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Lula agradece ao Uruguai pela 'cessão' ao Brasil de cota de exportação de carne à China

Volume cedido ao País sem tarifa extra é de aproximadamente 80 mil toneladas, apurou o Estadão/Broadcast

21 set 2026 - 18h54
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Resumo
O presidente Lula agradeceu ao Uruguai pela cessão de cerca de 80 mil toneladas de sua cota de carne bovina para a China, permitindo ao Brasil exportar sem sobretaxa após quase esgotar seu limite. A transferência, que ainda depende do aval de Pequim, visa aliviar o freio nos embarques brasileiros após a imposição de cotas pelos chineses. O setor comemora a iniciativa, mas avalia que os impactos serão mais relevantes a partir de 2027 devido aos prazos logísticos.

SÃO PAULO E BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva agradeceu hoje, na rede social X, ao presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, a disposição de o país latino-americano liberar o uso do excedente de sua cota de exportação de carne bovina para a China. Ambos tiveram um encontro bilateral em Nova York, nos Estados Unidos, no contexto da semana de Alto Nível da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

"Agradeci a autorização concedida ao Brasil para uso do excedente da cota uruguaia de exportação de carne bovina para a China", disse Lula no X. O presidente não detalhou, porém, se a costura foi avalizada pela China, que faz a gestão das cotas entre os países.

O volume cedido pelo Uruguai ao Brasil para uso da cota de exportação de carne bovina à China sem tarifa extra é de aproximadamente 80 mil toneladas, apurou o Estadão/Broadcast.

O presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, se reuniu com Luiz Inácio Lula da Silva em Nova York, antes da Assembleia-Geral da ONU
O presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, se reuniu com Luiz Inácio Lula da Silva em Nova York, antes da Assembleia-Geral da ONU
Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República / Estadão

No fim do ano passado, a China delimitou cotas de exportação de carne bovina aos países fornecedores da proteína, sob o argumento de proteger a pecuária local, que reclamava de excesso de produto importado no mercado interno, o que estaria tirando a competitividade a atividade.

Para o Brasil, a China instituiu uma cota de 1,106 milhão de toneladas de carne bovina para 2026, com sobretaxa de importação de 55% sobre o que ultrapassasse esse limite - em 2025, o Brasil havia exportado 35% mais, com o recorde de 1,7 milhão de toneladas, conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/MDIC). Dados mais recentes do Ministério do Comércio da China (Mofcom), de 11 de agosto, davam conta de que o Brasil já havia preenchido 90% da cota.

Já para o Uruguai, a cota estipulada pelos chineses é de 324 mil toneladas, das quais menos de 25% foram utilizadas até a metade do ano, segundo dados do Mofcom. Desta forma, o Brasil poderia cobrir parte deste volume não atendido pelo Uruguai.

Com a instituição da cota, o Brasil bateu recorde de exportação de carne bovina para a China no primeiro semestre, numa "corrida" para vender a proteína sem sobretaxa ao seu principal importador. Entretanto, números da Secex/MDIC já mostram desaceleração dos embarques no segundo semestre, estratégia que os frigoríficos adotaram para não correr o risco de cargas chegarem aos portos chineses depois do preenchimento da cota - sujeitos, portanto, à sobretaxa de 55%.

Desde que as cotas foram anunciadas pela China, em 31 de dezembro de 2025, o então ministro da Agricultura, Carlos Favaro, já havia aventado a possibilidade desse "remanejamento" de cotas.

"As cotas foram estabelecidas de maneira igual para todo mundo (com base no market share de mercado de importação dos últimos três anos). O que vamos tratar com a China é se um país tem uma cota e não conseguir cumprir, o Brasil pode assumir essa cota. Os Estados Unidos, por exemplo, não exportaram à China em 2025", disse na ocasião o ministro ao Estadão/Broadcast.

Procurado, o Ministério da Agricultura não se manifestou até esta publicação.

Apesar da tratativa bilateral com o Uruguai, ainda há dúvidas no setor privado e no governo se haverá concordância da China para avalizar a concessão das cotas entre os países.

Como o volume é considerado "pequeno", interlocutores acreditam que há possibilidade de a China aceitar a transferência das cotas já que a quantidade tende a não afetar o mercado doméstico chinês e não extrapola o volume total estipulado na salvaguarda.

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) disse, em nota, que toda a iniciativa que possa ampliar o acesso da carne bovina brasileira ao mercado chinês é positiva.

"Neste momento, porém, um eventual aproveitamento do excedente da cota uruguaia teria efeito limitado em 2026, considerando o tempo necessário para negociação, embarque e trânsito da mercadoria até a China", afirmou a entidade.

Conforme a Abiec, para 2027, o excedente da cota do Uruguai "pode representar uma alternativa importante, especialmente diante da cota brasileira de 1,128 milhão de toneladas e do risco de seu esgotamento já nos primeiros meses do ano, caso se mantenha o atual ritmo de vendas". A Abiec afirma defender previsibilidade e mecanismos que permitam distribuir melhor os embarques ao longo do ano, "preservando o fluxo comercial com o principal destino da carne bovina brasileira".

Estadão
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