Guerra gera temor de nova crise do petróleo como nos anos 1970
Interrupções no fornecimento, preços altos, mercados instáveis - conflito no Irã traz à tona memórias das crises da década de 1970, quando muitas economias mergulharam na estagflação. Quão grave é a crise atual?Desde o início da guerra no Irã, a alta nos preços do petróleo despertou lembranças dos dramáticos choques petrolíferos de 1973 e 1979.
Em 1973, os países árabes produtores de petróleo impuseram um embargo contra várias nações ocidentais como punição por apoiarem Israel durante a Guerra do Yom Kippur. Os preços do petróleo dispararam, forçando muitos governos ocidentais a implementar medidas para economizar energia, como o racionamento de gasolina.
A Alemanha, por exemplo, declarou vários dias sem carros, proibindo a circulação de veículos particulares nas ruas em quatro domingos consecutivos. Estaria o mundo novamente à beira de uma crise semelhante?
Fatih Birol, chefe da Agência Internacional de Energia (AIE), fez um alerta contundente nesta segunda-feira (23/03), ao afirmar que a guerra com o Irã "já é a maior ameaça à segurança energética da história".
Ele considera a crise atual pior do que os choques do petróleo da década de 1970, bem como as consequências da invasão da Ucrânia pela Rússia.
Nos anos 1970, falava-se de "um déficit de cerca de cinco milhões de barris de petróleo por dia", disse Birol. "Hoje, são 11 milhões de barris por dia, mais do que durante os dois grandes choques do petróleo juntos."
O especialista pinta um quadro igualmente sombrio em relação ao mercado de gás.
Comparado à situação após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, disse Birol, o déficit global de oferta de gás dobrou.
Na década de 1970, a redução da oferta de petróleo bruto provocou uma forte alta nos preços do petróleo, o que, por sua vez, impulsionou os preços de outros bens, causando um choque inflacionário. Ao mesmo tempo, a produção industrial e o crescimento econômico despencaram. A combinação devastadora da inflação galopante e da recessão econômica mergulhou muitas nações industrializadas, incluindo a Alemanha, em estagflação.
Preços não subiram tanto quanto nos anos 1970
O conflito em curso com o Irã e o fechamento quase total do Estreito de Ormuz - um gargalo crucial do transporte marítimo no Golfo Pérsico, por onde passa um quinto das remessas globais de petróleo e gás - reduziram a oferta global de petróleo em cerca de 8%.
"Naquela época [década de 1970], a oferta global de petróleo caiu apenas cerca de 5%. Nesse aspecto, o choque é, na verdade, mais pronunciado agora do que em 1973 e 1974", afirma Klaus-Jürgen Gern, economista do Instituto de Economia Mundial de Kiel.
Ainda assim, ele destacou que os preços do petróleo subiram muito mais acentuadamente na década de 1970 do que agora. "De 1973 a 1974, os preços do petróleo quadruplicaram. Em 1979, triplicaram novamente", disse Gern à DW.
Embora os países árabes tenham suspendido o embargo no início de 1974 e a oferta de petróleo tenha aumentado, eles mantiveram os preços elevados durante o restante da década, atuando como um entrave persistente para a economia global.
Hoje, o cenário é diferente. "Vimos os preços do [barril de] petróleo ultrapassarem 100 dólares (R$ 526) em algumas ocasiões, mais recentemente após a invasão da Ucrânia pela Rússia", observou Gern, acrescentando que os preços do petróleo também atingiram tais patamares em 2007, 2008 e 2011.
"Nesse sentido, isso não é totalmente inédito", observou. "Era diferente na década de 1970. Naquela época, os países importadores de petróleo enfrentavam preços nunca antes vistos." Além disso, ninguém sabia por quanto tempo os preços do petróleo permaneceriam altos, acrescentou.
Desta vez, explicou Gern, os preços elevados são resultado de uma queda na oferta global devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz e à subsequente paralisação das instalações de produção de combustível em todo o Golfo, e não de danos duradouros à infraestrutura energética da região.
Ele acredita que tanto a oferta quanto os preços se estabilizarão e retornarão aos níveis pré-guerra tão logo termine o conflito. Um relatório do Deutsche Bank Research também concluiu que os mercados ainda não preveem um choque prolongado do petróleo.
