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Gigantes da tecnologia gastam bilhões com IA, mas investidores temem que a conta não feche

Investimentos em centros de dados e chips pressionam o caixa de Amazon, Microsoft e Meta; ações de tecnologia perderam US$ 1 trilhão em valor de mercado na sexta-feira, 30

31 out 2026 - 16h48
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Resumo
Gigantes da tecnologia, como Amazon, Alphabet, Meta e SpaceX, preveem investir até US$ 828 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial em 2026. Esses altos custos já deterioram o fluxo de caixa livre e forçam emissões de dívidas e ações para financiar a expansão física. Wall Street reagiu com fortes quedas nos índices Nasdaq e S&P 500, refletindo o temor de analistas de que os lucros futuros da IA demorem a surgir, ameaçando desestabilizar o setor e toda a economia.

As empresas mais ricas do mundo estão gastando tanto em infraestrutura para sustentar a inteligência artificial (IA) que estão consumindo bilhões em dinheiro e colocando em risco a recente valorização das ações impulsionada pela tecnologia, enquanto Wall Street demonstra instabilidade.

Os mais recentes balanços financeiros de quatro das maiores empresas de tecnologia com infraestrutura de computação em nuvem — Amazon, Alphabet, Microsoft e Meta —, além da SpaceX, empresa de Elon Musk que está expandindo sua atuação no setor de IA e inclui a xAI, revelaram que esse pequeno grupo de gigantes da tecnologia deve investir até US$ 828 bilhões em despesas de capital neste ano. Os gastos incluem centros de dados, chips de alto desempenho e outras estruturas que alimentam a inteligência artificial.

De acordo com os resultados financeiros divulgados pelas empresas e as teleconferências com investidores, os US$ 828 bilhões em despesas de capital (CapEx) correspondem aos investimentos previstos para 2026: US$ 220 bilhões da Amazon, até US$ 205 bilhões da Alphabet, aproximadamente US$ 170 bilhões da Microsoft, até US$ 145 bilhões da Meta e até US$ 88 bilhões da SpaceX.

Neste momento, a enorme conta da infraestrutura de IA já supera o valor de mercado de empresas conhecidas, como a gigante do setor de energia ExxonMobil e a empresa de pagamentos Mastercard. O montante também se aproxima dos cerca de US$ 1 trilhão que os Estados Unidos estão gastando com defesa neste ano fiscal — o maior orçamento militar do mundo. Diversos bancos, incluindo Evercore e Bank of America, estimam que as despesas de capital relacionadas à IA chegarão a US$ 1 trilhão em 2027.

Em parte como reação a esses gastos elevados, as ações despencaram na sexta-feira, 31, levando tanto a Nasdaq quanto o S&P 500 a registrar seus piores desempenhos em um único dia desde junho. O índice Nasdaq, fortemente concentrado em empresas de tecnologia, fechou em queda de 2,9%, enquanto o S&P 500 recuou 1,8%. As empresas que compõem o Nasdaq 100 perderam mais de US$ 1 trilhão em valor de mercado. As projeções pessimistas da fabricante americana de chips Intel para os últimos três meses do ano também contribuíram para o movimento.

Parte da apreensão do mercado está relacionada às preocupações com o fluxo de caixa livre, que há muito tempo é uma fonte de força das empresas do Vale do Silício, mas recentemente começou a apresentar sinais de deterioração. Quatro das cinco gigantes da tecnologia que estão investindo centenas de bilhões de dólares em despesas de capital registraram fluxo de caixa livre negativo no terceiro trimestre (a exceção foi a Microsoft). Isso significa que gastaram mais com edifícios, equipamentos e outros investimentos em ativos do que conseguiram gerar em dinheiro com suas operações.

À medida que empresas que construíram suas fortunas vendendo softwares e serviços passam a direcionar cada vez mais dinheiro para infraestrutura física, algumas estão recorrendo a empréstimos ou à captação de recursos para financiar esses investimentos. Como um pequeno grupo de ações de tecnologia representa uma parcela desproporcional do S&P 500, o sucesso ou o fracasso desses investimentos pode ter consequências enormes para o mercado e para os milhões de americanos que investem nele.

Aleksandar Tomic, economista e vice-reitor do Boston College, alertou que esses investimentos em infraestrutura podem provocar consequências muito além do Vale do Silício caso não tragam os resultados esperados, especialmente porque as empresas dependem cada vez mais de dívidas para financiar sua expansão. O aumento dos empréstimos pode elevar o custo do capital para outras companhias, enquanto uma desaceleração entre as gigantes da tecnologia pode se espalhar por toda a economia.

"Se essas empresas de tecnologia espirrarem, o restante do mercado vai pegar pneumonia", disse Tomic à Fortune.

