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'Não tratamos a agenda ambiental em função de modismo ou posturas de um país', diz CEO da Suzano

Beto Abreu destaca que projeto da empresa de vender créditos de carbono depende de regulamentação do mercado; sobre metas ESG, afirma que ter 30% de mulheres na liderança é um desafio

22 abr 2025 - 11h10
(atualizado em 22/4/2025 às 15h08)
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Os ataques aos temas de meio ambiente, responsabilidade social e governança (ESG, na sigla em inglês) por parte do presidente americano Donald Trump - que resultaram em uma espécie de aversão ao tema no mercado financeiro - não afetaram, na prática, a disponibilidade de recursos ou a estratégia da Suzano, maior fabricante de celulose do mundo. O presidente da companhia, Beto Abreu, em entrevista ao Estadão/Broadcast, disse que a empresa continua acessando o mercado de capitais sem perceber maiores dificuldades em linhas de crédito atreladas a metas de sustentabilidade e inclusão.

Questionado sobre a mudança recente no tom das cartas aos investidores da BlackRock - gestora que administra US$ 11,6 trilhões e que deixou de mencionar questões ESG -, Abreu afirmou que a gestora, acionista da empresa, "está interessada em saber se essa é uma companhia bem gerenciada" e que a Suzano não vê que a "sustentabilidade exista em detrimento da rentabilidade".

Dentre os pontos em que a agenda de sustentabilidade se relaciona com a estratégia da companhia, está a possibilidade de a Suzano atuar na venda de créditos de carbono. Para Abreu, a receita vinda dessa atividade no futuro pode ser relevante, ou não, a depender da regulamentação desse mercado.

"(A regulamentação) é um trabalho muito importante que deve durar provavelmente 2025 inteiro e o início de 2026. Vejo uma grande oportunidade para o Brasil nisso", afirma.

Confira os principais pontos da entrevista:

No fim de 2020, após a fusão com a Fibria, a Suzano anunciou seu novo propósito e afirmou que estava colocando o ESG no centro de seus negócios. Era um momento em que o ESG estava em voga. Hoje, ele vem sendo atacado. Como isso impacta a companhia?

Na Suzano, não existe nenhuma mudança nesse aspecto. Nossa estratégia continua sendo implementada. Diria até intensificada. A gente não trata a agenda social, a ambiental, a política de diversidade dentro de um contexto de modismo ou em função de posturas de um país.

Na Suzano, o ESG está dentro da nossa estratégia. Vemos o ESG como uma oportunidade de negócio, não como um custo. O ESG na Suzano dá retorno, talvez não da forma tradicional de desconto de fluxo de caixa de um projeto de investimento. Mas, quando você olha a companhia como um todo, no longo prazo, a gente não tem a menor dúvida de que crescemos de forma muito mais sólida e sustentável.

O mercado financeiro já esteve mais aberto à sustentabilidade. Exemplo disso é a BlackRock, que levantava a bandeira do ESG e se afastou do tema. Isso muda alguma coisa para vocês?

Não. Não vemos a sustentabilidade em detrimento da rentabilidade. As duas coisas caminham juntas. O mercado de capitais, o mercado financeiro e a BlackRock - que é acionista da Suzano - estão interessados em saber se essa é uma companhia bem gerenciada e se ela gera valor para o acionista.

A direção da Suzano não enxerga que a nossa rentabilidade e nosso crescimento ficariam comprometidos em função de um foco grande da companhia em ESG. Ao contrário. O ESG reforça a agenda de crescimento sustentável da empresa.

O sr. percebe alguma mudança em relação ao acesso ao financiamento? Até o ano passado, era mais fácil conseguir recursos para medidas de redução de emissões ou projetos de transição energética?

Não percebemos ainda. A companhia continua acessando o mercado de capitais de forma bastante atuante. Essa é a dinâmica do nosso negócio. O nosso negócio é de capital intensivo. O perfil da dívida está sempre sendo alterado em função de oportunidades que aparecem.

Hoje, 50% da nossa dívida estão vinculados a compromissos de sustentabilidade. Colocar metade da dívida bruta da empresa nesse formato é bastante relevante e mostra nossa confiança de entregar as metas com que nos comprometemos no momento de emitir essas dívidas.

A empresa vinha investindo em produtos renováveis, inclusive tecido. O retorno de Trump ao poder ameaça o crescimento do mercado de itens "verdes"?

Quando a Suzano decide entrar em determinado segmento, consideramos o longo prazo. Obviamente consideramos o melhor momento de fazer o investimento em função do risco também. Nas últimas semanas, o índice de risco foi elevado globalmente. Mas as decisões estratégicas numa companhia que tem mercados globais não deveriam ser comprometidas em função de um governo específico.

Colocamos nossos produtos em mais de cem países. Então, temos um período de quatro anos de um governo que vai ter um perfil diferente. Vai tratar comércio internacional de uma outra forma. Mas as nossas decisões estratégicas estão sempre olhando um prazo mais longo.

O crescimento do mercado, diante dessas questões políticas, pode ser afetado?

Com certeza. No primeiro governo Trump, depois da guerra comercial, o crescimento global foi reduzido em 0,7 ponto percentual - de 3,5% para 2,8%. A guerra comercial traz, de fato, um arrefecimento da demanda. Essas guerras tarifárias diminuem o fluxo global de comércio e trazem inflação. Mais inflação e menos comércio global significam menor crescimento global. Então, a pergunta é o quão menor.

A pergunta era mais em relação ao mercado de produtos "verdes", como tecido sustentável. Está ameaçado?

