Presidente do Fed reforça independência e prioriza combate à inflação
Declaração reduz expectativas de corte nos juros no curto prazo, medida defendida repetidamente pelo presidente dos EUA, Donald Trump
O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Kevin Warsh, afirmou nesta quarta-feira, 1º, que a instituição manterá sua independência em relação ao governo e seguirá concentrada no combate à inflação. A declaração reduz as expectativas de um corte nos juros no curto prazo, medida defendida repetidamente pelo presidente norte-americano Donald Trump.
Durante um encontro de representantes dos bancos centrais em Portugal, Warsh reafirmou o compromisso da autoridade monetária com a meta de inflação de 2%. "Se empresas ou famílias acreditam que o Fed aceitará uma inflação acima de 2%, ficarão decepcionadas. Vamos entregar estabilidade de preços", disse.
Ao ser questionado sobre a pressão de Trump por juros menores, Warsh voltou a destacar a autonomia do banco central. "Somos um banco central independente há muito tempo e continuaremos sendo", afirmou.
As declarações marcam uma mudança de tom em relação ao período anterior à sua posse. Antes de assumir a presidência do Fed, em 22 de maio, após a saída de Jerome Powell, Warsh defendeu juros mais baixos. Desde que assumiu o cargo, porém, passou a enfatizar a necessidade de controlar a inflação antes de considerar qualquer flexibilização da política monetária.
Apesar disso, ele evitou antecipar quais medidas pretende adotar nas próximas reuniões do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês). A postura é coerente com sua crítica ao chamado forward guidance, estratégia pela qual bancos centrais sinalizam previamente os rumos da política monetária. "Não vou fazer esse julgamento agora. A estratégia e as decisões ainda serão definidas", afirmou.
Na última reunião do Fed, realizada em 16 e 17 de junho, quase metade dos 19 dirigentes projetou ao menos uma alta de juros ainda neste ano. Oito defenderam manter a taxa inalterada e apenas um indicou a possibilidade de corte. Warsh não apresentou projeções individuais.
A economia americana também mudou desde que Trump indicou Warsh para comandar o banco central, em janeiro. A inflação alcançou 4,2% em maio, o maior nível em três anos, impulsionada principalmente pela alta dos preços da energia durante a guerra envolvendo o Irã. Com o acordo de paz e a queda dos preços dos combustíveis, cresce a avaliação de que a inflação pode ter atingido seu pico.
Segundo Warsh, indicadores de expectativas de inflação — acompanhados por pesquisas e pelos mercados financeiros — também mostram uma desaceleração, sugerindo menor risco de pressões inflacionárias persistentes.
Ainda assim, o presidente do Fed terá de decidir se será necessário elevar novamente os juros nas próximas reuniões para reforçar o compromisso da instituição com o controle da inflação. Caso os preços da energia continuem recuando, essa decisão poderá ser adiada.
Outro fator que reduz a pressão por cortes nos juros é a resiliência do mercado de trabalho. Economistas esperam que o relatório oficial de emprego, previsto para quinta-feira, 2, mostre a taxa de desemprego estável em 4,3%, indicando que a atividade econômica segue aquecida.
Warsh também voltou a defender que a inteligência artificial tende a aumentar a produtividade da economia e contribuir para reduzir pressões inflacionárias no longo prazo. No curto prazo, porém, especialistas avaliam que o forte investimento em infraestrutura para IA tem encarecido semicondutores e equipamentos de computação, alimentando a inflação.
O presidente do Fed evitou dizer se compartilha dessa avaliação. Segundo ele, cinco grupos de trabalho foram criados dentro da instituição para estudar temas como inteligência artificial e seus efeitos sobre a produtividade. "Este é um dos momentos mais empolgantes e relevantes para ser um banqueiro central de que consigo me lembrar, talvez perdendo apenas para períodos de crise", afirmou. / COM INFORMAÇÕES DA AP
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