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IA e investidores mais seletivos mudam o manual de criação de startups; entenda por quê

Com investidores mais rígidos e a ascensão da inteligência artificial, o que mudou na criação de startups? Painel na Rio Innovation Week debateu esse novo cenário

6 ago 2026 - 14h36
(atualizado às 14h46)
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Não existe um modelo de negócios que funcione para todas as empresas, e a adaptação às novas tendências e às oportunidades é essencial para qualquer companhia perene e lucrativa. Quando o assunto é startups, as fórmulas prontas raramente funcionam. Mas, no passado, com capital de risco abundante, a tese era clara: focar em aumentar o número de clientes, gastar sem olhar para a rentabilidade e buscar o próximo aporte para sustentar a trajetória de ascensão. Nesta década, isso mudou. Os investidores ficaram mais rígidos depois da euforia de 2021 e os aportes passaram a ser condicionados a métricas mais objetivas.

Essa transformação foi o tema central do painel "Against the Playbook (contra o manual)" na Rio Innovation Week, que contou com a participação de Raquel Teixeira, sócia e líder private para a América Latina da EY, Gustavo Victorica, cofundador e COO do RecargaPay, e Erick Bretas, CEO do Estadão.

Raquel conta que a transformação na métrica de negócios para as startups mudou porque o capital de risco diminuiu diante da exigência dos investidores. "Tínhamos um capital abundante, e fazia sentido crescer rapidamente, focar na aquisição de clientes. Hoje estamos olhando para o crescimento sustentável, para os dados e para o planejamento estratégico", afirma. "O dinheiro não aceita mais uma história bonita. O empreendedor precisa criar uma solução que o mercado precisa e não algo em que ele acredita."

Painel contou com Raquel Teixeira, da EY, Gustavo Victorica, do RecargaPay, e Erick Bretas, CEO Estadão
Painel contou com Raquel Teixeira, da EY, Gustavo Victorica, do RecargaPay, e Erick Bretas, CEO Estadão
Foto: Pedro Kirilos/Estadão / Estadão

Victorica conta que a RecargaPay nasceu em 2002, com um site de vendas de telefonia online que gerava receita desde o dia zero, e não precisou de investimento inicial. Com o avanço das redes sociais, a companhia captou investimento e criou sua própria rede social que teve 50 milhões de usuários, mas o dinheiro acabou. "Tínhamos quase 25 milhões de pessoas cadastradas, e isso foi na época dos chips pré-pagos. Ai, o RecargaPay nasceu, com recarga de celular", conta.

Ele diz que mantém o nome recarga porque ainda existem muitos usuários que usam o app para recarregar cartões de transporte. "A tese inicial era de que todo mundo paga contas, usa um serviço de celular e um serviço de transporte", diz Victorica.

Atendendo a uma necessidade de mercado

Para demonstrar a importância de ter um produto real que atenda a uma necessidade de mercado, Bretas lembrou o caso da startup Juicero, que criou uma máquina de sucos prensados a frio operada por wi-fi usando sachês proprietários. Era como uma Nespresso dos sucos. "Um jornalista abriu o sachê, colocou-o no copo d'água, e o suco ficou igual ao feito com a máquina de US$ 700 que a startup vendia", conta.

Erick Bretas, CEO do Estadão, foi o mediador do painel 'Against the Playbook - empresas que crescem com seu modelo próprio de negócios'
Erick Bretas, CEO do Estadão, foi o mediador do painel 'Against the Playbook - empresas que crescem com seu modelo próprio de negócios'
Foto: Pedro Kirilos/Estadão / Estadão

Segundo Victorica, a tecnologia avançou, a IA ajudará na questão da escala e da eficiência dos negócios, mas algumas práticas precisam ficar no passado. "O que é para rasgar do manual é o crescimento a qualquer custo", afirma.

IA não nos faz trabalhar menos

Bretas cita o caso dos unicórnios de uma pessoa só, como o de um americano que criou cursos de emagrecimento e usou uma camada de agentes de IA para criar um negócio avaliado em US$ 1 bilhão. "Os times das empresas estão sendo drasticamente reduzidos. As companhias que nascem agora na onda da IA têm necessidade menor de caixa, especificamente reduzindo gastos de tecnologia", afirma.

Os desenvolvedores estão usando a IA do Claude para serem mais produtivos, mas estão trabalhando mais porque os agentes precisam de supervisão humana. Segundo Bretas, eles estão sendo mais produtivos do que nunca, mas também estão trabalhando mais tempo do que antes.

Raquel conta que foi empreendedora nos anos 1990 e vê que a IA facilitou a abertura de novos negócios, por exemplo, graças às facilidades que a tecnologia traz para lidar com burocracias e atividades administrativas. "Não confunda uma economia processual, com menos pessoas no primeiro momento, com uma eliminação de estratégia certa para o seu produto. A IA não vai substituir o humano nas relações com os clientes", diz Raquel.

Segundo Victorica, a tecnologia avançou, a IA ajudará na questão da escala e da eficiência dos negócios, mas algumas práticas precisam ficar no passado. "O que é para rasgar do manual é o crescimento a qualquer custo", afirma.

Ele diz que a IA facilita a criação do MPV (o mínimo produto viável), mas ainda existem desafios para as fintechs na integração ao ecossistema financeiro que a tecnologia não consegue solucionar.

"Colocamos o Copilot para atender os clientes, e o resultado foi 50% pior na primeira versão. Houve uma curva de aprendizado, e agora 100% dos casos são atendidos com uma dupla de humano e IA e o nível de satisfação do cliente subiu. Tem uma curva de aprendizado que leva tempo", diz.

Estadão
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