Lula vai anunciar R$ 30 bi em crédito para veículos a motoristas de app e taxistas, alvos eleitorais
Lançamento nesta terça-feira, 19, ocorre após governo sofrer derrota ao não conseguir aprovar no Congresso regulamentação do trabalho por aplicativo; motoristas ainda negociam com o governo o número mínimo de corridas para ter acesso ao crédito
BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai lançar nesta terça-feira, 19, o programa Move Aplicativos, que busca financiar veículos para motoristas de aplicativo. O evento será realizado na Casa de Portugal, no bairro da Liberdade, em São Paulo (SP), às 15h30.
O lançamento da linha de crédito ocorre após o governo sofrer uma derrota ao não conseguir aprovar no Congresso a regulamentação da atuação dos trabalhadores por aplicativo. A intenção é conseguir ter o setor, considerado próximo do bolsonarismo, próximo a Lula nas eleições.
A nova linha de crédito, que prevê R$ 30 bilhões em recursos públicos, é voltada a motoristas de aplicativo e taxistas e traz condições especiais para financiamento e manutenção de veículos, além da criação de capital de giro. Segundo apurou o Estadão/Broadcast, serão oferecidas taxas de juros inferiores à Selic, carência de até seis meses e prazos de financiamento de até 72 meses.
Como mostrou o Estadão, o governo Lula já anunciou até o momento R$ 140 bilhões em bondades e estímulos à economia em ano eleitoral.
No lançamento do programa em São Paulo, o Planalto espera a presença de aproximadamente 500 pessoas, entre representantes do governo, motoristas de aplicativos, taxistas e demais atores relacionados ao setor automotivo e de mobilidade urbana. O governo justifica que há uma demanda reprimida por veículos nos segmentos de corridas de aplicativo e táxis.
Segundo estudo do Instituto Datafolha realizado em 2025 com motoristas ativos no aplicativo Uber, 87% dos condutores estão interessados em comprar ou trocar de carro nos próximos três anos, sendo que 88% pretendem financiar e apenas 12% deles possuem intenção de pagar à vista. Entre quem não pretende trocar, a principal razão apontada é que o carro atual ainda está novo.
Além disso, três em cada quatro motoristas (74%) são proprietários do veículo, sendo que pouco mais da metade deles (56%) ainda está pagando, com prazos geralmente acima de três anos. Entre aqueles que não são proprietários, mais da metade (57%) usa veículo de uma empresa e a maioria paga aluguel pelo uso (73%).
Motoristas negociam número mínimo de corridas
Motoristas de carros de aplicativos ainda negociam com o governo Lula o número mínimo de corridas para ter acesso ao crédito do programa.
A reportagem apurou que os sindicatos que representam os motoristas defendem um número de corridas maior do que o proposto pelo governo - 100 corridas nos últimos 12 meses, o equivalente a pouco mais de 8 corridas por mês. Pessoas a par das negociações relataram que esse número é pequeno e possível de ser feito em até dois dias. A categoria defende que sejam exigidas mais corridas para contemplar os motoristas mais ativos nas plataformas.
Segundo interlocutores, a taxa de juros para os motoristas de aplicativos será de 0,99% ao mês (12,55% ao ano), enquanto a taxa para os taxistas deverá ficar em 0,95% ao mês (11,40% ao ano), ambas abaixo da Selic, hoje em 14,5% ao ano. As duas categorias deverão ter direito ao financiamento de veículos de até R$ 150 mil.
O lançamento da linha de crédito vem na esteira das medidas lançadas pelo governo mirando as eleições, como o Novo Desenrola e o crédito para microempreendedores individuais (MEIs) de baixa renda.
No caso dos taxistas, a categoria vinha defendendo a retomada do financiamento via Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), com juros acessíveis, para a renovação da frota. A modalidade já existia, mas foi encerrada em 2022.
Regulamentação frustrada
No ano passado, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, criou um grupo de trabalho que reuniu lideranças do setor para criar um relatório com as reivindicações deles.
Os principais pedidos foram a elevação do piso de serviço para R$ 10, adicional por distância de R$ 2,50 por quilômetro rodado e pagamento integral de rotas agrupadas.
Os pedidos não foram incluídos no texto que tramita na Câmara, relatado pelo deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE). Além disso, o governo recebeu o indicativo de que a proposta não será votada em 2026, por falta de consenso entre as empresas e os trabalhadores e a proximidade das eleições. O Planalto credita o engavetamento pelo lobby dos grandes aplicativos.
Anfavea pede que programa limite uso de recursos para importados
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) defendeu ao governo federal que veículos importados não sejam elegíveis no novo programa.
Em ofício ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a associação dos fabricantes nacionais expressou preocupação com a possibilidade de que veículos importados também tenham acesso irrestrito às condições favorecidas do novo programa, "sobretudo considerando a relevância que esses veículos já possuem no mercado brasileiro".
Segundo a Anfavea, atualmente, os importados representam aproximadamente 19% dos emplacamentos totais do País e cerca de 25% das vendas no varejo, demonstrando crescimento constante de participação no mercado nacional.
"Dessa forma, entendemos que a utilização de recursos incentivados em benefício de veículos importados pode representar um precedente sensível sob a ótica do fortalecimento da indústria nacional", disse a entidade.
A Anfavea frisou que, historicamente, as linhas de crédito incentivadas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foram estruturadas com foco no fortalecimento da produção nacional, da cadeia de fornecedores instalada no País e da preservação dos empregos associados à indústria brasileira. E lembrou que esse direcionamento esteve presente em programas recentes destinados aos segmentos de caminhões, ônibus e máquinas.
"Recursos do BNDES devem priorizar empresas que gerem valor agregado, emprego, inovação e capacidade produtiva no território nacional, em consonância com os objetivos constitucionais da política de desenvolvimento industrial brasileira", defendeu. "Sem contrapartidas locais claras, há risco de desvirtuamento do acesso ao crédito, com estímulo à importação, redução do efeito multiplicador doméstico, perda de arrecadação futura e enfraquecimento do adensamento produtivo nacional", completou.
Em um meio termo, a entidade sugeriu que, caso o entendimento do governo seja pela manutenção da elegibilidade de veículos importados no programa, sejam definidos limites específicos para a utilização dos recursos financeiros destinados a esses veículos.
Por fim, a associação reforçou a importância de que o BNDES e os agentes financeiros estejam "operacionalmente preparados para a implementação célere do programa, de forma a evitar descontinuidade ou paralisação das vendas no mercado durante a fase inicial de implementação".
De modo geral, a Anfavea entende que a medida tem potencial de impulsionar a atividade econômica e ampliar o acesso à frota. E disse ao governo que suas associadas recebem a iniciativa de forma positiva e "certamente avaliarão condições comerciais competitivas e atrativas ao consumidor final".
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