Keeta adia a entrada no Rio e aponta mercado restrito por contratos com iFood e 99Food
Empresa é subsidiária internacional da gigante chinesa Meituan, a maior do delivery no mundo; o iFood contesta que o mercado 'esteja fechado à concorrência devido aos contratos de exclusividade'
RIO - A plataforma de delivery de comida Keeta, subsidiária internacional da gigante chinesa Meituan, a maior do ramo no mundo, anunciou nesta quinta-feira, 26, o adiamento dos planos de expandir sua atuação para o Rio de Janeiro. Com a decisão, posterga também todo o projeto de ampliação do serviço para o restante do Brasil.
O começo da operação no Rio de Janeiro estava previsto para a próxima semana. A companhia atribuiu o adiamento ao amplo alcance das cláusulas de exclusividade contratadas por outras plataformas de delivery, como 99Food e iFood, com as redes de restaurantes. O problema já tinha sido detectado na operação da Keeta em São Paulo.
Procurados pelo Estadão/Broadcast, o 99Food não respondeu, e o iFood disse, em nota, que "é incorreto afirmar que o mercado de delivery da cidade do Rio de Janeiro esteja fechado à concorrência devido aos contratos de exclusividade" (leia mais abaixo).
O iFood lembrou que é proibido de assinar contratos com grandes redes de restaurantes e não pode ter mais do que 8% de estabelecimentos exclusivos na cidade. "Além disso, há exceções que permitem contratos com prazo superior a dois anos quando o iFood faz investimentos que geram o crescimento para o restaurante parceiro", afirmou. "Essas regras estão previstas em acordo firmado pela plataforma com o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que está sendo cumprido em sua totalidade. Nos causa estranheza que os contratos de exclusividade estejam impactando uma determinada plataforma, sem atingir outros concorrentes que seguem investindo na cidade e expandindo suas operações."
O vice-presidente de Parcerias Estratégicas da Keeta Brasil, Danilo Mansano, disse que "começou a coletar mais evidência da complexidade e disfuncionalidade com que o mercado opera com relação às exclusividades".
"São restaurantes que não podem operar com a Keeta, porque têm um contrato travando eles a uma das plataformas", afirmou Mansano. "E no caso do iFood são redes menores. O iFood tem uma determinação do Cade que não pode ter contrato de exclusividade com redes com mais de 30 restaurantes. E, no caso da 99Food, são redes de todos os tamanhos, mas o contrato deles bloqueia exclusivamente a Keeta. Então, no caso do iFood é bloqueio de mercado, e do 99Food é mirando especificamente parcerias com a Keeta."
A chegada da Keeta
A Keeta chegou ao Brasil no ano passado, com um investimento anunciado de R$ 5,6 bilhões no País ao longo de cinco anos. A operação em São Paulo teve início em 1º de dezembro, com um investimento de R$ 1 bilhão.
A plataforma já atua nos municípios de São Paulo, Guarulhos, São Bernardo do Campo, Santo André, São Caetano do Sul, Osasco, Barueri, Diadema e Itaquaquecetuba. A entrada no Brasil começou com operações de teste em Santos e São Vicente.
O plano de atuar no Rio de Janeiro prevê um investimento de R$ 400 milhões. Segundo a Keeta, o compromisso de longo prazo de investimentos de R$ 5,6 bilhões no Brasil "permanece firme e inalterado".
"A gente nunca crava datas de lançamento com tanta antecedência, porque o que determina o lançamento de uma cidade são as condições para que consumidores sejam bem atendidos, com a oferta de restaurante buscada por eles na plataforma, entregadores tenham condição de aumentar os seus ganhos junto a operar com a Keeta, e obviamente estabelecimentos comerciais tenham um ganho de receita incremental ao operar com a gente. Quando esses fatores se alinham, a gente crava uma data de lançamento", explicou o executivo. "Ao cancelar o Rio, a gente viu que o fator de base de restaurantes não ia ser atingido por conta de exclusividade, apesar de já ter mais de 17 mil restaurantes cadastrados aqui no Rio de Janeiro. São mais de 27 mil entregadores já prontos para poder trabalhar no Rio de Janeiro."
Segundo o executivo, a companhia apurou durante o cadastramento de restaurantes que mais de 50% das redes de estabelecimentos estavam com bloqueio em contrato que impedia a prestação do serviço via Keeta.
