Grupo MK, dono da Mondial e da Aiwa, vai investir R$ 70,7 milhões em terceira fábrica no País
Pressionada pela falta de mão de obra qualificada, companhia decidiu deslocar o investimento que poderia ser feito na unidade de Conceição do Jacuípe (BA) para uma nova fábrica em Cruz das Almas (BA)
A falta de mão de obra qualificada, um dos grandes gargalos enfrentados hoje pelas empresas brasileiras, fez o Grupo MK, dono das marcas Mondial, líder em eletroportáteis no Brasil, e da Aiwa, de TVs e caixas de som, deslocar um investimento que poderia ser feito em sua principal fábrica em Conceição do Jacuípe, no Recôncavo Baiano, para Cruz das Almas, outro município da região, a 65 quilômetros de distância.
Entre construção e novas máquinas e equipamentos, o grupo vai investir R$ 70,7 milhões em sua terceira fábrica no País, no município de Cruz das Almas (BA). Além de Conceição do Jacuípe, a companhia tem uma unidade de produção de TVs e aparelhos de ar-condicionado em Manaus (AM), a antiga fábrica da Sony, comprada em 2020.
A nova unidade de Cruz das Almas começa a ser erguida em outubro deste ano, e a primeira etapa do projeto está prevista para entrar em funcionamento no final de 2026.
"Foi uma decisão estratégica, não dá para crescer mais ali, batemos no limite", disse, ao Estadão Giovanni Marins Cardoso, cofundador do Grupo MK, frisando que operação da companhia segue normalmente no município.
Na fábrica de Conceição do Jacuípe a empresa tem 5.200 funcionários, e a cidade, entre 7 mil a 8 mil pessoas ativas (em idade de trabalho). "Começamos a ter que contratar gente com uma peneira mais aberta", contou o empresário.
A saída foi buscar uma cidade relativamente próxima onde houvesse oferta de mão de obra qualificada, energia e logística. E, com isso, a empresa tivesse mais tranquilidade em relação à oferta de fatores básicos de produção.
Segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2022 Cruz das Almas tinha uma população de 60 mil habitantes, ante 35 mil de Conceição do Jacuípe, e o número de pessoas em idade de trabalho variava de 16 mil a 20 mil, segundo pesquisas feitas pelo grupo. "Lá tem gente sobrando, e a prefeitura mantém uma escola de formação de pessoal para indústria, são profissionais mais qualificados", disse Cardoso.
Ele contou que municípios vizinhos de Conceição do Jacuípe ofereceram terrenos para erguer a fábrica, como ocorreu com a Prefeitura de Cruz das Almas que cedeu uma área de 200 mil metros quadrados. No entanto, ele declinou das ofertas. Isso porque o principal problema, que é a falta de mão de obra qualificada, não seria resolvido.
Além do investimento na terceira fábrica, o grupo está desembolsando R$ 44 milhões para a construção de um novo Centro de Distribuição (CD) em Conceição do Jacuípe, que dará suporte à produção da fábrica principal. Ao todo, nos dois projetos, nova fábrica e CD, serão aplicados R$ 116,7 milhões.
Juros nas alturas
Os investimentos da companhia ocorrem momento no qual os juros básicos da economia brasileira estão em níveis elevados, atualmente em 15% ao ano. Esse é um argumento usado geralmente pelos empresários para adiar os planos de ampliar a capacidade de produção das fábricas.
"A taxa de juros está alta hoje, mas não será alta para sempre, ela vai começar a cair daqui a um ano", afirmou Cardoso. Segundo ele, são nesses momentos que aparecem oportunidades. Ele disse que o grupo tem uma visão positiva para a economia brasileira e que, no passado, como na época da pandemia, realizou investimentos quando outros grupos recuavam.
Além disso, no caso dos eletroportáteis, carro-chefe da companhia, são itens de menor valor, cuja compra não depende de financiamento. "O consumidor olha se a prestação cabe no bolso, e o tíquete médio é baixo, de R$ 220."
Questionado se o investimento em ampliação da capacidade de produção e em novas linhas de produtos seria coerente com recentes pesquisas da Eletros, associação que reúne os fabricantes de eletroeletrônicos, que mostra recuo de 6% nas vendas de eletroportáteis da indústria para o varejo no primeiro trimestre deste ano ante o mesmo período de 2024, o empresário contestou os dados.
Cardoso disse que as vendas de eletroportáteis seguem crescendo na ponta para o consumidor e esse recuo ocorreu porque os varejistas diminuíram os volumes de estoques em razão dos juros elevados. Na sua avaliação, o mercado vive um bom momento, especialmente neste segundo semestre do ano, quando ocorrem Black Friday, praticamente antecipada para o início de novembro, e o Natal, a melhor data para o varejo.
Investida na Argentina
Dê olho nas oportunidades que se abrem no mercado em meio às turbulências, a companhia vai abrir a partir do mês que vem um CD na Argentina. "A Argentina hoje é um país que está mais aberto, com fluxo financeiro mais regulado, e o mercado local precisa de uma fábrica como a Mondial", disse o executivo.
A meta do grupo é liderar a venda de eletroportáteis no país vizinho ao final de 2026. "Não espere por circunstâncias ideais, elas nunca chegam, vamos fazer com o que temos na mão hoje." Com duas fábricas, 440 produtos, a perspectiva da companhia é faturar perto de R$ 8 bilhões este ano. Em 2024, as vendas somaram R$ 6,3 bilhões.