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Mulheres líderes avançam no setor automotivo no Brasil, mas alto escalão continua sendo dos homens

Números mostram mulheres sendo maioria como trainees e estagiárias, mas ficando para trás à medida que aumenta a hierarquia, com 85% de homens nos cargos de presidência

19 nov 2025 - 10h12
(atualizado em 19/11/2025 às 10h45)
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Na subsidiária brasileira da Volkswagen, mulheres são 13,5% de todo o quadro funcional. Na liderança, segundo dados da montadora, essas profissionais ocupam porcentual maior: passaram de 12,5% em 2021 para 25% em 2024. A engenheira de produção mecânica Flávia Tabata, que ingressou na empresa como estagiária há 17 anos, faz parte dessa fatia, em meio a um mercado predominante ocupado por homens, desde os cargos operacionais ao comando das empresas.

Há sete meses, Tabata está à frente do posto de supervisora de Produção da Montagem Final, na fábrica de Taubaté (SP), comandando uma equipe formada majoritariamente por homens. "Fui passando degrauzinho por degrauzinho até chegar à supervisão, e ninguém teve dúvida da minha competência", diz. "Eu nunca tive essa dificuldade porque a política dentro da empresa sempre me deixou muito confortável em ser uma mulher em cargos estratégicos."

Flávia Tabata é supervisora de Produção da Montagem Final da Volkswagen na fábrica de Taubaté (SP)
Flávia Tabata é supervisora de Produção da Montagem Final da Volkswagen na fábrica de Taubaté (SP)
Foto: Volkswagen/Divulgação / Estadão

Para chegar a uma posição mais alta, no entanto, ela teve de enfrentar a autossabotagem por estar entre poucas mulheres líderes. "Diante da proposta para participar de um processo seletivo de liderança, eu duvidei de mim", lembra. "Então, eu acredito que as mulheres ainda têm receio de querer participar mais de cargos de gestão. Se tivermos medo porque tem muito homem (nesses cargos), nunca vai equilibrar esse jogo."

O tamanho do desequilíbrio entre homens e mulheres em cargos do segmento no mercado brasileiro aparece nos dados da pesquisa "Diversidade e ESG no Setor Automotivo", publicada pela plataforma especializada Automotive Business, em parceria com a MHD Consultoria. A amostra, de julho de 2025, contém, principalmente, informações mapeadas a partir de empresas de autopeças, montadoras e concessionárias.

Os números apontam gêneros equiparados na fase de estágio nas companhias, e mulheres ficando para trás à medida que aumenta a hierarquia. Como trainees ou estagiárias, mulheres chegam a ser maioria dos ingressantes, 55%. Os porcentuais caem drasticamente à medida que os cargos vão aumentando de escalão, como diretoras, CEOs e conselheiras: 18%, 15% e 14%, respectivamente.

A BMW no Brasil é um caso de exceção ao cenário numérico. Assim como na pesquisa, as mulheres são maioria entre os estagiários, 57%, mas o comando da empresa no País é exercido desde 2023 pela mexicana Maru Escobedo, primeira mulher a ocupar o posto na subsidiária brasileira.

Em nota enviada ao Estadão, a BMW afirma que "a igualdade de gênero é uma realidade crescente no BMW Group Brasil, que tem em sua liderança máxima uma mulher". "Entre as posições de liderança diretamente subordinadas a ela, 50% são ocupadas por mulheres. No escritório de vendas, 31% dos postos de liderança são femininos, enquanto nos níveis operacionais as mulheres representam 37% do quadro. A presença feminina é ainda mais expressiva entre estagiários, um indicativo de que as novas gerações estão impulsionando um futuro cada vez mais equilibrado e inclusivo dentro do grupo."

'Degrau quebrado'

A especialista Dhafyni Mendes, cofundadora da consultoria para lideranças femininas Todas Group, explica que o setor automotivo é historicamente masculinizado, desde o início da formação de profissionais ligados aos cursos de base técnica, como engenharias e exatas, tornando o ambiente mais desafiador para as mulheres.

Isso é agravado pelo fenômeno do "degrau quebrado", quando o contexto interfere na progressão de carreira das mulheres que conseguem entrar, havendo dificuldades de promoção no primeiro nível de liderança.

"Quando um homem é promovido e uma mulher que está no mesmo nível, não, imediatamente o gap (lacuna) começa a crescer. Automaticamente, na próxima promoção, existirão menos mulheres em cargos intermediários disponíveis para concorrer a cargos executivos, criando disparidade no topo."

Dhafyni Mendes, da Todas Group
Dhafyni Mendes, da Todas Group
Foto: Todas Group/Divulgação / Estadão

Com as mulheres em minoria, o chamado "viés da autoridade" é reforçado, quando elas ficam mais sujeitas a serem mais questionadas quanto às suas capacidades. "É necessário dar a essas mulheres ferramentas para que elas possam contribuir ao máximo com suas potencialidades. Ter mulheres como modelos de liderança inspiradoras também faz diferença para mostrar possibilidades, e ter também os homens engajados com a pauta, atentos às potencialidades das mulheres (é importante). Entender que esse problema existe já é um grande primeiro passo para resolução."

