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Mercado já prevê crescimento do PIB de 0,4% em 2022; BC diz que levará Selic 'aonde precisar'

Com crise política, inflação em alta e crise hídrica, economistas de instituições financeiras revisam para baixo a estimativa de crescimento da economia neste ano e no ano que vem; Itaú vê aumento de apenas 0,5% em 2022

14 set 2021 13h25
| atualizado em 15/9/2021 às 08h19
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BRASÍLIA - Derreteram rapidamente as projeções de bancos e consultorias para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e já há apostas de alta de apenas 0,4% em 2022. Não está descartada a possibilidade de uma pequena recessão no rastro do aperto maior de juros que o Banco Central está tendo que fazer para debelar a inflação.

O cenário de esfriamento da atividade econômica é uma ducha de água fria para o presidente Jair Bolsonaro, que já esperava chegar no ano eleitoral com a retomada do crescimento do PIB em franca recuperação.

Essa segunda onda forte de revisão das previsões de PIB foi puxada pelo Itaú Unibanco que cortou numa tacada um ponto porcentual da sua estimativa de crescimento para 2022, de 1,5% para 0,5%.

A consultoria MB Associados, com larga experiência no acompanhamento do "Brasil real", foi ainda mais agressiva no corte da previsão do PIB, que passou de 1,4% para 0,4%. A XP Investimentos reduziu de 1,7% para 1,3% o crescimento, e o Banco BV de 1,8% para 1,5%.

Na última segunda, o BTG já tinha reduzido a previsão para o próximo ano de 2,2% para 1,5% porque espera juros mais altos, por volta de 8,5%, para reduzir a inflação. Se a taxa Selic subir além de 8,5%, o BTG avalia que terá que reduzir mais uma vez o crescimento de 2022.

O Santander também está em processo de revisão do PIB, com projeção nova marcada para sair na quinta-feira. O banco está com uma estimativa atual de alta de 2%, que deve cair. Na segunda-feira, a pesquisa Focus do BC (feita com os analistas do mercado financeiro), apontava uma alta do PIB mais próxima de 2%, em 1,72%.

Pressionado pelo mercado e pelo governo com a disseminação e persistência da inflação, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, disse que vai levar a Selic aonde for preciso para controlar a alta de preços, mas que não vai mudar o "plano de voo de política monetária" a cada número novo de alta frequência de inflação que for divulgado.

"Não tem puxador de PIB. Não é fora de propósito uma pequena recessão no ano que vem. Não dá mais tempo para mudar", disse ao Estadão o economista José Roberto Mendonça de Barros, da consultoria MB Associados. O diagnóstico é ruim: as exportações não vão aumentar mais, o crédito está pressionado pelos juros em alta, o consumo esfriando e os investimentos continuarão baixos.

A agricultura, que teve crescimento no primeiro trimestre porque a safra de verão da soja foi muito boa, já não responde da mesma forma. Para complicar, a seca e três geadas num único mês piorou o quadro, que se juntam aos efeitos da crise hídrica e uma difusão da inflação acima de 70%. A previsão da MB para a Selic - que estava um pouco acima de 6% - agora é de 8,3%.

Com a entrada da nova bandeira de energia em setembro, prevê Mendonça de Barros, o IPCA deve fechar em 1% no mês e no acumulado em 12 meses passar de 10%. ara Mendonça, o BC vem correndo "atrás da curva" (termo usado no jargão do mercado para dizer que está atrasado no processo de alta) desde o ano passado e vai agora puxar os juros para cima.

Mendonça de Barros avalia que esse cenário é um "desastre" para os planos de reeleição do presidente Bolsonaro. "As agressões ao regime democrático maximizaram o efeito dos desarranjos fiscais e antecipou a eleição", disse.

Segundo o economista da XP Rodolfo Margato, o principal fator que levou a redução da estimativa de PIB para 1,3% foi o aperto da política de juros mais intenso para o controle da inflação. A XP elevou a expectativa de juros de 7,25% para 8,5%. "Essa alta corrói as condições de financiamento, o que pesa sobre os níveis de investimento e consumo, especialmente de bens duráveis", explica Margato.

Segundo a XP, o principal risco no seu radar para 2022 é a crise hídrica, já que o seu cenário-base não considera a ocorrência de racionamento no País. Os cálculos da corretora sinalizam que cada 10% de redução forçada no consumo de energia ao longo de um ano teria potencial de retirar até 1,2 ponto porcentual do PIB.

"Para o próximo ano, tem uma elevação das incertezas sobre o desempenho da atividade econômica. Não dá para descartar uma recessão técnica", disse Margato. O cenário básico da corretora estima crescimento de 0,3% do PIB no primeiro trimestre de 2022, seguido por expansão de 0,1% no segundo trimestre, queda de 0,2% no terceiro e crescimento de 0,2% no quarto trimestre.

A deterioração adicional das condições políticas e fiscais, aumentando o grau de incerteza e reduzindo a liquidez da economia, também é um risco para a atividade. O cenário da XP indica uma probabilidade de 10% a 15% que a exclusão dos precatórios devidos pelo governo do teto dos gastos ocasione a exclusão também de outras despesas, como o Bolsa Família.

A deterioração das perspectivas para a inflação piorou o quadro econômico e causou uma série de revisões no cenário também do banco BV (ex-Banco Votorantim). A projeção para o IPCA saltou de 7,7% para 8,2% em 2021 e de 3,6% para 3,8% em 2022. A estimativa para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022, por sua vez, recuou de 1,8% para 1,5%.

"Tínhamos a visão de que o dólar e as matérias-primas geravam choques temporários, mas mudamos a leitura a partir dos dados recentes de inflação", afirma o economista-chefe do BV, Roberto Padovani. "A inflação de serviços acelerou pela reabertura, mas a de bens industriais continuou pressionada. Esse acúmulo de choques jogou o IPCA em um patamar próximo de 10%, e o nível importa."

A inflação acumulada no patamar atual, segundo Padovani, reforça os reajustes de contratos e gera uma inércia que contamina as expectativas para 2022 e 2023. Como a deterioração inflacionária deve exigir mais do Banco Central (BC), o BV elevou de 7,5% para 9,0% a projeção da Selic no fim do ciclo. A taxa de juros deve chegar a 8,5% no fim deste ano e atingir o patamar estimado na primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) em 2022.

"O BC vai ter que subir os juros até 9,0%. O ritmo ele escolhe. Esse aperto monetário vai ser reforçado por uma piora nas condições financeiras, que nos fez mudar o cenário de crescimento em 2022 [de 1,8% para 1,5%]", afirma o economista.

Já o ministro da Economia, Paulo Guedes, chamou de "rolagem de desgraça" o pessimismo de economistas e outros agentes em relação às medidas do governo. Ele disse que, não fosse o que ele chama de "barulho político", o câmbio de equilíbrio no Brasil estaria hoje entre R$ 3,80 e R$ 4,20 - a moeda americana fechou hoje em R$ 5,26. "Esse dólar já era para estar descendo, mas barulho político não deixa descer. Não tem problema [dólar mais alto], mais tempo para exportações. O importante é continuar fazendo tudo certo", afirmou, em evento promovido pelo BTG Pactual. /COLABORARAM EDUARDO RODRIGUES, THAÍS BARCELLOS, IDIANA TOMAZELLI, LORENNA RODRIGUES, CÍCERO COTRIM, MARIA REGINA SILVA E GUILHERME BIANCHINI

Estadão
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