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Incentivamos o agronegócio a se afastar do desmatamento, diz CEO global do Rabobank

Para executivo do banco holandês, que tem forte atuação no agronegócio, Brasil tem se firmado referência em soluções de desenvolvimento sustentável na agricultura

28 nov 2025 - 09h41
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Um dos principais nomes do crédito no agronegócio, o Rabobank quer continuar a expansão pelo Brasil sem abrir mão dos compromissos de sustentabilidade firmados globalmente. O esforço, porém, segundo a instituição, esbarra na complexa estrutura regulatória do País, que combate a degradação ilegal, mas ainda prevê uma parcela de desmatamento legal.

O CEO global do banco holandês, Stefaan Decraene, que esteve no Brasil para participar da COP-30, explicou que a instituição financeira mantém tolerância zero com o desmate ilegal. Já com os clientes que exploram licenças permitidas para destruir as florestas, a aposta é em uma combinação de diálogo e incentivos financeiros para convencê-los a preservar ecossistemas.

O CEO global do Rabobank, Stefaan Decraene
O CEO global do Rabobank, Stefaan Decraene
Foto: Fábio Vieira/Estadão / Estadão

"Uma das opções seria abandonar todos os clientes que ainda desmatam legalmente. Eles encontrariam outro banco no dia seguinte", reconheceu Decraene, em entrevista ao Estadão/Broadcast. "Não foi essa opção que escolhemos: preferimos encontrar maneira de convencê-los a fazer diferente."

Segundo ele, o arsenal financeiro para facilitar a persuasão inclui alternativas de empréstimos sustentáveis a juros mais acessíveis e linhas de crédito favoráveis. Entre as iniciativas, o Rabobank oferece condições de longo prazo especiais para fazendeiros que comprem terras já degradadas, ao invés de converter novas áreas, através do fundo AGRI3, criado em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Unep).

Para os produtores que precisam restaurar áreas degradadas ou adquirir reservas legais, o banco dispõe de uma linha de 20 anos para ajudá-lo a se adequar às normas do Código Florestal. "Como um banco cooperativo, podemos devolver algo para a sociedade, então vamos investir em projetos de reflorestamento", disse Decraene.

Foco no combate ao desmate ilegal

A exploração de combustíveis fósseis segue como a principal fonte de liberação de C02 na atmosfera do planeta. No ano passado, porém, o desmatamento e as mudanças no uso da terra exerceram papel decisivo no crescimento das emissões, de acordo com relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. A estimativa é de que as emissões líquidas provenientes desse tipo de atividade cresceram 21% em 2024, responsáveis por mais da metade do aumento total, segundo a entidade.

O movimento reforça a importância do Brasil no cumprimento da principal meta estabelecida, há 10 anos, no Acordo de Paris - limitar o aumento da temperatura global a menos de 2°C ante os níveis pré-industriais, preferencialmente abaixo de 1,5°C. "Como sociedade, temos de focar em ajudar o Brasil a resolver o problema do desmatamento ilegal", defende a CEO do Rabobank no País, Fabiana Alves.

Fabiana Alves, CEO do Rabobank Brasil e General Manager para a América do Sul
Fabiana Alves, CEO do Rabobank Brasil e General Manager para a América do Sul
Foto: Fábio Vieira/Estadão / Estadão

O banco promove programas de capacitação e financiamento responsável, além de incentivar o desenvolvimento da agricultura regenerativa, modelo que visa a garantir a saúde do solo e a recuperação dos ecossistemas. Globalmente, o banco almeja ampliar o volume de financiamento sustentável de € 40 bilhões no final do ano passado para € 75 bilhões. Do lado da captação, a meta é ter um funding verde de € 20 bilhões - em dezembro de 2024, estava em € 13 bilhões.

Nesse processo, o Brasil tem se firmado referência em soluções de desenvolvimento sustentável na agricultura, na visão de Decraene. "Fazendeiros de outros países têm vindo aqui para ver como as coisas são feitas", diz. "Este país é tier 1 (nível 1) na questão da sustentabilidade".

Crédito e recuperação judicial no agro

Em relação às operações no Brasil, o Rabobank se diz confiante na meta de crescer sua carteira de US$ 12 bilhões para US$ 16 bilhões, apesar da pressão sobre o crédito em um cenário de juros restritivo. O banco cooperativo atua primariamente no agronegócio, que enfrenta uma onda de inadimplência e pedidos de recuperação judicial. Mas não enxerga uma crise generalizada no setor.

Na América do Sul, o objetivo é aumentar a carteira do atuais US$ 16 bilhões para US$ 20 bilhões. "Não saio deste banco antes de entregar uma carteira de pelo menos US$ 20 bilhões", afirmou Fabiana Alves.

A queda global nos preços das commodities e uma série de eventos climáticos adversos deixaram um rastro de dificuldades entre produtores rurais. Em setembro, a inadimplência do crédito rural com recursos direcionados em operações a taxas de mercado saltou a 10% para a pessoa física, segundo dados do Banco Central. Na pessoa jurídica, o indicador está mais controlado, a 0,8%, mas está 0,3 ponto porcentual acima do nível observado em igual mês do ano passado.

Para o Rabobank, que opera com 1.300 clientes no segmento de rural banking e 200 no atacado no País, o quadro é menos sombrio que o de bancos focados no varejo, principalmente o Banco do Brasil. "Há uma piora no ritmo de crédito, mas não temos um problema de calotes em nosso portfólio", disse Fabiana.

Ainda assim, a Selic a 15%, no maior nível em quase duas décadas, pode postergar investimentos e inspirar uma postura um pouco mais seletiva, reconheceu Decraene. Para lidar com o cenário, a estratégia da instituição financeira é aprofundar o relacionamento com os clientes. "Devemos ajudá-los com base em nosso conhecimento", disse.

A perspectiva pressupõe a manutenção de um diálogo construtivo mesmo em questões mais críticas. Em particular, o banco tem expressado preocupação com o avanço de casos de recuperação judicial, que considera estar sendo distorcido. No segundo trimestre, os pedidos de RJ no agronegócio cresceram quase 32% frente a igual período de 2024, para 565, de acordo com levantamento da Serasa Experian.

Fabiana critica o que chama de "indústria" da RJ, que provoca incerteza jurídica para os bancos e pode pressionar o crédito, na visão dela. "No longo prazo, isso não é bom para o setor, porque os players bons estão pagando o preço pelos players ruim que permitem esse tipo de distorção do sistema", disse.

Estadão
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