"O consumidor é quem paga a conta do delivery. Se a gente não tiver isso, como é que a gente vai garantir bons ganhos para os entregadores, bons ganhos para os restaurantes? Inclusive, os restaurantes menores dependem de ter grandes marcas, marcas conhecidas, pelo menos no aplicativo. A analogia que eu faço é a de uma praça de alimentação do shopping. O restaurante menor não acha ruim ter um McDonald's na parte de alimentação, porque ele sabe que o McDonald's traz tráfego para a praça do shopping e ele se beneficia disso. É exatamente igual o modelo", explicou Mansano.
A empresa foi à Justiça contra as cláusulas de banimento contratadas pela 99Food. Outro questionamento semelhante tramita no Cade. No dia 20 de outubro, a 3ª Vara Empresarial de São Paulo proferiu decisão favorável à Keeta, mas houve recurso, e o caso agora será apreciado em segunda instância.
"A gente acredita que o mercado é aberto, tem de ser aberto. A gente acredita que o sucesso do mercado depende do sucesso do restaurante, e o restaurante deveria poder trabalhar com qualquer plataforma que ele quisesse, inclusive todas", defendeu Mansano. "Se eu tenho 10 restaurantes de que eu gosto e eu não encontro cinco deles na Keeta, isso pode ser um fator detrator no médio e no longo prazos. E a gente prefere resolver isso agora do que deixar lá na frente. Lá na frente vai sair muito mais caro isso."
Os investimentos da chinesa no Brasil previam uma cobertura de 80% do perímetro urbano brasileiro em até cinco anos.
"Obviamente o ritmo que isso vai acontecer é determinado muito por alcançar essas métricas de performance, base mínima de entregadores, base relevante de qualidade de restaurantes e de consumidores. O que a gente viu que é estrutural e que vai ser relevante para todas as cidades que a gente pensa lançar é isso, é que, se tem uma exclusividade com uma taxa acima de 50% como é hoje no mercado brasileiro, isso vai inviabilizar a gente chegar nesses parâmetros de qualidade para lançamento de cidades. Então, a gente tem que focar nisso agora. Isso é a prioridade", afirmou.
Segundo o executivo, além da tecnologia, a Keeta tem como diferenciais ante a concorrência uma taxa de comissão cobrada de restaurantes entre 2 a 3 pontos porcentuais abaixo da média do mercado, uma plataforma que não cobra mensalidade e pagamento de recebíveis aos restaurantes em sete dias, consideravelmente menos que os 30 dias da média do setor.
Desde o começo da operação da Keeta nos municípios da região metropolitana de São Paulo, em dezembro, a empresa registrou um crescimento de 40% na base de restaurantes, passando de 27 mil estabelecimentos cadastrados para 38 mil. A base de entregadores subiu de 98 mil no dia de lançamento para 115 mil trabalhadores atualmente.
"Do ponto de vista de clientes, a gente hoje já acumula mais de 2,8 milhões de downloads na capital paulista", concluiu Mansano.
Os resultados da Meituan no 3º trimestre de 2025
Na divulgação dos resultados do terceiro trimestre do ano passado, a Meituan reportou prejuízo, apesar do aumento de 2% nas receitas, que alcançaram RMB 95,5 bilhões (cerca de US$ 14 bi, ao câmbio desta quinta-feira, 26), ante RMB 93,6 bilhões no mesmo período de 2024.
"Devido à intensificação contínua da concorrência no setor de entrega de alimentos, o lucro operacional do nosso segmento Core Local Commerce diminuiu significativamente, tornando-se negativo em RMB 14,1 bilhões (cerca de US$ 2 bi) no terceiro trimestre de 2025 em relação ao ano anterior", apontou a Meituan, no relatório de anúncio de resultados trimestrais, divulgado em 28 de novembro.
"Entretanto, o prejuízo operacional do nosso segmento de Novas Iniciativas aumentou para RMB 1,3 bilhão (US$ 190 milhões) devido à expansão no exterior em comparação com o ano anterior. Como resultado, nosso EBITDA (Lucros Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização) ajustado e lucro líquido ajustado diminuíram em relação ao ano anterior, registrando valores negativos de RMB 14,8 bilhões (US$ 2,2 bi) e RMB 16,0 bilhões (US$ 2,3 bi), respectivamente, neste trimestre", completou a gigante chinesa, sobre operações no exterior.