Raízen se torna o maior caso de reestruturação extrajudicial do País, com dívidas de R$ 65 bi
Até então, o ranking era liderado pela InterCement, empresa de cimentos do grupo Mover, que também renegociou passivo de R$ 13,5 bilhões
Com uma dívida líquida de R$ 65,14 bilhões, a Raízen passa a ser o maior caso no País de reestruturação extrajudicial, no qual um plano é acordado por 50% mais 1 dos credores e homologado por um juiz.
Até a apresentação do pedido da empresa de energia e renováveis do grupo Cosan, o ranking era liderado pela InterCement, empresa de cimentos do grupo Mover, que também renegociou seu passivo, somando dívidas de R$ 13,5 bilhões.
Considerando as reestruturações de dívidas feitas por meio de processos de recuperação judicial, a Raízen empata com a primeira vez em que a Oi foi à Justiça para se reestruturar, em 2016, alegando dívidas de R$ 65 bilhões.
Em 2023, a Oi voltou a pedir recuperação judicial, meses após encerrar o primeiro processo, com um passivo de R$ 43,7 bilhões. Por enquanto, é a Odebrecht que lidera o ranking das maiores recuperações judiciais do Brasil, somando dívidas de perto de R$ 100 bilhões.
Para além dos números, a reestruturação da dívida da Raízen demonstra o efeito do juro elevado sobre o passivo das empresas em contrapartida à capacidade de geração de caixa.
A diretora do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre), Juliana Biolchi, nota que o volume médio de dívidas que vêm sendo apresentado para reestruturação por meio de recuperação extrajudicial tem aumentado, e ela acredita que em 2026 mais casos devem surgir, não necessariamente de mesmo montante de Raízen.
"O pano de fundo do que estamos vendo é, em sua base, o fato de que as companhias sempre têm problemas de gestão, mas este é um momento que, particularmente, percebemos um número elevado de empresas que não estão dando conta de pagar suas dívidas no curto prazo e precisam alongar prazos", afirmou. Biolchi acrescenta que a guerra no Oriente Médio aumenta a pressão sobre empresas, em consequência da elevação nos preços de muitos insumos.
Para ela, a boa notícia é que pouco mais de 20 anos após a recuperação extrajudicial passar a constar em lei, com normas previstas para resolver problemas financeiros de empresas, o instrumento se mostra como uma alternativa de fato. "Até 2021, não se podia afirmar que o instituto da recuperação extrajudicial cumpria seu papel", disse.
Conforme o documento apresentado pela Raízen ao entregar à Justiça seu pedido de recuperação extrajudicial, as dívidas somadas das companhias do grupo chegam a R$ 98,6 bilhões.
Ao informar o mercado sobre o passivo a ser renegociado, a companhia citou R$ 65,14 bilhões, já que, para efeito de quórum de aprovação e para votação de qualquer plano, as companhias do grupo ficam de fora, por serem partes interessadas. "Mas se trata de um montante que será tratado dentro do plano", afirmou Biolchi.