Uma aposta cara

Os resultados financeiros recentes da Microsoft mostram como a corrida pela IA está afetando as decisões das empresas de tecnologia de maneira geral.

Há décadas, a gigante dos softwares está entre as empresas que mais geram caixa no mundo. No último ano fiscal, obteve quase US$ 134 bilhões em lucro e gerou cerca de US$ 183 bilhões em dinheiro com suas operações. Ainda assim, no mesmo período, seus gastos com imóveis e equipamentos aumentaram aproximadamente 80%.

Na quinta-feira, 30, a Microsoft anunciou uma emissão de US$ 25 bilhões em títulos de dívida, sua primeira operação desse tipo em mais de nove anos. A empresa afirmou que os recursos serão destinados a finalidades corporativas gerais, o que pode incluir despesas de capital.

A Microsoft continuou apresentando fluxo de caixa livre positivo no último trimestre, diferentemente de suas concorrentes Amazon, Alphabet, Meta e SpaceX. Mas, com o aumento dos custos de infraestrutura, a companhia também está buscando levantar recursos.

A Meta registrou fluxo de caixa livre negativo de US$ 2,1 bilhões no último trimestre, em comparação com um resultado positivo de US$ 10,6 bilhões no mesmo período do ano anterior. Na segunda-feira, anunciou que emitirá novas ações em um plano para levantar até US$ 95 bilhões, o que lhe dará mais recursos que poderão ser destinados à infraestrutura de IA.

A Oracle, outra grande participante da corrida pela infraestrutura de inteligência artificial, também está recorrendo a empréstimos e a outras formas de financiamento para sustentar sua expansão. Nesta semana, a empresa informou aos investidores que não espera voltar a registrar fluxo de caixa livre positivo até o segundo semestre de seu próximo ano fiscal, que se estenderá até maio de 2028. Depois disso, afirmou que prevê uma disparada no fluxo de caixa livre, que deverá alcançar pelo menos US$ 30 bilhões no ano fiscal encerrado em maio de 2029.

O retorno dos investimentos em IA

Por enquanto, algumas das grandes empresas de tecnologia podem apontar um sinal animador: os clientes estão pagando mais do que nunca pelo poder de processamento computacional. A receita da divisão de computação em nuvem do Google mais do que dobrou no último trimestre, enquanto o negócio Azure, da Microsoft, cresceu 48%, e a Amazon Web Services teve expansão de aproximadamente 39%.

Os provedores de serviços em nuvem ganham dinheiro, em parte, alugando capacidade de processamento para empresas que desenvolvem inteligência artificial. Como a demanda por IA também deve crescer nos próximos anos, essas operações podem se tornar uma importante fonte de receita para as gigantes de tecnologia. Ainda assim, nem toda a receita da computação em nuvem vem da inteligência artificial, e o aumento das vendas não necessariamente comprova que os enormes investimentos feitos atualmente trarão o retorno esperado.

Outra notícia positiva para o setor de IA foi o fato de a Anthropic, desenvolvedora do Claude, ter protocolado os documentos para uma oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês). O movimento ajudou a impulsionar a Nasdaq em 0,8% na segunda-feira, 26. O documento também chamou a atenção para mais de US$ 265 bilhões em compromissos futuros de compra mínima, destinados principalmente a serviços de computação em nuvem e outras infraestruturas — o que pode beneficiar as gigantes do setor.

Ainda assim, de maneira geral, as empresas estão apostando hoje quantias enormes de dinheiro para construir a capacidade computacional de que esperam precisar daqui a vários anos. A estratégia pode se mostrar acertada, mas também envolve grandes riscos no curto prazo.

Para os investidores, a questão é cada vez mais se a inteligência artificial será lucrativa o suficiente para justificar uma conta tão elevada. Se os centros de dados e os chips caros não gerarem os lucros esperados pelas empresas, as consequências poderão ultrapassar em muito o Vale do Silício e atingir a economia americana e outros mercados, afirmou Tomic.

"Precisamos de infraestrutura, precisamos desse capital, mas será que elas conseguem sustentar isso? Acho que essa é a grande questão", disse.

O CEO da Amazon, Andy Jassy, cuja empresa informou na quinta-feira ter registrado fluxo de caixa livre negativo superior a US$ 42 bilhões nos últimos 12 meses, deixou claro, durante a teleconferência de resultados do terceiro trimestre, que considera haver poucas alternativas a não ser continuar gastando.

"Seria mais conveniente se esse tipo de aceleração e oportunidade acontecesse ao longo de 25 anos e pudéssemos distribuir as despesas de capital por esse mesmo período?", perguntou Jassy a um analista durante a teleconferência. "Sim, talvez fosse mais conveniente. Mas esse não é o mundo em que vivemos, nem é essa a oportunidade que temos diante de nós."

Estadão
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