Shoppings retomam vendas, mas restaurantes ainda sofrem
Praças de alimentação enfrentam restrições mais rígidas de ocupação e queda maior no faturamento; setor negocia mês a mês contratos de aluguel
Com as portas de seu restaurante árabe fechadas de 20 de março a 12 de novembro, Graça Donatti adiou a reabertura, por entender que voltar sem movimento era pior do que ficar fechada. Mas o retorno às operações da unidade, que fica no shopping Morumbi Town, em São Paulo, não foi animador. "A conta não fecha", diz ela. "Infelizmente, acho que vai acontecer comigo o que está acontecendo com muitos." Ou seja: o fim definitivo do negócio.
A situação de Graça reflete um dilema de donos de restaurantes e lojas de serviços nos shoppings. Enquanto o varejo se recuperou rápido da fase mais aguda da crise causada pela pandemia de covid-19, impulsionados por medidas como o auxílio emergencial, o setor de serviços sofre. Para os restaurantes, mais pessoas trabalhando em casa significa menos almoços e jantares fora. A pandemia não tem data de vencimento, mas as dívidas, sim.
Desde o início das restrições ao comércio, em março, Graça conseguiu reduzir pela metade o aluguel após negociar com o shopping, mas teve de pagar outras taxas, como o fundo de promoção. Para lidar com as despesas, foi atrás de crédito. "O dinheiro do Pronampe já foi. No próximo ano começam as parcelas", diz. Sem caixa e sem clientes, vê uma situação desafiadora. Ao seu redor, pelo menos cinco lojas da praça de alimentação fecharam em definitivo.
O vaivém do horário de funcionamento dos shoppings paulistas por determinações do governo pouco influenciou no faturamento dos restaurantes. Isso porque o grosso da receita vinha dos clientes corporativos. Além de boa parte das grandes empresas seguir em teletrabalho, a capacidade das praças de alimentação é limitada pelas medidas sanitárias.
"Como é possível faturar a mesma coisa, se há só 40% dos lugares?", diz a diretora de franquias da rede Big X Picanha, Rita Poli. A marca já fechou 3 das 31 unidades no País e pode encerrar mais. "Tem muita gente esperando o fim de ano para ver o que fazer."
Nessas condições, o setor negocia mês a mês com as redes de shoppings, em uma discussão iniciada com a disparada do IGP-M, índice pelo qual são reajustados os contratos de aluguel. A favor dos restaurantes nas conversas, está a própria situação frágil do setor. Sem concessões por parte dos shoppings, haverá mais tapumes nas praças de alimentação, o que seria ruim para os centros de compras.
Para evitar esse cenário, as administradoras deram desconto no aluguel ou no condomínio, e reduziram o benefício conforme as vendas voltaram, embora não totalmente. Na Iguatemi, por exemplo, a política não acabou. Cristina Betts, diretora financeira e de relações com investidores, diz que todos os meses a empresa se debruça sobre os números dos 3 mil lojistas de seus shoppings para bater o martelo. "No começo, fizemos uma política mais ou menos igual para cada categoria de loja dependendo do shopping. Mas cada um tem um contrato", disse ao Estadão/Broadcast.
Com 20 shoppings no País, a empresa tem unidades como o JK Iguatemi, em São Paulo, em áreas de forte concentração de escritórios corporativos. Com o home office, nem todos os segmentos voltaram da mesma forma. "É óbvio que o público corporativo faz muita falta. Temos visto maior conversão, com menos fluxo e mais compras. Mas é verdade que temos categorias que sofrem mais", afirma Cristina.
No terceiro trimestre, as vendas em lojas maduras dos shoppings da Iguatemi caíram 37,5% em base anual. O setor de alimentação foi o de pior desempenho, com queda de 56,4%. Em outras empresas, a venda também caiu. Na Aliansce Sonae, a baixa foi de 33,1%. Na Multiplan, de 41,4%, e na BRMalls, de 36,8%. Apenas a Iguatemi detalhou as vendas por segmento.
As vendas de grandes redes de restaurantes, porém, dão uma pista. A Arcos Dorados, franqueadora do McDonald's no Brasil, teve queda de 44% na receita em dólar no terceiro trimestre. A BK Brasil, do Burger King, viu o faturamento encolher 27,8%.
Em nota, a Aliansce Sonae afirmou que mantém acompanhamento constante da situação de cada lojista. A Multiplan não se pronunciou e a BRMalls não respondeu aos contatos. A Associação Brasileira de Shoppings Centers (Abrasce) afirmou que os adiamentos e descontos concedidos neste ano chegam a R$ 5 bilhões.
Desafio econômico
O fim das medidas de alívio financeiro, que ajudaram a segurar as pontas no auge da pandemia, é uma das maiores ameaças ao setor de restaurantes, especialmente para os menores. Segundo especialistas, assim como o auxílio emergencial, as medidas foram desenhadas considerando que a pandemia estaria resolvida no fim de 2020 e as atividades, normalizadas, o que não se concretizou.
"O fim do ano é emblemático. Restam riscos como o fim de todos os auxílios ao emprego e da rolagem da dívida das empresas", afirma João Maurício Rosal, economista da Guide. "Tivemos uma reação comportamental quando a pandemia baixou, de achar que se tudo está bem hoje, vai ficar assim para sempre, e não é assim. O fim do ano pode ser um ponto de inflexão."
O setor vive ainda pressões que estão ligadas à renda da população. Uma delas é a aceleração da inflação em categorias básicas de consumo. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o índice oficial de inflação, apontou alta de 2,54% nos preços dos alimentos em novembro, a maior do índice. Para os próximos meses, espera-se também que a energia elétrica acelere, depois de a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) determinar a volta da bandeira vermelha nas tarifas neste mês.
O efeito prático é que a renda disponível das classes baixa e média cai, porque o consumo básico exige mais dinheiro. Com isso, a compra de itens supérfluos e de serviços tende a sofrer. "Para as classes mais baixas, existe uma pressão em alimentação e itens mais básicos. E a renda disponível diminui em um momento de retirada do auxílio emergencial", afirma Isabela Tavares, economista especializada em varejo da Tendências Consultoria.