Infraestrutura energética danificada ou paralisada
O conflito, no entanto, causou danos a mais de 40 instalações de energia em nove países do Oriente Médio, afirmou Biral, acrescentando que mesmo que a guerra terminasse imediatamente, levaria "muito tempo" para que as instalações danificadas voltassem a funcionar. "Algumas (instalações) levarão seis meses para voltar a operar, outras muito mais tempo", afirmou ao jornal Financial Times.
O Catar, por exemplo, relatou que os ataques iranianos ao complexo de Ras Laffan - a maior instalação de produção de gás natural liquefeito (GNL) do mundo - poderiam reduzir o fornecimento em cerca de 17% ao longo de três a cinco anos.
Mas Christoph Rühl, da Universidade Columbia, em Nova York, acredita que uma verdadeira crise energética só ocorreria se o Estreito de Ormuz permanecesse fechado por muito tempo e outras instalações de combustível fossem danificadas.
Ele destacou que o Catar fornece cerca de 20% do gás natural do mundo, e que, mesmo com interrupções na produção da usina de Ras Laffan, apenas cerca de 4% do fornecimento mundial de gás natural seria afetado.
Medidas de emergência para conter a demanda
O mercado de petróleo também está mais diversificado atualmente do que durante os choques de preços anteriores.
Enquanto os países membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) - um cartel intergovernamental fundado em 1960 para coordenar as políticas petrolíferas - forneciam mais da metade do petróleo bruto mundial em 1973, sua participação desde então caiu para pouco mais de 36%.
Os EUA já eram o maior produtor de petróleo naquela época e continuam sendo ainda hoje. Na última década, o país teve um aumento acentuado na produção, fornecendo até 90% do petróleo adicional no mercado global.
Apesar das crises da década de 1970, que tornaram o Ocidente dolorosamente consciente de sua dependência do petróleo do Oriente Médio, a demanda por esse combustível fóssil continuou a crescer.
A oferta global, que era inferior a 60 milhões de barris por dia em 1973, já havia atingido quase 94 milhões de barris por dia em 2022.
Para evitar interrupções no fornecimento, muitos países acumularam reservas significativas de petróleo. De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), essas reservas atingiram 8,2 bilhões de barris no início deste ano, seu nível mais alto desde fevereiro de 2021.
Os estoques ajudam a mitigar a atual escassez de oferta, com a AIE anunciando no início deste mês que seus Estados-membros concordaram em liberar 400 milhões de barris de petróleo de suas reservas de emergência para enfrentar os desafios decorrentes do conflito no Oriente Médio.
Estima-se que a liberação de reservas tenha reduzido o déficit global de petróleo bruto de 11 milhões de barris por dia para 8 milhões de barris. Para aliviar a escassez de oferta, os EUA também suspenderam temporariamente as sanções ao petróleo russo e iraniano que já está a bordo de navios petroleiros.
Essas reservas impediram, até o momento, que os preços do petróleo subissem mais acentuadamente, de acordo com a Commerzbank Research.
Ao longo da última década, os países membros da AIE também acumularam grandes reservas de gás para mitigar a escassez de oferta.
Tudo se resume à duração da guerra
"As reservas atuais da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) - tanto comerciais quanto estratégicas - poderiam compensar a perda de remessas de petróleo pelo Estreito de Ormuz por cerca de nove meses", disse Carsten Fritsch, analista de commodities do Commerzbank, à DW.
A China também acumulou reservas estratégicas e comerciais que poderiam cobrir suas necessidades de importação do Oriente Médio por cerca de sete meses, acrescentou.
Não se sabe ao certo quanto tempo o conflito militar irá durar. O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou recentemente que seu país e o Irã estavam em negociações "produtivas" para encerrar a guerra, mas Teerã negou a afirmação, tornando incerto como o fornecimento de petróleo e gás do Oriente Médio será afetado nos próximos meses.
A economia mundial, enquanto isso, já sente o impacto da guerra.
"Veremos duas coisas acontecerem: a inflação aumentará no curto prazo e a produção industrial diminuirá porque o consumo de petróleo será reduzido sempre que possível", disse Gern.
Embora nações ocidentais como a Alemanha ainda não tenham introduzido medidas para reduzir o consumo de energia, países em outras partes do mundo já iniciaram ações para conservar combustível.
O Paquistão, por exemplo, ordenou que os torcedores de seu principal torneio de críquete - esporte bastante popular na região do sul da Ásia - fiquem em casa e assistam às partidas pela televisão, transformando a Liga Super do Paquistão para um modelo de transmissão remota.