio de bares icônicos de São Paulo na década de 1980, como o Singapore Sling e Aeroanta, porém, superou a tormenta e dá a dica: "O principal desafio em uma viagem é a sua mente. A sua mente é o oceano mais desconhecido que existe".
O agora velejador, palestrante e autor de livros como O Mar é Minha Terra, Entretrópicos e Travessia do Pacífico, já realizou oito travessias inéditas desde 1994. Sempre com um barco aberto... sem motor. Hoje, ele usa sua experiência com dificuldades extremas para motivar outras pessoas em palestras diversas, inclusive em empresas. "Você descobre que não luta para não morrer, mas sim para viver. E quando luta para viver, compreende a verdadeira dimensão da vida", diz ele ao Estadão.
Fale um pouco sobre suas viagens. Como foram?
Todas foram inéditas. Oito viagens em um barco aberto, navegando pelos oceanos Pacífico, Atlântico, Ártico, além de passar pela Patagônia, Cabo Horn, Antártica e Groenlândia. Como não temos cabine para dormir, usamos roupas muito tecnológicas: para o frio, em regiões polares, e para o calor, com proteção solar. É fato que ficamos expostos aos elementos o tempo todo.
Como surgiu a ideia?
A ideia desses projetos surgiu em 1993. Em 1994, fiz o primeiro trajeto, de Miami a Ilhabela. E todas as viagens seguintes foram inéditas. Normalmente, quando um velejador ou navegador decide atravessar um oceano, faz isso com um barco grande, equipado com cabine e todos os recursos. O nosso tem dois cascos, é um catamarã com uma lona no meio, mastro e velas, sem motor.
Não há motor de emergência?
Não, nunca tivemos. Sempre navegamos apenas com a energia do vento. Aliás, todos os projetos tiveram essa ideia de serem sustentáveis, ligados somente a recursos naturais. Essa foi uma marca desde 1994. A primeira viagem, de Miami a Ilhabela, durou 289 dias, com paradas; a segunda, do Chile ao Cabo Horn e ao Rio de Janeiro, 170 dias; a travessia do Pacífico, dez meses.
Como lidar com uma situação sem um mínimo de previsibilidade?
Lido com a incerteza há muito tempo. Durante o lockdown da pandemia, fizemos uma entrevista e eu te disse que era um especialista no assunto, porque passamos muito tempo em situações de confinamento, em um ambiente instável, onde não temos controle sobre nada: a natureza, o mar, o vento. O que posso responder objetivamente é que, quando você parte para um projeto sem saber o que vai acontecer, é importante que você se conheça bem.
O que te levou a isso?
Essas viagens representam um desafio sobre-humano, pois como viver ao relento, sem dormir ou comer direito, bebendo água do mar dessalinizada? Vivemos no limite do possível.
É um limite de sobrevivência?
Sim, mas aí você descobre que não luta para não morrer, mas sim para viver. E quando luta para viver, compreende a verdadeira dimensão da vida. Na vida urbana, não há a preocupação de estar vivo amanhã. Quando come no barco, você valoriza cada prato de comida. Quando você é obrigado a carregar seus próprios recursos em um barco muito limitado, você aprende a ser um bom gestor de recursos.
Esse seria o maior aprendizado?
Sim, é entender o que é essencial na vida e o que não é. O barco, por ser muito espartano e limitado, me ensinou a viver com pouco. Felicidade não é ter mais ou menos, mas saber que você pode realizar projetos como esses, que aparentemente tinham uma chance, digamos, de 90% de fracasso.
Como um empresário empreende sabendo que há 90% de chance de fracasso?
Já tive restaurante, trabalhei à noite, empreendi. Acredito que o empresário brasileiro, comparado ao europeu ou ao americano, é muito melhor. Tem mais experiência com montanhas russas econômicas. O mundo todo navega em mares imprevisíveis, sem garantias de nada. Mas as pessoas empreendem pelo entusiasmo, pelo propósito, pelo desejo de realizar, algo muito pessoal.
Os empresários hoje enfrentam um dilema ante esse mundo caótico liderado por Trump. Não é mais possível fazer projetos criveis de longo prazo. Como sua experiência pode ajudá-los?
Essa resposta é ampla, mas vou começar trazendo a ideia para o meu barco, que é o meu ambiente. Um projeto como o nosso requer primeiro preparar o barco. Depois, a equipe, pois não adianta ter um bom plano com maus executores. Os executores precisam ser muito melhores hoje do que 30 anos atrás, quando o mundo era mais previsível. O que vejo hoje é que os líderes não estão preparados para lidar com temas mais profundos porque todos ficaram muito acostumados a um ambiente mais seguro. O ambiente agora revela melhor quem está preparado e quem não está.
Como é lidar todos os dias com o imponderável?
Quando atravessamos o Pacífico, entre a América do Sul e a Ilha de Páscoa, havia 1,1 mil milhas para cada lado. Eu e Igor (Bely, seu companheiro de aventura) éramos os seres humanos mais distantes da humanidade. Até um astronauta deveria estar mais próximo de nós, pelo menos uns 40 km. Estávamos a 2 mil quilômetros de outro ser humano. E o que isso significa? Significa que tudo o que acontecer, você vai ter que resolver. Se fôssemos resumir nossa conversa, diria que esse País caótico e esse mundo incerto são os ambientes mais ricos e propícios ao nosso auto desenvolvimento.