'Há um recuo na globalização e uma mudança na carteira de investimentos globais', diz André Esteves
Sócio do BTG diz que investidores estrangeiros estão buscando alternativas ao dólar e aos títulos americanos; Brasil tem sido beneficiado por esse movimento
O presidente do Conselho de Administração e sócio do BTG Pactual, André Esteves, afirmou nesta quinta-feira, 26, que vê um recuo da globalização, tendo em vista políticas do governo americano que visam estimular a produção local, em vez de uma maior integração com outros países.
"Nós, em alguma instância, estamos recuando naquilo que a gente chamou de globalização, que na sua essência tem muitas outras coisas envolvidas, mas é o alongamento dessas cadeias produtivas globais", comentou o banqueiro durante o Global Managers Conference, promovido pelo BTG Pactual.
Esteves pontuou ainda que movimentos de descentralização da produção — da China para outros mercados —, como o nearshoring e o friendshoring, são lentos, mas estão acontecendo. Em paralelo, acrescentou, as políticas mais isolacionistas dos Estados Unidos também têm como desdobramento uma remodelação dos portfólios de investimento globais, com fundos buscando diversificação do dólar e de ativos americanos.
Nesse sentido, ele citou como exemplo o corte de recursos para a Universidade de Harvard e de anexação do Canadá. "Grandes investidores, como fundos de pensão, estão diversificando do dólar e títulos do Tesouro dos EUA", afirmou ele. Esteves notou que o maior efeito de tal diversificação foi no dólar, enquanto não houve saída ou aumento de posições no mercado de ações, que segue firme.
O executivo acrescentou que a fraqueza do dólar não implica haver algo errado na economia dos EUA. "Nada está errado na economia dos EUA, mas a moeda não é só economia e juro, tem a ver com previsibilidade, transparência, padrões morais. Quando as coisas estão confusas e estranhas no horizonte, como Harvard e Canadá, tem impacto na moeda", disse.
Realocação de recursos
Esteves afirmou que o Brasil tem sido beneficiado por tal movimento de realocação e que o BTG tem sido surpreendido com a quantidade de investidores estrangeiros se posicionando no País. Ele lembrou que o Brasil está barato e oferece prêmios interessantes em qualquer um dos ativos que se olhe, desde ações até juro. "Resta saber se isso vai continuar ou se já aconteceu", acrescentou.
Ele avaliou que o desempenho da maioria dos mercados de capitais, incluindo o Brasil, reflete mais a perda de liquidez para os Estados Unidos — cujos investimentos foram impulsionados pelo excepcionalismo americano — do que propriamente ao ambiente doméstico.
"Aqui no Brasil, todo o movimento de preço que a gente viu não teve nada a ver com o mercado interno. Foi basicamente o mercado externo. Tem um pouquinho de proximidade de eleição, mas muito menos do que os headlines (manchetes) de jornal ou o que as nossas conversas de bar sugerem. O que aconteceu foi um spillover (repercussão) do mercado americano para o resto do mundo, com forte impacto em emergentes", comentou o banqueiro.
"Se os capitais foram para lá (EUA), eles deixaram de ir para outros lugares. E esses outros lugares incluem o Brasil. Não aconteceu nada de muito especial, de bom ou de ruim com o Brasil, para os capitais que viriam para cá, ou que estavam aqui e foram para lá", assinalou.
Segundo Esteves, os Estados Unidos ainda mostram bons indicadores econômicos, porém o longo ciclo de crescimento americano passou e está agora em xeque, devido a preocupações com os efeitos da política comercial do governo de Donald Trump. O banqueiro observou que as tarifas anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos partem de uma tese — segundo ele, um pouco estranha — de que qualquer déficit comercial significa transferência de riqueza a um outro país.
"Essa tese não tem respaldo na realidade. Os Estados Unidos têm déficits estruturais comerciais desde o início dos anos 1970. E, no entanto, nenhum outro país ficou tão rico quanto os Estados Unidos", afirmou o banqueiro.