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Inflação alta assombra Trump e os republicanos na véspera da eleição de meio de mandato

A reação negativa aos altos preços favoreceu os republicanos em 2024; agora, pode ser a origem da própria ruína do partido

31 out 2026 - 09h50
(atualizado às 09h55)
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Resumo
A alta da inflação ameaça a maioria republicana no Congresso nas eleições de meio de mandato. Apesar do crescimento econômico do país, o aumento constante no custo de itens básicos e as tarifas de importação impostas por Donald Trump superaram os ganhos salariais. O presidente tenta promover uma narrativa de força econômica e minimizar a crise, mas o descontentamento popular com promessas não cumpridas para baratear o custo de vida deixa o partido vulnerável em redutos históricos.

WASHINGTON — Na última terça-feira antes das eleições de meio de mandato, o presidente Donald Trump estava em Corpus Christi, no Texas, refletindo em voz alta sobre as forças políticas que impulsionaram seu retorno ao cargo dois anos antes.

"Fui eleito por causa dos preços altos", disse ele aos participantes de um comício em um estado que se tornou palco de uma disputa pelo Senado inesperadamente acirrada. Em seguida, o presidente voltou sua ira contra os democratas: "Não fui eu quem causou os preços altos. Foram eles."

Para Trump, o que antes era uma fonte de força política agora ameaça derrubar os republicanos em 2026. O destino do controle do Congresso pelo partido pode depender, em grande parte, da intensidade da revolta dos eleitores com o aumento do custo de vida — e das promessas não cumpridas do presidente de tomar providências a respeito.

A preocupação entre os republicanos tem ficado evidente à medida que Trump percorre o país em uma maratona de campanha de última hora. Ele tem tentado apresentar a economia como forte, em crescimento e repleta de novos investimentos, ao mesmo tempo em que minimiza a nova aceleração da inflação durante seu governo.

Oferecendo um panorama final da situação econômica antes do dia da eleição, uma série de relatórios governamentais divulgados na quinta-feira confirmou algumas das alegações de Trump, enquanto refutou outras.

Os dados mostraram que a economia estava, de fato, expandindo-se em um ritmo mais acelerado, com o PIB real crescendo a uma taxa anualizada de 3,4% no terceiro trimestre. No entanto, os preços também aceleraram, subindo mais rapidamente em setembro na comparação com o ano anterior e continuando a superar os ganhos salariais.

Como resultado, a mensagem de Trump contrastou com a experiência dos eleitores, que vivenciam diariamente a dura realidade de uma economia com custos elevados — ao abastecerem seus veículos, fazerem compras de supermercado, pagarem planos de saúde, receberem as faturas de cartão de crédito ou enfrentarem as dificuldades relacionadas à casa própria.

Após suportarem quase dois anos de tarifas elevadas, tensões geopolíticas e outros choques econômicos, os eleitores parecem inclinados a buscar uma nova rodada de "vingança" política nas urnas — ao menos é o que sugerem as pesquisas mais recentes. Dependendo da dimensão dessa resposta, o resultado pode custar aos republicanos a maioria no Congresso e limitar as ambições econômicas de Trump para o restante de seu mandato.

Tomas J. Philipson, economista da Universidade de Chicago que assessorou Trump durante seu primeiro mandato, atribuiu parte dos aumentos de preços ao que descreveu como objetivos louváveis, incluindo a tentativa de desarmar o Irã. Ele acrescentou que a economia apresentava muitos sinais de força, apesar do desânimo que tomava conta do país.

Mas, ressalvou ele, "as pessoas não acompanham as estatísticas agregadas".

"Elas vão ao supermercado toda semana, vão ao posto de gasolina talvez a cada duas semanas, e ficam chateadas com isso", disse Philipson. "As pessoas continuam irritadas com esses aumentos de preços."

Mais do que qualquer outra questão econômica, foi a disparada dos custos durante o governo do presidente Joe Biden que ajudou a levar os republicanos ao poder em 2024. No dia de sua posse, Trump comprometeu-se a "mobilizar" todo o aparato governamental para "reduzir rapidamente os custos".

Naquele momento, a inflação — medida pelo índice de preços ao consumidor — havia caído para cerca de 3%, e muitos especialistas acreditavam que ela continuaria a recuar em relação aos patamares atingidos durante a pandemia. Em vez disso, os preços começaram a subir, à medida que a agenda de Trump desencadeava uma série de choques econômicos onerosos.

Na tentativa de impulsionar a indústria nacional, o presidente impôs tarifas severas sobre as importações. Frequentemente contestadas na justiça e reajustadas, essas taxas — que mudavam constantemente — aumentaram a arrecadação, mas tornaram os produtos estrangeiros mais caros para os consumidores americanos.

Como resultado, muitos itens essenciais da vida americana — gasolina, mantimentos, plano de saúde, financiamentos imobiliários, entre outros — ficaram mais caros este ano. De modo geral, os aumentos de preços também superaram o ritmo de crescimento dos salários horários dos trabalhadores, segundo o governo, agravando o impacto financeiro.

É verdade que a economia, como um todo, apresenta pontos positivos. A contratação de mão de obra tem sido lenta, porém estável; os mercados estão em alta e os consumidores continuam gastando. Esse consumo, um dos principais motores do crescimento econômico, registrou uma taxa de expansão anual de 3,8% no terceiro trimestre, conforme dados divulgados na quinta-feira.

Isso sugere que os americanos ainda mantêm certa confiança de que sua situação financeira é sólida. Contudo, os eleitores também indicaram — tanto em pesquisas de opinião política quanto em levantamentos feitos por economistas — que o sentimento geral permanece negativo, a poucos dias da eleição.

Os dados "apontam para uma economia que apresenta um desempenho bastante robusto", afirmou Satyam Panday, economista-chefe para os EUA na S&P Global Ratings. "O único ponto crítico na economia é a inflação; acredito que, apesar do consumo e do crescimento fortes, existe esse pessimismo."

Na reta final da disputa de 2026, Trump e seus assessores reagiram às críticas com uma mistura de otimismo e desdém. Eles prometeram, mais uma vez, que conseguirão reduzir os custos rapidamente, ao mesmo tempo em que, por vezes, negam a própria existência de um problema.

Como um sinal da vulnerabilidade dos republicanos, o presidente intensificou suas aparições na fase final da eleição, chegando a visitar estados como Carolina do Sul e Texas — locais que, anteriormente, eram considerados redutos mais seguros para o Partido Republicano. Tendo descrito a economia, em um momento anterior, apenas como um problema de "relações públicas", o presidente redobrou os esforços para apresentar uma narrativa de força econômica.

"Vejam bem, nós conseguimos reduzir a inflação", afirmou ele durante um comício em Michigan, no domingo — minimizando, de forma significativa, a taxa de inflação real do país

Dois dias depois, em Lubbock, no Texas, Trump insistiu que os preços dos combustíveis haviam caído, embora estivessem mais de 1 dólar por galão acima do patamar registrado no dia em que ele assumiu o cargo, segundo dados da AAA. Na quinta-feira, ele estava em Rock Hill, na Carolina do Sul, celebrando o que descreveu como números de crescimento acima das expectativas e uma economia "em plena expansão".

No meio da multidão, enquanto ele falava, era possível ver alguns cartazes com os dizeres: "PREÇOS MAIS BAIXOS".

Estadão
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