O mercado raramente paga mais pelo selo 'sustentabilidade'. Por isso que eu digo que a sustentabilidade tem business case. Ela tem retorno. Dá para você fabricar produtos mais sustentáveis e ser competitivo. As empresas precisam ser competitivas independentemente da fonte de energia. Se você tem produtos que são sustentáveis, competitivos, você não deveria perder mercado em função do discurso.

Nós decidimos entrar no mercado têxtil para competir. Obviamente com um produto mais sustentável ambientalmente do que o poliéster. No entanto, ele precisa ser competitivo para ganhar mercado. Então, não vejo a mudança do discurso impactando no crescimento.

A empresa falava, em 2020, do potencial que tinha para vender crédito de carbono. Como está essa questão?

Evoluiu bastante, porque o Brasil aprovou uma lei no ano passado de crédito de carbono. Mas essa lei ainda não foi regulamentada. Como é que esse mercado vai ser trabalhado? Como vamos medir o crédito? Como se regulamenta isso? É um trabalho muito importante que deve durar provavelmente 2025 inteiro e provavelmente o início de 2026.

Vejo uma grande oportunidade para o Brasil nisso. O Brasil precisa aproveitar o potencial de crédito de carbono que tem para que esse modelo seja referência para ser usado fora do País. O mercado de carbono é uma ferramenta potente para enfrentar as crises climáticas.

Mas, no caso da Suzano, seria possível ter uma receita relevante com os créditos? Como a empresa evoluiu com o seu programa de crédito de carbono?

A receita vai depender de como a regulamentação será feita. Hoje, nós temos projetos não só dentro da Suzano, como por meio de uma empresa de que somos sócios, a Biomas. Mas, em função da falta de regras claras no mercado regulado, esse mercado hoje está restrito ao voluntário. Minha resposta para você hoje é que (o programa de crédito de carbono) é muito incipiente.

A crise de credibilidade no mercado de carbono interferiu nisso?

Esse tipo de evento obviamente não ajuda. O que temos agora é a oportunidade de, na regulamentação, trabalhar o item certificação. Deveria haver muitas certificadoras. Inclusive, por que o Brasil não ter a sua certificadora? A relevância disso, mais uma vez, vai depender de como essa regulamentação for feita.

Beto Abreu: "O mercado raramente paga mais pelo selo ‘sustentabilidade’"
Beto Abreu: "O mercado raramente paga mais pelo selo ‘sustentabilidade’"
Foto: Bruno Nogueirão / Estadão / Estadão

A empresa tem avançado bem para atingir sua meta de redução de emissões de carbono. Já para outras metas ESG, a situação não é tão positiva. Onde vocês estão tendo mais dificuldade para avançar?

Já entregamos 85% da meta de redução da pegada de carbono. Na parte de impacto social, com certeza vamos antecipar a entrega da meta de 200 mil pessoas fora da linha de pobreza. Temos metas de liderança feminina. Essa, a gente vai ter dificuldade de entregar. Precisamos chegar a 30% (de mulheres em posição de liderança) em 2025. Estamos com 27,5%.

É dez vezes mais do que a gente tinha cinco anos atrás. Mas esse final para chegar aos 30% traz desafios. Seguimos fazendo. É um trabalho que cobre toda a organização, em todos os níveis, mas não podemos entregar a meta por entregar. Precisamos garantir que isso esteja alinhado com todo o plano de crescimento da empresa.

A empresa é negativa na emissão líquida de carbono, mas não quando se considera o escopo três, que inclui os fornecedores. Como resolver isso?

Gosto de dizer o seguinte: 'Se todo mundo entregar o escopo um e dois, o três está entregue'. Ainda assim, nós medimos o escopo três. Diria que o nosso maior foco é na logística. Percebemos planos bastante ambiciosos do ponto de vista de redução de emissões por parte dos nossos fornecedores. Vemos, por exemplo, o transporte marítimo estudando novos combustíveis. O e-metanol, que é o metanol renovável, é uma possibilidade.

Em ferrovias, temos locomotivas híbridas, que também já estão sendo utilizadas, com uma redução de 30% no consumo de combustível. Com essa redução, a solução consegue ser competitiva. Ela está reduzindo a pegada de carbono e também reduzindo custos. Queremos mudar nossa frota toda de transporte de madeira do diesel para o gás, o que reduz a pegada de carbono e o custo. Esse é um projeto que está sendo testado.

Como o sr. avalia a preparação da COP no Brasil?

Sempre participamos das COPs. Entendemos que é uma oportunidade de colocar na mesma mesa entidades da sociedade civil, governos, iniciativa privada, todos com um objetivo comum: reduzir impactos e mudanças climáticas. Na nossa visão, a COP-30 não é um evento de uma semana. É um trabalho de todo o ano.

Discutimos com esses organismos, em momentos diferentes, participando dos fóruns de mudanças climáticas que acontecem em paralelo. A gente participa, contribui, questiona, busca soluções para chegar à COP-30, dentro do possível, com propostas concretas.

Há algumas preocupações em relação à COP, como a falta de hospedagem em Belém. Como avalia a organização?

É sempre mais desafiador fazer um evento global grande numa cidade menor. Existem desafios de infraestrutura que são maiores, inerentes à região e ao tamanho da cidade.

Por outro lado, é uma região do País simbólica, temos a Amazônia em torno da cidade. Temos de olhar para frente e garantir que os desafios inerentes à localização e ao tamanho da cidade sejam superados da melhor forma possível.

Estadão
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