Principais temas da cúpula entre Trump e Xi
O presidente chinês Xi Jinping visita Washington para uma cúpula de alto nível com Donald Trump. Pressionado por desafios internos e eleições próximas, Trump busca vitórias comerciais, como acordos agrícolas e de aviação, além da extensão da trégua tarifária e o fornecimento de terras raras. A agenda bilateral também prioriza a delicada soberania e a venda de armas a Taiwan, o conflito no Irã — com foco na influência de Pequim sobre Teerã — e diretrizes de cooperação e segurança em inteligência artificial.
Guerra no Irã, tarifas comerciais, inteligência artificial e Taiwan estão na agenda do encontro entre os presidentes dos EUA e da China.O presidente da China, Xi Jinping, fará esta semana, pela primeira vez em mais de uma década, uma visita de Estado aos Estados Unidos a convite do presidente Donald Trump. Xi chega a Washington nesta quarta-feira (23/09) e ficará nos EUA até sexta.
Esta será a segunda visita de Estado entre Xi e Trump este ano, após a realizada pelo presidente americano a Pequim em maio. Na ocasião, ambos os governos concordaram, entre outras questões, em estabelecer um canal de diálogo intergovernamental sobre inteligência artificial (IA).
Nos quatro meses desde aquele encontro, Xi viu uma expansão do comércio chinês com o mundo, enquanto Trump, envolvido na guerra com o Irã e enfrentando baixos índices de aprovação, busca ter o que apresentar aos eleitores americanos, insatisfeitos com o aumento dos preços e prestes a ir às urnas nas eleições de meio de mandato, em novembro.
Espera-se que sejam discutidos assuntos como a guerra no Irã, inteligência artificial (IA), a trégua na guerra tarifária prestes a expirar e Taiwan, a ilha autônoma cuja soberania é reivindicada por Pequim.
Trégua ou retorno à guerra comercial?
A visita ocorrerá poucos dias após negociações realizadas em Nova York entre o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, e o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng.
Os mercados estarão atentos a sinais de uma extensão da trégua tarifária anunciada após a reunião entre Trump e Xi na Coreia do Sul, em outubro passado, e que expirará em 10 de novembro. Esse acordo interrompeu uma guerra comercial na qual as duas maiores economias do mundo ameaçaram as cadeias globais de abastecimento com tarifas retaliatórias mútuas que chegaram a superar 100%.
A trégua tarifária suspendeu parte das tarifas e restrições adotadas durante meses de escalada, incluindo alguns controles chineses sobre a exportação de terras raras.
As conversas entre He e Bessent abordaram a aplicação dos acordos alcançados em rodadas anteriores, o comércio e o investimento bilateral e também incluíram um diálogo sobre inteligência artificial, que ambas as partes pretendem continuar.
O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que os países farão "alguns anúncios sobre agricultura e barreiras não tarifárias". Um passo que a China poderia adotar facilmente seria reduzir as tarifas sobre importações agrícolas americanas.
Aviões e produtos agrícolas
Trump buscará anunciar vitórias comerciais antes das eleições legislativas de meio de mandato de novembro, incluindo a confirmação de compras de grande visibilidade, como aeronaves da Boeing e produtos agrícolas.
Greer afirmou na segunda-feira que a China está avançando no compromisso de comprar 200 aeronaves da Boeing, mas não indicou que novos pedidos estejam próximos. Trump declarara em maio que a China poderia ampliar sua encomenda da Boeing para até 750 aeronaves.
No entanto, o diretor-presidente da Boeing, Kelly Ortberg, reduziu na semana passada expectativas de analistas do setor de que a China possa anunciar uma nova encomenda da Boeing durante os encontros entre Trump e Xi.
Após a cúpula de maio, a Casa Branca comunicou que a China se comprometeu a comprar pelo menos 17 bilhões de dólares por ano em produtos agrícolas americanos em 2026, 2027 e 2028.
O senador republicano Pete Ricketts, presidente da subcomissão de Relações Exteriores do Senado para o Leste Asiático, afirmou na semana passada que Trump deverá pressionar Xi a cumprir esses compromissos e a concretizar promessas de abrir o mercado chinês a mais exportações de carne bovina dos Estados Unidos.
Terras raras
Pequim tem pressionado os Estados Unidos a adiar ainda mais uma regra que impedirá milhares de empresas chinesas de receber tecnologia avançada americana, enquanto Washington deseja que Pequim facilite os embarques de terras raras e minerais críticos essenciais para aplicações de alta tecnologia, que vão da fabricação de automóveis e aeronaves ao setor de defesa.
Especialistas afirmam que Trump adotou uma postura menos combativa do que o habitual antes de sua reunião com Xi devido ao crescente poder da China no setor de minerais estratégicos. Segundo a consultoria AlixPartners, a China controla até 70% da mineração mundial de terras raras, 85% da capacidade de refino e cerca de 90% da produção de ligas metálicas e ímãs de terras raras.
