Haddad chama tarifaço dos EUA de 'agressão' e diz que família Bolsonaro criou dificuldade
O ministro da Fazenda também voltou a classificar como 'restritivo' o atual nível da taxa básica de juros (Selic) e disse que 'poucos países conviveriam com uma taxa tão restritiva'
BRASÍLIA - O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, definiu como "injustificável" e "uma agressão" contra o Brasil a imposição dos Estados Unidos de tarifas de 50% a produtos brasileiros, conforme anunciado no dia 9 pelo presidente americano Donald Trump.
"Tem um plano de desenvolvimento em curso. Estamos ainda com várias preocupações, agora com essa ameaça externa (dos EUA) injustificável. Uma agressão contra o Brasil, que é um País amigo de todos", disse o ministro em entrevista ao Canal do Presley, no YouTube, gravada na sexta-feira, 18.
"Penso que nós vamos superar essa dificuldade que a família Bolsonaro criou para todos nós e, superando, a gente tem uma avenida de desenvolvimento pela frente", completou o ministro.
Benefícios fiscais
Haddad voltou a defender o corte de benefícios fiscais que "não se justificam mais", citando como exemplos a desoneração da folha de pagamentos e o Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse).
"Eu sou até a favor de que alguns setores devam receber um estímulo, mas esse estímulo tem que ter começo, meio e fim e tem que ter acompanhamento. Alguém tem que ter a coragem de cortar o cordão umbilical, se não a pessoa vai ficar ali mamando o tempo todo no Orçamento", prosseguiu.
Ele disse também que a Fazenda criou um mecanismo para o Congresso acompanhar a concessão de benefícios. "E mais do que acompanhar o que foi dado, é não dar mais benefício fiscal sem critério, como tem acontecido", criticou.
Haddad defendeu ainda que o País só deve prorrogar "aquilo que faz sentido para um plano estratégico de desenvolvimento da indústria e nacional".
O ministro fez menção a comentários de governos anteriores sobre a "caixa-preta do BNDES", dizendo que, "para quem conhece finanças públicas", a verdadeira caixa-preta é o Orçamento. "Essa é a caixa-preta do País."
Poucos países conviveriam com juro de 15%
Haddad voltou a classificar como "restritivo" o atual nível da taxa básica de juros (Selic) e disse que "poucos países do mundo conviveriam com uma taxa tão restritiva".
"Acredito que o patamar restritivo da atual taxa de juros está muito elevado. Ela está muito restritiva, porque estamos falando de uma inflação que vai terminar o ano na casa dos 5% ou menos. Para uma taxa de 15%, você está falando de 10% de juro real. É ultrarrestritivo", afirmou.
Se for um remédio temporário, comparou ele, "ela pode até se justificar". "Agora, todo remédio vira veneno com a dose", completou.
IOF
O titular da Fazenda também defendeu o decreto presidencial que aumentou as alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Ele reconheceu que o IOF tem impacto monetário e fiscal, mas disse que seu viés é regulatório e "corretivo". O decreto foi restabelecido, em sua maioria, na última semana, por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
"Eu posso calibrar esse imposto (IOF) do dia para a noite para justamente fazer com que a economia atinja os seus objetivos macroeconômicos. Então, essa liberdade a autoridade fazendária precisa ter", disse Haddad.
Ajuste fiscal
Haddad também voltou a dizer que o governo Lula faz ajuste fiscal mirando "no andar de cima". "Toda hora que você falava em ajuste fiscal era tomando do mais pobre. Agora, estamos falando em ajuste fiscal, mas vamos cortar o privilégio e vamos preservar o vulnerável. Foi essa a conta, e isso causa uma grande revolta nesse 1%", disse Haddad, criticando os lobbies no Congresso.
Ele ainda destacou que, desde o segundo governo Lula, o País não tem dívida externa. "Nosso problema é arrumar a casa internamente, evitar pautas-bomba, evitar decisões judiciais que descontrolam as finanças públicas e assim por diante", pontuou.
Haddad concedeu quatro entrevistas a influenciadores digitais na sexta-feira, gravadas no escritório do Ministério da Fazenda em São Paulo. Os conteúdos começaram a ser divulgados nesta segunda, 21.