Responsável por mediar as contratações na Volkswagen, a gerente de Cultura, Diversidade e Inclusão, Evelyn Berti, já teve passagens por outras companhias automotivas como Renault e Nissan.

Com base em seu tempo de inserção no mercado, ela avalia que, por muito tempo, o segmento automotivo foi "uma caixa fechada", com mulheres conseguindo cargos mais altos em recursos humanos, vendas e marketing, enquanto funções consideradas de "competências críticas", como posições de engenharias, passavam por vieses que priorizavam homens no planejamento sucessório.

Segundo ela, com as montadoras expandindo suas bases no Brasil, foi possível de modo geral inserir mais mulheres. Recentemente, para a fábrica da Volkswagen de Taubaté, por exemplo, a produção dos carros SUV Tera gerou 260 novos empregos, dos quais 40% foram ocupados por mulheres, por meio de vagas afirmativas. Além de haver um trabalho de atração, o desafio é fazer com que essas profissionais vejam possibilidades reais de progressão de carreira.

Evelyn Berti é gerente de Cultura e Diversidade e Inclusão da Volkswagen do Brasil
Evelyn Berti é gerente de Cultura e Diversidade e Inclusão da Volkswagen do Brasil
Foto: Volkswagen/Divulgação / Estadão

Em 2022, a Volkswagen do Brasil firmou uma parceria com o Bradesco para captação de R$ 500 milhões vinculados a metas de ESG, incluindo o aumento de mulheres na liderança.

O acordo estabeleceu que, até 2024, a presença feminina em cargos executivos deveria subir para 26%, e para 25% nos cargos de gerência. A medida foi listada como uma das ações de aceleração de lideranças femininas. A empresa não informou, porém, se o objetivo numérico foi atingido.

"Muitas vezes as mulheres vêm para aqui ou vão para qualquer montadora, mas entendem que, mesmo estando ali, o espaço é delimitado", avalia Berti. "Elas muitas vezes não se veem em posições maiores, porque olham para o board (conselho de administração), por exemplo, (para) o nosso, e nós temos duas mulheres. Há quatro anos, tínhamos uma. É um trabalho que estamos construindo, mas tivemos que fazer esse exercício de puxar essas mulheres e fazer com que elas acreditassem que podiam crescer aqui."

Debatendo para avançar

Dirigida por um homem, o executivo Gonzalo Ibarzábal, a Nissan Brasil realizou, em setembro, a quinta edição do encontro Nissan Mulheres. O evento é realizado anualmente para incentivar o debate e a reflexão sobre os desafios enfrentados pelas mulheres em suas carreiras no setor, além de compartilhar resultados das ações para equidade desenvolvidas pela montadora.

Gonzalo Ibarzábal é presidente da Nissan do Brasil
Gonzalo Ibarzábal é presidente da Nissan do Brasil
Foto: Nissan/Divulgação / Estadão

Entre 2021 e 2025, a participação de mulheres nos cargos efetivos da empresa no Brasil cresceu de 19% para 24%. No Complexo Industrial de Resende (RJ), o número de trabalhadoras saiu de 9,6% para 21%. Nos cargos de liderança (diretoras e gerentes), as mulheres somam, neste ano, 22,5%.

"Acreditamos que a diversidade tem distintas vozes, distintas opiniões, distintos pensamentos. Ser uma companhia mais inclusiva (significa) para nós ser uma companhia mais sólida, forte, mais criativa, tendo um negócio muito melhor para o futuro", diz Ibarzábal. "Fico muito confortável também com os líderes da companhia a nível geral, porque eu sei que Guy Rodríguez (CEO da Nissan na América Latina) e meus companheiros têm essa mesma forma de pensar."

Um dos meios que a companhia tem buscado para aumentar o número de mulheres na empresa é ter programas de atração de talentos femininos nas universidades e ações para retenção.

A diretora regional de Comunicação Corporativa para a América Latina, Luciana Herrmann, faz parte do comitê global que discute essas políticas.

Luciana Herrmann, diretora regional de Comunicação Corporativa para a América Latina na Nissan (de branco), em painel da Nissan Mulheres
Luciana Herrmann, diretora regional de Comunicação Corporativa para a América Latina na Nissan (de branco), em painel da Nissan Mulheres
Foto: Nissan/Divulgação / Estadão

"É uma indústria machista, sim, mas porque vem de base, porque é uma indústria relacionada à produção, à engenharia, a áreas que normalmente não existem tantas mulheres que participam em cursos ou estão interessadas nesse tipo de formação", analisa. "(As políticas para equidade de gênero) são importantes porque elas permitem que criemos um ambiente propício ao desenvolvimento de mulheres, para que não exista preconceito."

Estadão
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