Até o momento, o governo Trump não ameaçou impor tarifas elevadas sobre importações chinesas nem proibir exportações de tecnologia dos Estados Unidos, em contraste com as posturas agressivas que antecederam cúpulas anteriores. No ano passado, em retaliação às tarifas de Trump, a China restringiu as exportações de terras raras e provocou turbulências nos mercados globais.
Taiwan
Um dos temas mais delicados é um pacote de armas para Taiwan no valor de 14 bilhões de dólares, aprovado pelo Congresso dos Estados Unidos em janeiro de 2025, mas que o governo de Trump ainda não levou adiante.
Os aliados dos Estados Unidos na Ásia têm demonstrado preocupação crescente de que, para garantir ganhos econômicos, Trump possa atenuar o apoio de Washington a Taiwan, a ilha democrática que a China considera uma província rebelde.
Embora os Estados Unidos, como a maioria dos países, não mantenham relações diplomáticas formais com Taipé, Washington é o principal apoiador internacional e fornecedor de armas de Taiwan.
Trump afirmou que Xi o pressionou sobre as vendas de armas dos Estados Unidos para Taiwan durante a visita de maio, tendo posteriormente descrito o pacote pendente de 14 bilhões de dólares como uma "moeda de troca" nas negociações.
Segundo o jornal South China Morning Post, de Hong Kong, os Estados Unidos estão considerando adiar as vendas de armamento a Taiwan para 2027 devido aos encontros previstos entre Trump e Xi ao longo deste ano.
Além da visita de Estado desta semana, estão previstos um encontro bilateral durante a cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), marcada para novembro em Shenzhen, e um deslocamento do líder chinês à Flórida, em dezembro, para participar da cúpula do G20.
Além das armas, pessoas familiarizadas com os esforços chineses disseram à agência de notícias Reuters que Pequim também espera convencer Trump a declarar publicamente que os Estados Unidos se opõem à independência de Taiwan, em vez de afirmar apenas que não a apoiam, que é a formulação adotada por Washington há décadas.
Qualquer mudança na posição dos Estados Unidos sobre Taiwan seria altamente controversa, levantando questionamentos sobre a disposição de Washington em defender a ilha e provocando oposição no Congresso.
Na segunda-feira, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, reuniu-se com seus colegas do Japão e da Coreia do Sul e reiterou o compromisso dos EUA com a defesa desses importantes aliados asiáticos. Os três países expressaram apoio a Taiwan.
Guerra no Irã
A China mantém laços estreitos com Teerã e é, de longe, a maior compradora mundial das exportações de petróleo iraniano. Washington considera que Xi dispõe de uma capacidade única de exercer pressão sobre Teerã, mas tem demonstrado pouca disposição de usá-la.
Bessent disse que Trump e Xi discutirão os vínculos financeiros da China com Teerã durante a cúpula. No entanto, apesar da frustração de Washington com Pequim, Bessent evitou impor punições a bancos chineses quando anunciou uma "ofensiva econômica" contra o Irã no mês passado e advertiu países a reduzirem seus negócios com o Irã.
Na semana passada, Trump minimizou uma reportagem segundo a qual o Irã teria obtido imagens de satélite de uma base na Jordânia junto a entidades chinesas antes de um ataque, em julho, que matou três militares americanos.
A Reuters informou no mês passado que Pequim está vendendo bilhões de dólares em mercadorias ao Irã por meio de um esquema que burla as sanções. O Ministério das Relações Exteriores da China afirma não ter conhecimento disso.
Inteligência artificial
Analistas veem a IA como uma possível área de cooperação, dadas suas implicações para a segurança nacional, a competitividade econômica e as capacidades militares, bem como as preocupações compartilhadas por Estados Unidos e China quanto ao uso indevido da tecnologia.
Mas apesar desse potencial, as duas principais potências mundiais em IA também se veem como concorrentes, o que dificulta a cooperação. "Eles veem pouca razão para colaborar em áreas nas quais acreditam que a vantagem competitiva é fundamental", observa o cientista político Ja Ian Chong, da Universidade Nacional de Singapura.
Bessent declarou, após as conversas do fim de semana com o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng, que os dois lados discutiram a criação de um novo diálogo bilateral sobre IA. Isso incluiria um sistema de notificação voltado para objetivos e ameaças comuns, abrangendo incidentes relacionados à IA que atinjam um nível de relevância para a segurança nacional.
O diretor-presidente da empresa americana de IA Anthropic, Dario Amodei, alertou neste mês que uma eventual predominância chinesa na inteligência artificial poderia representar riscos à segurança dos Estados Unidos.
A mídia estatal chinesa rejeitou o alerta, classificando-o como produto de uma "mentalidade de Guerra Fria", enquanto Trump descartou os apelos para desacelerar o desenvolvimento da IA, afirmando que "forças muito negativas" estão levantando preocupações exageradas.
as/md (Reuters, AFP, Efe)
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