Missão europeia visita MS após lei anti-desmate; agro não tem motivo para temer, diz embaixadora
Eva Pedersen, da Dinamarca, integrou a missão da União Europeia despachada a um dos principais Estados exportadores de produtos do agronegócio brasileiro, num momento de desconfiança de lado a lado
BRASÍLIA - Após adotar uma nova lei ambiental que bane produtos originários de áreas desmatadas, a União Europeia despachou uma missão diplomática ao Mato Grosso do Sul, um dos principais celeiros de grãos do Brasil. Dos 27 países do bloco, dez mandaram representantes. A viagem de três dias, que se encerra neste sábado, dia 27, envolveu discussões com autoridades locais, como o governador Eduardo Riedel (PSDB), e reuniões com representantes do setor agroindústria.
Uma das embaixadoras presentes, Eva Pedersen, da Dinamarca, afirmou ao Estadão que a nova legislação europeia para banir produtos ligados ao desmatamento não foi feita sob medida para atingir o Brasil e que a maior parte das empresas brasileiras não tem motivo para preocupação. (Leia a entrevista abaixo).
"A maioria dos produtores agrícolas brasileiros não tem com que se preocupar, porque está cumprindo o regulamento europeu. Acho que não vamos ver tantos problemas como vem sendo falado. A Dinamarca quer ajudar nessa implementação", disse a embaixadora dinamarquesa.
Além dela, participam da missão os embaixadores de União Europeia, Portugal, Suécia, Bélgica, Croácia, República Tcheca, Chipre, Malta, o encarregado de negócios da Polônia e a cônsul-geral da Lituânia. Antes, uma comissão de parlamentares europeus também visitou o País para discussões com o setor público e privado. Eles foram recebidos pelo vice-presidente Geraldo Alckmin.
Cinco perguntas para Eva Pedersen, embaixadora da Dinamarca no Brasil
Ainda há muita desconfiança na Europa com relação às práticas de sustentabilidade do agronegócio brasileiro?
Houve declarações do presidente Lula antes de assumir o poder sobre as ambições de trabalhar contra o desmatamento. Isso foi muito bem recebido. Nós estamos vendo que o Brasil está de volta, como todos falam. Há uma confiança muito grande que o Brasil quer mudar, reverter e melhorar esses aspectos. A Dinamarca tem grande interesse em trabalhar com o Brasil na área de clima em geral. Estamos estudando uma parceria na área de agricultura sustentável, porque faz parte da agenda política do governo. Temos feito reuniões com o ministro Carlos Fávaro, da Agricultura, e queremos com Marina Silva, do Meio Ambiente. Estamos conhecendo as capacidades da Embrapa, que são fenomenais nas pesquisas. O agro sustentável é possível. E o interessante é que o governo brasileiro também quer isso. A Dinamarca é um país pequeno, mas 60% do nosso território é área de cultivo, e a sustentabilidade é uma preocupação nossa.
O Brasil vai ser atingido pela nova lei anti-desmatamento?
Não é por que o Brasil é o maior produtor. O desmatamento repercutiu muito na Europa. A lei da União Europeia, o Deforestation Free Products, que desperta uma preocupação no Brasil, se deve ao consumidor europeu no geral. Eles têm essa sensação de que estamos atuando na Europa, mas não adianta trabalhar em casa e exportar as emissões, lidar mal com o que a gente importa. O problema climático é global. Esse é um olhar europeu, e também temos essas vozes de preocupação na Dinamarca. A maioria dos produtores agrícolas brasileiros não tem com que se preocupar, porque a grande maioria está cumprindo o regulamento europeu. Às vezes é mais uma coisa política. Na implementação, acho que não vamos ver tantos problemas como vem sendo falado. A Dinamarca quer ajudar nessa implementação.
O governo brasileiro teme que a lei contra o desmatamento afete o acordo de comércio do Mercosul com a União Europeia. O Itamaraty diz que as exigências ambientais são muito duras. Essa reação já era esperada? Pode atrapalhar a assinatura do acordo?
Não quero comentar essas declarações, porque a negociação é feita pela União Europeia. O acordo político ocorreu em 2019, e os números do clima não melhoraram desde então. Queremos evitar que a Europa exporte problemas climáticos. Não adianta a gente fazer tudo rigorosamente na Europa se a gente importa de outros países. Dessa forma a gente exporta o problema. Não é solidário com os outros países, nem é bom para o clima global. Esses instrumentos não foram feitos como barreira, e aliás se aplicam também na Europa. Certas coisas precisam de uma visão global, do contrário não tem efeito. Esse é o raciocínio por trás desses instrumentos criticados. A Dinamarca quer muito ver o acordo acontecer. Estamos com a comissão, apoiando as propostas, mas queremos um equilíbrio. Na situação global em que estamos, queremos ter parceiros.
O acordo será assinado neste ano?
É complicado avaliar. Mas posso dizer que na Dinamarca queremos que aconteça. É uma prioridade também da presidência sueca na União Europeia, e da próxima da Espanha. Foi mencionado no comunicado da visita de Lula a Portugal. Vamos ficar com essas ambições. Seria muito bom para a Europa e para o Mercosul.
Por que visitar o Mato Grosso do Sul?
Nossa ideia é fazer uma viagem anual, sair de Brasília para conhecer outros Estados. Fomos conhecer o Mato Grosso do Sul, falar com o governador e entender melhor o Estado, que é importante na área da agricultura. Precisamos expandir um pouco nossas perspectivas como bloco.